Ano 20

Aldine Müller

A atriz Aldine Müller nasceu em 8 de outubro de 1953, em São José dos Ausentes, Rio Grande do Sul. O desejo de ser atriz já vinha desde a infância: “Na realidade, meu objetivo sempre foi ser atriz, desde que eu nasci. Na minha vila eu pegava, por exemplo, o filho pródigo, pegava lá da bíblia, adaptava, preparava para o teatro, dirigia, atuava, cobrava bilheteria e entrava em cena. Então eu sou atriz desde que nasci, entendeu? Não tenho, nunca tive vontade de fazer outra coisa”. O começo da carreira artística é como modelo, posando para capas de revistas e trabalhando em comerciais. Depois atua na TV Tupi em programas humorísticos, até que é convidada para o cinema: “Eu cheguei primeiro na televisão, eu comecei na Tupi fazendo oAlegríssimo, um programa de humor, fazendo Os trapalhões. Mas aí o que aconteceu? Na Tupi eu estava virando meio que uma figurante ‘bom dia’, ‘com licença’, ‘entra aqui’, ‘segue aqui’, essas coisas, sabe?”.

Aldine Müller estreia nas telas no período de efervescência da produção da Boca do Lixo, em São Paulo, na qual se tornará uma das principais e mais amadas musas. A estreia é em O clube das infiéis (1974), de Cláudio Cunha, e logo depois encontrará o cinema do grande cineasta Jean Garrett, que vai lhe reservar os melhores filmes e personagens: “O mais bonito de todos é o Força dos sentidos, do Jean Garrett, porque eu fiz bons filmes com ele mesmo. Mas acho que eu não estava preparada para fazer A mulher que inventou o amor, fui péssima. Era um trabalho para ganhar o Oscar, mas eu estava muito ruim. O Jean Garrett é um excelente diretor de imagens, então na época não tinha ainda diretores de atores, se eu tivesse tido uma orientação como atriz, um diretor me dirigindo só... É um trabalho muito difícil para uma atriz muito amadora, como era o meu caso”.

Aldine Müller tem carreira extensa e importante no cinema, no qual foi dirigida por mestres como Walter Hugo Khouri, Carlos Reichenbach, John Doo, Ody Fraga e o citado Jean Garrett. Com a entrada do sexo explícito, abandona os filmes da Boca e intensifica a carreira no teatro e na televisão, atuando em novelas de várias emissoras. Depois de mais de 20 anos longe do cinema, a atriz retorna em 2 coelhos (2012), de Afonso Poyart: “Quando eu fui na estreia eu não sabia o que ia ver, sabe quando você não tem ideia? A Veja veio me entrevistar, ‘a volta da rainha da pornochanchada’, e eu não tinha ideia do que ia ver. Menino, quando eu vi o filme eu levei um susto, o filme era muito bom”. Atualmente, a atriz estrela a peça de sucesso Virgem aos 40.com.

Aldine Müller conversou com o site Mulheres do Cinema Brasileiro pelo telefone de sua casa em São Paulo, em abril de 2013. Ela fala sobre sua trajetória, o início da carreira, os filmes, os encontros com cineastas como Jean Garret, Walter Hugo Khouri e Carlos Reichenbach, o trabalho nas novelas e no teatro, a volta ao cinema e outros assuntos.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Para começar, cidade onde nasceu e data de nascimento.

Aldine Müller: Eu sou gaúcha, nasci em São José dos Ausentes, sou libriana, nasci em 1953. 

MCB: Em 8 de outubro?

AM: 8 de outubro, sou libriana, nasci no dia 8 de outubro.

MCB: Em algumas fontes, falam que você nasceu em Lisboa.

AM: Na verdade isso não procede, sabe o que acontece? Eu também trabalhei muito como modelo e em um período eu fui trabalhar na Venezuela. Já que eu estava lá, eu recebi um convite para representar Portugal em um concurso de beleza, porque eles estavam fazendo um concurso e acharam que eu era uma dessas brasileiras que estavam lá que mais se assemelhavam às portuguesas. Aí, quando globalizou, virou uma coisa como se eu tivesse nascido lá. Na época, esse concurso tinha que colocar como se eu fosse mesmo uma portuguesa e aí eles colocaram nos jornais que eu era uma portuguesa, quando globalizou o jornal veio para o Brasil e aí ficou essa coisa. Na verdade, eu sou gaúcha do Rio Grande do Sul. Foi um concurso de beleza, se você procurar você vai achar esse concurso, que deve ter na internet, esse concurso de beleza que foi o miss Tanga, e eu fiquei em terceiro lugar, eu representava Portugal.

MCB: Essa sua trajetória como modelo ocorreu durante quanto tempo?

AM: Isso foi todo um começo, cheguei, trabalhei na Tupi, começou em 75. Durou uns três, quatro anos, mas isso tudo intercalado já com o meu começo como atriz. Porque, na realidade, meu objetivo sempre foi ser atriz, desde que eu nasci. Na minha vila eu pegava, por exemplo, o filho pródigo, pegava lá da Bíblia, adaptava, preparava para o teatro, dirigia, atuava, cobrava bilheteria e entrava em cena. Então eu sou atriz desde que nasci, entendeu? Não tenho, nunca tive vontade de fazer outra coisa. Fora que as pessoas nem sabiam o que era arte, era uma vila, mas eu devo isso muito a uma professora, professora de ginásio, que me incentivou muito, ela era uma alemã, uma pessoa muito especial, professora Nilza, ela era diretora. Ela me chamava para ir para a casa dela, ler Shakespeare com a filha dela, e eu adorava, porque não tinha amigos em casa, então imagina você entrar em um mundo o qual você desconhecia completamente, e a gente começa a brincar lá e a fazer teatro.

MCB: Você chega primeiro ao cinema nesse período de comercial ou chegou a fazer alguma coisa na televisão sem ser os comerciais? 

AM: Não, eu cheguei primeiro na televisão, eu comecei na Tupi fazendo o Alegríssimo, um programa de humor, fazendo Os trapalhões. Mas aí o que aconteceu? Na Tupi eu estava virando meio que uma figurante “bom dia”, “com licença”, “entra aqui”, “segue aqui”, essas coisas, sabe? Quando eu recebi o convite do Deca, da Embrafilme, eu fui para o cinema, aí eu fiquei direto no cinema até voltar para a televisão, aí eu voltei para o canal 12 (TV Cultura), depois fui para a Globo. Daí fiquei mais na televisão direto e no teatro, foram muitos anos, então na realidade eu estou voltando agora para o cinema.

MCB: O primeiro filme seu é o Clube das infiéis, do Cláudio Cunha, não é isso?

AM: Sim.

MCB: E logo depois você vai se encontrar com, para mim, um dos maiores diretores da Boca do Lixo que é o Jean Garrett, com quem vai fazer grandes filmes, como o A mulher que inventou o amor.

AM: O mais bonito de todos é o Força dos sentidos, do Jean Garrett, porque eu fiz bons filmes com ele mesmo. Mas acho que eu não estava preparada para fazer A mulher que inventou o amor, fui péssima.

MCB: Nossa, não acho.

AM: Era um trabalho para ganhar o Oscar, mas eu estava muito ruim. O Jean Garrett é um excelente diretor de imagens, então na época não tinha ainda diretores de atores, se eu tivesse tido uma orientação como atriz, um diretor me dirigindo só... É um trabalho muito difícil para uma atriz muito amadora, como era o meu caso.

MCB: Eu acho maravilhoso o seu trabalho no filme.

AM: Jura?

MCB: Juro, o encontro seu com ele é um grande encontro de cinema: Força dos sentidos, A mulher que inventou o amor... Porque o Jean Garrett tinha um diferencial na forma dele fazer cinema, não é?

AM: Totalmente, e lá tem a fotografia do Carlão (Carlos Reichenbach), né?

MCB: Sim.

AM: O Carlão, em todos os filmes do Jean Garrett. A força dos sentidos tem uma luz divina, eu nunca mais vi e gostaria de rever, eu faço uma musa. Mas ele tinha uma estética meio... ele gostava muito daquela coisa dos atores japoneses, aquela coisa muito pequena, ele queria que o ator não fizesse grandes...  como eu vou te explicar? Que tivesse uma coisa que trabalhasse só com os olhos e tal. Eu ainda não sabia direito aquilo, era uma coisa que você tinha que ter uma força imensa nos olhos, então, dentro do filme, eu pareço meio sem ação, não gostei.

MCB: E a relação com ele no set, era bacana?

AM: Era bacana, na realidade foi um grande encontro, né, a gente fez coisas muito boas. FizemosO fotógrafo, A noite do amor eterno, que eu também nunca mais vi e que também era uma coisa bacana. Alguns filmes como O fotógrafo e A noite do amor eterno são filmes que tiveram pouquíssima verba, como atriz eu praticamente não ganhava nada, mas fazia esses trabalhos mais de atriz, mais elaborado, tinha um personagem melhor, essas coisas.

MCB: Você sabe que esses filmes estão sendo muito revistos, esses filmes seu com o Garrett são considerados o suprassumo dessa época. O A mulher que inventou o amor, por exemplo, tem uma legião de fãs, tanto pelo público normal quanto por pesquisadores de cinema. O Jean Garrett é um cineasta que deveria ser mais reverenciado.

AM: E é uma pena, né, ele foi tão cedo, se desiludiu, ele era um cara, ele tinha realmente uma estética muito elaborada.

Você sabe que um filme que está muito reverenciado, ele já morreu, o John Doo, é o Ninfas diabólicas. Só tem uma cópia, quem falou isso foi o Daniel Camargo, tem uma cópia e o cara ganha a maior grana com essa cópia.

 MCB: Eu nunca consegui ver.

AM: É uma graça, você precisa ver. Ali sim, eu acho que é um trabalho muito espontâneo meu, que pegava muito na Aldine, na menina espoleta, na garota que tinha uma coisa infantil, eram duas meninas, ali eu acho que é um bom trabalho da Aldine, mas também não consigo ver.

MCB: Ele passou no Cinemateca, teve uma sessão muito concorrida.

AM: Não sabia.

MCB: Com o Khouri (Walter Hugo Khouri) também era bacana, Aldine?

AM: Foi, foi, muito legal. O Khouri tinha uma coisa, ele realmente tinha uma adoração com as mulheres. Com o Jean foi muito bom, fiz trabalhos muito melhores com o Jean do que com o Khouri, porque com o Khouri eu era sempre uma das "Khourietes", eu nem tinha muito destaque, com Jean eu tinha, eu era protagonista AA, né? Mas era um prazer trabalhar com o Khouri, porque ele ficava ali babando o seu ovo. Para uma mulher que é jovem, que está começando, ter um cineasta ali, que é um cara culto, que sabe o que está fazendo, que não brinca em serviço, e aí fica ali te reverenciando. Tanto que tem uma grande maioria de atrizes que trabalharam com ele e se apaixonaram por ele, tiveram um caso com ele. Porque ele era muito sedutor como pessoa, e como pessoa ele levava, ele conseguia tirar da atriz o que ele queria, porque ele ia naquela sedução “você é linda, você é maravilhosa, coloca lá, olha, olha, eu não gosto da ponta daquele vestido”. Ele tinha uma coisa de perfeição com a atriz, era muito bacana trabalhar com ele, foi bacana, eu fiz o que, três dele, né?

MCB: Foi.

AM: O melhor é o Paixão e sombras. Lindo, lindo.

MCB: No filme tinha um teste que era com você e com a Liza Viera, não é isso?

AM: E tinha o Bucka (Carlos Bucka). A gente ficava amarrada em uma cama, mas é uma coisa, uma luz, era tão lindo, eram duas figurantes que chegavam no set e iam pedir emprego.

MCB: Eu gosto muito desse filme. Agora tem um filme seu que é um xodó meu, que nem tanta gente conhece, que é Os imorais, que você fez com o Geraldo Vietri. Eu adoro esse filme, é tão bonito, tão corajoso, o Vietri, que também era da televisão, vindo com um filme como aquele.

AM: Na época ele já mexia em um tema espinhoso, né? Homossexualidade...

MCB: E de uma forma tão bacana.

AM: É, o Vietri também era um cara que vinha da Tupi, ele tinha uma coisa boa com o roteiro, ele sabia o que estava fazendo, ele era muito difícil. 

MCB: No set?

AM: Não comigo, mas ele tinha, na época, um problema lá com o menino, que eu acho que era namorado dele. Uma vez ele estava andando e de repente eles brigaram, abriu a porta do carro e saiu andando, eu ficava assustada, mas comigo ele foi maravilhoso. Era um menino que trabalhava com ele, eu não sei o que era direito, acho que era uma relação entre os dois, na época era tudo muito velado, né?

MCB: E ali, não sei se você reviu esse filme, tem um frescor seu na tela, não sei se você concorda, mas...

AM: Não sei, não vi.

MCB: Eu gosto muito desse filme. Você citou também o Carlão, com quem você faz O império do desejo.

AM: Isso.

MCB: E com o Carlão? O Carlão é outra falta saudosa. O set dele era bacana, a direção dele?

AM: Bacana. O Carlão era uma paz, né? É difícil essas coisas, de você ter novamente essas pessoas, Carlão era uma paz, era um talento, deixou coisas maravilhosas. Na verdade ele trabalhou mais comigo fazendo iluminação. Dirigida por ele eu fiz um filme, em que eu fazia uma mulher nervosa que vai transar com o cara e ele era broxa. Aí ela fala “o que está pensando? Tá pensando o quê? Você está pensando que eu vim aqui só para te fazer gozar?”. E dá uma porrada no cara. Não sei se você viu esse filme.

MCB: Vi e adoro. Você tem outro filme que eu gosto muito também, que é A fêmea do mar, do Odyr Fraga.

AM: Que é com o Jean Garrett como ator. 

MCB: Sim. O Guilherme de Almeida Prado, em um depoimento, ele riu muito e falou que só mesmo o Ody para colocar você e Neide Ribeiro como mãe e filha.

AM: Mas hoje na Globo tantas mulheres são mães de tantas mulheres adultas. 

MCB: E funciona super bem no filme.

AM: Funciona, porque ela é mãe jovem. Na época eu tinha cara de 20 e a Neide de 30, então ela me teve com dez... rsrsrs.

MCB: E é surpreendente ver o Garrett ali, como protagonista, eu gosto muito daquele filme, você gosta? 

AM: Tem umas cenas assim mais pesadas, né?

MCB: Tem um pouco, mas está orgânico no filme, não é apelativo, é orgânico. Porque hoje você vê muito mais claramente quando é mais apelativo e quando tem a ver com a questão da história. Tem um depoimento da Matilde Mastrangi que eu adoro, é muito engraçado. Ela fala que todos os produtores e diretores procuravam a Helena Ramos, mais aí a Helena estava sempre cheia de coisas. Aí eles procuravam você, mas você sempre gostava dos filmes mais cabeça. E que daí o que sobrava vinha para ela.

AM: Eu adorei, eu vi na televisão, eu não quis participar, me estressei, por isso eu fiz um outro do Canal Brasil, porque esse aí eu achei bom, pensei que seria do nível desse. A Matilde fala “e eu pegava o que sobrava”.

MCB: Eu ri muito quando eu vi isso.

AM: Eu também, achei de uma humildade da parte dela, tão bonitinha. Não é verdade, ela era muito requisitada, e ela era linda também, né. 

MCB: Na verdade, havia muitas musas maravilhosas e importantes, mas vocês três eram consideradas por muitos produtores e diretores um trio de ouro, não é?

AM: É, as outras faziam coisas menores. Por exemplo, a Nicole (Puzzi), que esta aí, a Nicole chegou depois, ela vem um pouquinho depois. 

MCB: Outras que se destacam muito como vocês na época são a Selma Egrei , a Patrícia Scalvi, a...

AM: É, a Selma Egrei é uma atriz que continua, ela é uma atriz muito talentosa, que virou o jogo e está aí.

MCB: É, está aí fazendo cinema, teatro, televisão.

AM: É, direto, envelheceu assim, ficou uma senhora bonita. Linda, maravilhosa, ela tomou cuidado. Porque tem um povo que fica louco, se enche de coisa na cara e ela não, ela tem uma pele muito delicada, então ela enrugou, mas ela enrugou bonito.

MCB: Não sei se você viu ela no Sessão de terapia, ela está tão bem.

AM: Vi, gostei.

MCB: Em uma outra linha de filme, você faz um que eu gosto muito, que é o Noite, do Gilberto Loureiro, com você, a Cristina Aché.

AM: É um filme que eu gosto muito também. Eu não sei se ali, porque eu nunca mais vi o filme, eu vi na época, precisava ver com outros olhos agora para ver como está, se eu estou à altura do elenco, eu não sei, não me lembro, porque quando você vê com bastante distanciamento... Eu me lembro que o Gilberto me falava “olha, ela está sempre, é como se ela estivesse sempre muito delgada, muito fora do ar, muito louca”. E eu não sei se consegui passar isso, não me lembro, realmente nunca mais vi esse filme. É um filme do Érico (adaptado de obra do escritor ÉricoVeríssimo), não é?

MCB: Sim. Você faz também um outro filme que é de um subgênero pouco explorado no Brasil, que é o Shock: diversão diabólica, do Jair Correia. 

AM: É uma graça, né?

MCB: É, eu gosto muito desse filme. Foi bacana fazer?

AM: O Shock, pra época, eu fiquei surpresa, porque como ele era bem acabado e como era bem feito também.

MCB: Você gostou de fazer esse gênero de filme, que era bem diferente? 

AM: Eu adorei, era muito legal, na época eu fazia uma novela no SBT, eu era a protagonista, novela mexicana. Você imagina, eu gravava dia e noite, então eu não tinha tempo nem de decorar o texto da novela e nem de cuidar do filme. Tem umas coisas muito cruéis na profissão do ator, que, às vezes, no ápice da sua juventude você recebe muitos bons convites e ao mesmo tempo, daí você não quer perder por “n” motivos. Primeiro porque você precisa de dinheiro, e eu tinha um filho para criar; segundo porque são oportunidades únicas. E aí o Shock veio junto, então eu filmava, gravava o dia inteiro, e à noite eu ia filmar o Shock, ele se passava todo na noite. Era uma dificuldade, eu vivia um bagaço, e uma hora quase me mandaram embora da novela porque eu não dava mais conta de decorar, porque era muito texto, me concentrar só na novela.

MCB: Era Razão de viver o nome da novela?

AM: Era Razão de viver, sabe tudo você. 

MCB: Com a Mírian Pires, eu assisti essa novela. 

AM: Com o Mário Cardoso.

MCB: Isso.

AM: Tinha uma outra atriz que também fez muito cinema com o Khouri, como se chama? Ela é uma das atrizes que fizeram muito cinema com ele, ai meu Deus, fora a Selma, a outra loira, Kate Hansen. É uma atriz de cinema que as pessoas não lembram muito. Ela também era linda, era uma "Khouriete", fez muitos filmes com ele. 

MCB: Eu sou louco para entrevistá-la, estou à procura do contato dela. Aldine, o último filme que você fez foi o 2 coelhos, não é isso?

AM: Foi o 2 coelhos, de repente eu volto, né, recebi esse convite bacana. Sabe como eu recebi esse convite? Na época não era Facebook ainda, era Orkut. No finalzinho do Orkut, eu recebi esse convite para ir fazer um teste. Eu falei “eu odeio teste, eu não passo em teste, não vou, não vou, não vou”. Aí um agente que eu tinha na época falou “pô, vai lá, que bobagem”. Aí eu fui, porque tinha lá o Neco (Vila Lobos), que é o ator que faz o marido da personagem da Alessandra Negrini, e o Neco era meu amigo. Ele falou “vem Aldine, vem, eu que vou dirigir o teste”, daí eu fiquei mais confiante. Chegando lá o Afonso (Poyart, o diretor) falou “ah, não, não dá pra Aldine fazer esse personagem, é muito linda pra ser casada com esse cara, entendeu?”. “Mas tá cheio de político feio casado com mulher bonita”, o Neco incentivou isso, aí me colocou lá na frente da câmera e pediu para eu fazer algumas cenas. Daí ele fala “bom, se vocês acham que a Aldine pode fazer com esse cara, para mim está ótimo, vamos fazer”. Aí ele gostou muito e depois me deu o recado “ó, que pena que você não pode fazer a protagonista por causa da idade, né”. Quando a gente começou a filmar, eu senti nele uma segurança, eu sabia, porque ele é um cara que fez tudo direitinho, como manda o figurino, pediu pra Fátima Toledo preparar o elenco. Mas aí no dia que ele foi ver o que a Fátima tinha feito eu já percebi que ele tinha um pulso muito firme, ele falou “não, não é isso que eu quero, nada disso”. Ele sabia o que queria, ele falava “ó, pode fugir desse texto aí, isso foi uma ideia, isso é uma porcaria”. Foi tão bom que foi feito um remake lá em Hollywood, ele é muito talentoso, porque ele escreveu, dirigiu e foi segurando a onda com o filme até conseguir lançar bacana, o filme teve mídia na Globo sem ser da Globo Filmes, que aí já pagou uma grana. Eles me chamaram duas ou três vezes para dar um depoimento para o trailer, acho que foi até relapso da minha parte. Eu falei “ah, não posso, não vai dar hoje”. Eu tinha coisa para fazer, tinha que dar prioridade e não dei, aí eu vi o trailer e achei lindo, não estava lá. Ai meu Deus, eu tenho que fazer menos teatro porque tenho que dar prioridade para essas coisas. 

Quando eu fui na estreia eu não sabia o que ia ver, sabe quando você não tem ideia? AVeja veio me entrevistar, “a volta da rainha da pornochanchada”, e eu não tinha ideia do que ia ver. Menino, quando eu vi o filme eu levei um susto, o filme era muito bom. E eu vendo o filme, porque eu demoro para entrar, eu esqueci que o filme era nacional, sabe? Eu falando “nossa, cadê o filme que eu fiz?”. Adorei, e aí eu falei “bom, agora vamos ver”. A crítica toda reverenciou, falou maravilhas.  Então foi uma coisa muito bacana. O Afonso é uma graça de pessoa, é um menino lindo, talentoso e querido, gostei de trabalhar com ele, ele está ali, sabe, ele não dá piti, ele não dá uma de grande diretor, ele tá na dele, muito boa gente. Ele era muito seguro com o que ele ia fazer porque ele tem uma produtora, então é a área dele. Eu pensei que ia ser um filme chato, não pelo Afonso, como eu já falei, mas porque tinha desenho animado, tinha mil coisas. Aí quando eu vi o filme eu realmente tive uma belíssima surpresa, saí de lá gratificada, eu não esperava tudo aquilo. Porque a minha personagem é pequenininha, mas ela tem uma função muito importante no filme. Esse filme só tem duas mulheres, na verdade, a Alessandra (Negrini) e eu. Ele prioriza, é filme de homens, mas todo mundo é marionete na mão dessas mulheres, elas que comandam o que vai acontecer.

MCB: Você falou aí sobre a sua volta. Nesse período que você ficou longe do cinema foi porque você priorizou o teatro, foi falta de convite ou você que não correu atrás? 

AM: Não, eu priorizei a televisão.

MCB: Eu ia falar televisão também, teatro e televisão.

AM: Eu priorizei a televisão. Eu recebia convites, mas eu achava os convites nunca nada demais, entendeu? E aí eu falava “não, se for para fazer porcaria eu não faço mais”, entendeu? E nesse, como era uma coisa pequena, quando eu recebi eu fiquei achando que era uma coisa pequena, um texto pequeno, pouca coisa, eu falei “isso aqui eu vou e faço em dois dias e fica tudo muito bonito na fita”. Acho que nem foram quatro dias, foram três dias para filmar tudo aquilo, foi bem rápido porque ele priorizou, ele trabalhava com quatro câmeras, então os dias que filmou comigo ele só filmou comigo, só fez as minhas cenas, então foi fácil. Mas foi também, claro, falta de bons convites, se tivesse recebido bons convites eu teria voltado antes, mas se era pra fazer porcaria eu já tinha feito, não iria fazer de novo.

MCB: E televisão, você gosta muito de fazer? Você fez muitas novelas em várias emissoras.

AM: Eu gosto, adoro fazer televisão, mas a televisão tem umas coisas. Por exemplo, para você ficar na Globo você tem que ficar meio morando no Rio, eu morei por um período lá, mas nunca me dei muito bem morando no Rio. E aí eu fui ficando aqui, fui ficando, eu amo morar em São Paulo, e daí não priorizei. Agora eu quero ver se volto, mas tem outras coisas também que eu quero lançar, uns projetos que eu não posso falar, mas que estão ligados à televisão, ao rádio. E tem muita coisa que eu já fiz, eu já fui apresentadora em um programa da Record, em Campinas. Eu gosto muito da coisa com enredo, com bom humor, e eu me dou bem nessa área, sabe. Eu vou fazer um filme chamado Jesus do Brasil (Carlos Norcia), no segundo semestre.

Eu tenho duas páginas no Facebook, o negócio aqui é uma loucura, acabei de abrir uma página que tem 250 pessoas esperando para serem adicionadas, a minha secretária fala “eu não aguento”, toda hora ela vai lá, 250. Ontem era meia-noite e eu estava adicionando gente e ela fala “nossa, Aldine, desse jeito a gente vai ter que abrir uma outra página”.

MCB: Isso mostra o quanto você é querida, né?

AM: Isso me dá uma coisa muito... nossa, nem sabia que eu estava com essa bola toda.

MCB: Na televisão você faz também o Chico Anysio, não é, que era maravilhoso. 

AM: Maravilhoso, a Escolinha (Escolinha do Professor Raimundo), fiquei anos lá, aquilo lá foi de verdade que me ensinou. Eu sou uma atriz e na televisão eu queria fazer mais novela, então quando eu fazia humor não é que eu não dava o devido valor, é que eu não achava que eu era humorista, eu achava que estava meio como umas daquelas meninas que estavam para enfeitar o programa, entendeu? Eu podia ter feito melhor. Uma coisa é que eu não me arrependo de nada, acho que tudo foi dentro do tempo, eu fui uma pessoa que demorou para amadurecer, talvez, profissionalmente, mas foi maravilhoso, eu vejo hoje que tem tanta gente que curte.

MCB: Você tem também uma carreira importante no teatro, acabou de estrear uma nova temporada de seu espetáculo, não é?

AM: É, eu estou com um espetáculo, Virgem aos 40.com, dia 21 de agosto ele completa três anos em cartaz, já fiz do Oiapoque ao Chuí. A gente está sempre com um monte de texto aqui pronto para começar outro e não conseguimos porque o espetáculo é um sucesso, é tão difícil achar uma coisa assim que faz tanto sucesso durante tanto tempo. Graças a Deus ele é muito bem recebido não só pelo público, mas pela mídia também.

MCB: Aldine, a gente falou aqui de vários filmes, você trabalhou com vários diretores. Tem algum filme que você gostaria de falar? Algum diretor que eu não abordei? 

AM: Eu acho que você pegou bem a coisa, porque na realidade esses filmes que você falou são dos melhores diretores com quem trabalhei. Todo mundo tinha uma qualidade, é óbvio, mas os caras que estavam mais antenados com o que estavam fazendo e melhor preparados são esses diretores. Ah, tem o Miguel Borges, com quem eu trabalhei no Rio também.

MCB: Você fez com ele Consórcio de intrigas.

AM: Consórcio de intrigas. Eu gostei também de trabalhar com o Miguel, esses são os melhores diretores.

MCB: Tem o Antônio Meliande, o Conrado Sanchez, o David Cardoso, o Sérgio Toledo...

AM: Sérgio Toledo? Não.

MCB: Os galhos do casamento. Tem esse filme na sua fiilmografia.

AM: Ah, é verdade, Sérgio Segall, né?

MCB: É porque ele assina Sérgio Toledo.

AM: Eu também fiz dois filmes com ele, tem um outro também que eu não lembro o nome agora. Era um filme mais despretensioso, esse filme também é bom, viu. Ele já era um cara bem mais intelectual, mais inteligente, ele fez um filme muito bacana, como se chama? Deu um branco o nome do filme, esse filme eu nunca vejo citado, sabia? Nem entre os filmes que eu fiz, por isso eu me esqueci dele. Eu fiz dois, tinha parceria de dois longas, ele falou “eu tenho um roteiro ótimo que eu gostaria de fazer com você”. 

MCB: É o Força do sexo.

AM: Não, tem nada com sexo.

MCB: Porque com você ele faz Os galhos do casamento e o Força do sexo.

AM: Às vezes ele mudou o título e eu não sei.

MCB: É, pode ser mesmo.

AM: É um filme em que eu sou protagonista, o filme é todo em cima da minha personagem, foi logo depois que eu fui lançada. É um filme que teria um trabalho bom, mas para uma atriz mais madura. Depois ele parou, mas ele gostou de trabalhar comigo, eu teria feito mais coisas com ele. 

MCB: Você fez também a Amenic - entre o discurso e a prática, do Fernando Silva.

AM: O Amenic é um filme que nunca foi lançado. Como se chama o diretor, eu esqueci o nome dele, é um português.

MCB: Fernando Silva.

AM: Fernando Silva, ele era muito boa gente. Na verdade, nesse filme eu estava com o segundo personagem, ele gostou tanto que meu personagem passou para protagonista. Esse filme nunca foi lançado, eu nunca vi.

MCB: E no teatro, você quer citar alguns espetáculos?

AM: Eu já produzi uma peça também, que é o Dança, do Plínio Marcos, e O direito, do Lauro César Muniz, um elenco maravilhoso, com o Cláudio Cunha.

 MCB: Aldine, as únicas duas perguntas fixas do site: qual o último filme brasileiro a que você assistiu? E a segunda é: qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você deixa registrada em sua entrevista como uma homenagem?

AM: Eu acho que a mulher que fez uma revolução, é inegável, é a Leila Diniz. Eu acho que segui o caminho da Leila, embora ela fosse uma pessoa melhor preparada, politizada. Ela é realmente a grande diva do cinema brasileiro, uma pena que ela foi embora tão cedo, de uma forma tão trágica. 

O último filme a que eu assisti foi aquele lá, E aí, comeu?, que é do menino do Chico (Anysio).

MCB: Muito obrigado pela entrevista.



Entrevista realizada em abril de 2013.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.