Ano 22

Alaíde Costa

Nascida em 8 de dezembro de 1935, no Rio de Janeiro (RJ), Alaíde Costa é Grande Dama da música brasileira, uma dos fundadores da Bossa Nova e referência para a Cultura Negra. Começou a trajetória musical ainda na infância participando de programas de rádio, o que se estendeu até a adolescência. Começou a trajetória profissional cantando na noite e, logo na sequência, inicia sua discografia - em 1959 vem o primeiro LP, "Gosto de você". Uma dos fundadores da Bossa Nova, integra também o Clube da Esquina, ao gravar "Me deixa em paz" com Milton Nascimento no disco homônimo. Desenvolve carreira artística importante como cantora e compositora, com discografia irretocável. Ela também eternizou seu talento no cinema, que sempre fez parte de sua formação: "Sim, sempre gostei muito de cinema. Desde jovem, o cinema foi uma das minhas janelas para o mundo, para outras histórias e sensibilidades. A música ocupou 100% da minha vida, mas o cinema também contribuiu para a minha formação artística e humana".

Alaíde Costa arrebatou o público nas telas com sua participação no filme Todos os mortos (2020), de Marco Dutra e Caetano Gotardo: "Foi uma experiência muito especial e desafiadora. Eu não sou atriz, mas fui recebida com muito carinho pelos diretores e por toda a equipe. Eles me deixaram muito à vontade para construir a personagem e compreender aquele universo".  Sua notável interpretação da altiva Josefina, que, inclusive tem momento sublime no filme ao entoar um canto ancestral, lhe valeu o prêmio Kikito de Melho Atriz Coadjuvante no 48º Festival de Gramado, em 2020. "Entendi aquele prêmio não apenas como um reconhecimento ao meu trabalho, mas também à história de tantas artistas negras que abriram caminhos e nem sempre tiveram o devido reconhecimento".

Aláide Costa marca presença no cinema também nos documentários A música natureza de Léa Freire, de Lucas Weglinski, sobre a famosa compositora e instrumentista; e O anel, de Daniel Augusto, sobre o álbum "O Anel - Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik. Está também em trilhas sonoras como as do filme Sílvio (2024), de Marcelo Antunez; e O dia em que te conheci (2023), de André Novais Oliviera. Alaíde Costa tem sua trajetória focalizada no importante A noite de Alaíde, dirigido por Liliane Mutti, destaque no Festival Brasileiro de Paris, que contou com a presença e show de Alaíde. "É um documento que ajuda a preservar memórias, encontros e momentos que marcaram a minha trajetória artística".


Alaíde Costa conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro e aborda sua relação com o cinema, as chanchadas, a atuação e a premiação em Todos os mortos, os documentários, a homenagem em novela, as trilhas sonoras, A noite de Alaíde, de Liliane Mutti, e muito mais.


Mulheres do Cinema Brasileiro: A senhora aprecia o cinema? Ele fez parte da sua formação?

Alaíde Costa: Sim, sempre gostei muito de cinema. Desde jovem, o cinema foi uma das minhas janelas para o mundo, para outras histórias e sensibilidades. A música ocupou 100% da minha vida, mas o cinema também contribuiu para a minha formação artística e humana. Sempre me emocionei com a força das imagens, das interpretações e das histórias bem contadas.


MCB: E quanto ao cinema brasileiro, a senhora acompanha ou acompanhou? Tem algum, ou mais de um, filme de preferência?


AC: Sempre acompanhei o cinema brasileiro dentro das minhas possibilidades. Temos uma cinematografia muito rica, que retrata o nosso povo, as nossas contradições e a nossa cultura. É difícil escolher apenas um filme, mas obras como Orfeu Negro (1959, Marcel Camus), Central do Brasil ( 1998, Walter Salles) e Xica da Silva (1976, Carlos Diegues) me marcaram muito, cada uma à sua maneira.


MCB: Sabe-se da sua admiração pela Dalva de Oliveira, inclusive fez disco recente cantando o repertório dela e a homenageando. Dalva integrou o elenco da Era de Ouro dos Cantores do Rádio que protagonizaram números musicais nas chamadas Chanchadas da Atlântida. A senhora via esses filmes? Pode destacar algum?


AC: Via sim. Aqueles filmes faziam parte do imaginário popular brasileiro e tinham uma importância enorme na época. Eu adorava ver os grandes artistas do rádio também na tela. E, claro, qualquer filme em que aparecesse Dalva de Oliveira já despertava meu interesse. Ela sempre foi uma referência artística para mim. As chanchadas ajudaram a popularizar muitos cantores e contribuíram para a construção da nossa cultura musical. Não consigo destacar nenhum porque não me lembro dos nomes.


MCB: Foi uma ótima surpresa vê-la como atriz no filme Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. Como foi atuar neste filme?


AC: Foi uma experiência muito especial e desafiadora. Eu não sou atriz, mas fui recebida com muito carinho pelos diretores e por toda a equipe. Eles me deixaram muito à vontade para construir a personagem e compreender aquele universo. Foi uma oportunidade de me expressar artisticamente por outro caminho.


MCB: Como foi compor a altiva personagem Josefina? O canto ancestral dela é um momento belíssimo do filme.


AC: Josefina carrega muitas memórias, dores e resistências. Ao construir essa personagem, procurei pensar em tantas mulheres negras que vieram antes de nós e que tiveram suas histórias silenciadas. O canto surge justamente como uma forma de preservar essa memória ancestral. Foi um momento muito emocionante para mim.


MCB: Como foi receber o prêmio Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no 48º Festival de Cinema de Gramado?


AC: Foi uma surpresa enorme e uma alegria muito grande. Eu estava vivendo uma experiência completamente nova e receber um reconhecimento tão importante foi emocionante. Entendi aquele prêmio não apenas como um reconhecimento ao meu trabalho, mas também à história de tantas artistas negras que abriram caminhos e nem sempre tiveram o devido reconhecimento.


MCB:  Todos os Mortos, filme sobre o racismo estrutural no Brasil, aborda questões como colonialismo, oligarquias, patriarcado e identidade cultural. Como a senhora, que teve que enfrentar o racismo tantas vezes na carreira e na vida, vê esse filme e a importância dele?


AC: Vejo como uma obra extremamente necessária. O filme nos convida a refletir sobre questões que ainda estão presentes na sociedade brasileira. Eu vivi muitas situações de racismo ao longo da minha vida e da minha carreira. Nem sempre elas eram explícitas, mas estavam presentes nas oportunidades negadas, nos espaços fechados e nos preconceitos cotidianos. Por isso considero fundamental que o cinema e a arte continuem abordando esses temas para que possamos compreender melhor a nossa história e construir um futuro mais justo.


MCB: A senhora participa do documentário A Música Natureza de Léa Freire, dirigido por Lucas Weglinski, em que conta sobre seu encontro com a famosa compositora e instrumentista, então muito jovem e que viveu na casa da senhora durante um tempo. Como foi participar desse filme?


AC: Foi muito bonito revisitar essa história. A Léa é uma artista extraordinária e tenho muito carinho por ela. Participar do documentário foi uma oportunidade de recordar momentos importantes da nossa convivência e de celebrar a trajetória de uma musicista que contribuiu enormemente para a música brasileira.


MCB: O documentário O Anel, dirigido por Daniel Augusto, registra a gravação e os bastidores do álbum "O Anel – Alaíde Costa canta José Miguel Wisnik". Poderia comentar sobre esse trabalho?


AC: Tenho um carinho enorme por esse projeto. O documentário registra um momento muito especial da minha carreira e revela um pouco do processo criativo, dos encontros e das emoções envolvidos na gravação do disco. Além disso, mostra a beleza da obra de José Miguel Wisnik, um dos grandes compositores e pensadores da música brasileira.


MCB: A senhora está em trilhas sonoras de filmes recentes, como Sílvio (Marcelo Antunez) e  O dia que te conheci (André Novais Oliveira). Como é para a senhora essas participações em trilhas sonoras?


AC: Fico muito feliz quando uma gravação minha encontra novos caminhos por meio do cinema. A trilha sonora tem um papel fundamental na construção da emoção de um filme. Saber que minha voz ajuda a contar essas histórias é algo que me honra profundamente.


MCB: A novela "Garota do Momento", de Alessandra Poggi, fez uma bela homenagem à senhora. Como foi participar da gravação?


AC: Foi uma experiência muito emocionante. Fiquei feliz em perceber o carinho e o respeito com que minha trajetória foi tratada. Depois de tantos anos de carreira, receber homenagens em vida é algo que me toca profundamente.

AC: A Noite de Alaídet, de Liliane Mutti, tem um valor muito especial porque registra não apenas um espetáculo, mas uma parte importante da minha história. É um documento que ajuda a preservar memórias, encontros e momentos que marcaram a minha trajetória artística. Fico feliz que ele possa alcançar novas gerações e contribuir para a valorização da música brasileira.


MCB:  O produtor, diretor artístico e agente Thiago Marques Luiz é nome de destaque no cenário musical. A parceria de vocês tem rendido ótimos projetos, discos e shows. Como se deu esse encontro e qual a importância dessa parceria para a senhora?


AC: O Thiago surgiu em um momento muito importante da minha carreira, em 2004, quando ninguém acreditava em mim. Ele produziu inúmeros discos meus em um momento em que eu estava esquecida. Desde o início, ele demonstrou um profundo respeito pela minha história e pela música que construí ao longo de tantas décadas. Nossa parceria é baseada em confiança, admiração mútua e muito trabalho. Graças à sua dedicação, muitos projetos importantes ganharam vida, alcançando novos públicos e ampliando ainda mais o alcance da minha obra. De lá para cá já são mais de 20 anos cuidando de mim e da minha carreira.


MCB: Qual foi o último filme brasileiro a que a senhora assistiu?


AC: Recentemente revi Todos os Mortos, que sempre me provoca reflexões muito profundas. É um filme que continua dialogando com questões muito atuais do nosso país.


MCB: Qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, a senhora deixa registrada na sua entrevista como uma homenagem e o porquê?


AC: Gostaria de homenagear Zezé Motta. Além de ser uma grande atriz e cantora, ela sempre foi uma referência de talento, dignidade e resistência para a população negra brasileira. Sua trajetória artística e sua atuação na defesa da cultura negra são inspiradoras e merecem todo o reconhecimento e respeito.


Entevista realizada por e-mail em junho de 2026.
Foto: Samuca Kim

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