Ano 15

19ª Mostra Tiradentes - Filmes e Seminários

Entrega de placa "Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois"
A programação de quinta, 29, da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, como nos demais dias, foi concorrida: seminários, muitos longas, muitos curtas. O Mulheres cobriu dois seminários e três longas.

O Seminário Encontro com a crítica, Diretor e Público abriu a agenda com discussão sobre o filme Clarisse ou alguma coisa sobre nós dois, de Petrus Cariry, reunindo o diretor e equipe, a professora de cinema Guiomar Ramos, e o mediador Pedro Maciel Guimarães.

Petrus Cariry, que com o filme encerra a trilogia da morte – os outros foram O grão (2007) e Mãe e filha (2011) -, contou como foi o processo do filme – por exemplo, o quanto foi difícil fazer, ao mesmo tempo, a direção e a fotografia; e como escolheu a atriz Sabrina Greve para protagonista – a escolhi depois de vê-la no curta O duplo (2012), de Juliana Rojas.

Falou também sobre a entrega da atriz – muitas outras cenas fortes foram filmadas, ainda que não tenham entrado na montagem final; do tema morte – é um tema que sempre me interessou, mas foi a resposta do público para O grão que me fez decidir pela trilogia; e de como vê a personagem de seu filme – é uma mulher a caminho da libertação.

A segunda edição do Seminário foi sobre Taego Ãwa, de Henrique Borella e Marcela Borella. Marcela explicou que veio do jornalismo – profissão que não a interessa -, mas foi o trabalho com questões e movimentos sociais que a levaram até o universo da tribo Ãwa. Acrescentou que o irmão, Henrique, tem interesse – não me lembro agora se formação - por ciências sociais e antropologia, e daí resolveram entrar em contato com os índios para mostrarem imagens que ela encontrou em vídeo na faculdade sobre eles e realizada décadas antes.

Os irmãos então, no contato com os Ãwa, falaram com eles sobre a possibilidade do filme – a aprovação só veio um tempo depois – e daí combinaram que só entraria no filme o que fosse concordado entre os cineastas e eles. Na cobertura do filme registrada na matéria de ontem, o Mulheres detalha mais sobre a história do filme e faz considerações sobre o resultado na tela.

Longas

À noite a maratona foi pesada: três longas no Cine-Tenda. Ou seja, o Mulheres entrou na sala às 18h e só saiu às 23h30, assim mesmo porque a duração deles é curta, no máximo de uma hora e meia.

A noite escura da alma (2015) é uma produção baiana de Henrique Dantas – aqui apresentada na Mostra Transições. O tema é interessante, pois, inclusive, pouco explorado: as torturas e assassinatos na Bahia pela ditadura civil-militar. 

O cineasta reúne militantes e/ou integrantes da luta armada para contarem como foi e o que viveram nos tempos de chumbo, as consequências daquilo na época e em suas vidas de sobreviventes, com muitos também dizendo o que pensam da esquerda de hoje, sobretudo a que está no poder.

A noite escura da alma se apresenta como documentário experimental e é aí que reside sua fragilidade. Os relatos são fortes, aquelas pessoas – dentre elas Juca Ferreira e Lúcia Murat - têm realmente o que dizer, pois foram sujeitos da época, e o foco sobre os acontecimentos em solo baiano é bem explorado. Só que o cineasta criou toda uma estética para apresentar seu recorte.

A utilização de rostos, às vezes na sombra, e as falas em off enquanto as pessoas estão caladas e nos encarando, a plateia, são belos achados. Só que as performances que recriam o terror daqueles tempos, mais algumas interferências nas imagens, revelam-se, quase sempre, desnecessárias – pois o horror está nas falas, sem necessidade das representações que, muitas vezes, “briga” com o todo.

Já a Mostra Aurora apresentou dois filmes: Banco imobiliário (2015) e Filme de aborto (2016).

Banco imobiliário é um documentário paulista dirigido por Miguel Antunes Ramos. O filme focaliza o universo dos corretores de imóveis e as variadas facetas do seu habitat: a especulação imobiliária, as historias e considerações de bastidores, a atuação dos profissionais.

Banco imobiliário tem arestas que podem gerar discussões no campo ético, um dilema presente na utilização de personagens individuais reunidos em um contexto geral, e que podem ser reconfigurados na montagem ou mesmo no subtexto.

Ainda assim fica difícil não se divertir com algumas falas, como a hilária de um corretor “A vantagem de morar num apartamento de 20 metros quadrados é que sobra mais tempo para você ficar na rua”. Bom, imagino que nenhum roteirista conseguiria fala mais genial que essa sobre o universo retratado.

Por fim, foi apresentado Filme de aborto, produção paulista dirigida por Lincoln Péricles. O filme parte de um argumento interessante: a inversão da gravidez e seus dilemas para o universo masculino. Ou seja, se são os homens que engravidam, o aborto pode ser praticado e questionado por vias legais e sem traumas; além de outras questões abordadas sobre o tema.

Para isso, o cineasta utiliza alguns recursos interessantes, como os diálogos dessincronizados. Só que o que prometia se revela insatisfatório, pois Filme de aborto, muitas vezes quer ser precário – o precário é interessante, mas querer ser precário pode ser uma cilada- o que pode fazer com que se abandone o barco.


19ª Mostra de Cinema de Tiradentes - Programação Completa
www.mostratiradentes.com.br

 

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior