Ano 16

22a Mostra de Tiradentes - NoirBlue

Cena de NoirBlue - Deslocamentos de uma dança (2018), de Ana Pi
No sábado, 19, depois de cobrir o Seminário Debate A Presença de Grace Passô - matéria já publicada -, foi a vez de o Mulheres cobrir um curta e dois longas no Cine Tenda.

Como é impossível para o Mulheres acompanhar toda a programação de longas e curtas, o foco principal da cobertura é a exibição de longas, ainda que sempre abrindo espaço para os curtas, sobretudo quando é o filme ansiado e de extrema importância e relevância.

O curta assistido foi NoirBlue - Deslocamentos de uma dança (2018), de Ana Pi, exibido na Mostra Corpos Adiante, que é mesmo um deslumbre. E o prêmio oficial na Competitiva Brasil no 20o Festival de Curtas de Belo Horizonte no ano passado foi um acerto. 

"Azul de tão preto!". 

É dessa forma que a diretora e dançarina se apresenta em cena e, a partir da dança, conecta contemporaneidade e ancestralidade, Brasil e África. 

Impressiona,e muito, o resultado cinematográfico que Ana Pi constrói em seu filme. E esse resultado, que está ali, de ponta a ponta, se dá no mais profundo sentido ético/estético.  

Não é apenas seu corpo, e sua dança, que se desloca. Somos todos nós, pretas e pretos filhos da Diáspora que nos deslocamos. E nesse deslocamento ancestral e de caminho de casa para a Casa,  continentes e toda a cultura, e também todo um imaginário, irmanam-se, reconectam-se, amalgam-se, e refundam-se.

Há uma maestria tanto no roteiro como na direção, em que diálogos e impressões dão conta de todo um significado que se apresenta simples e com camadas profundas de acesso a todo um imaginário construído e herdado.

"Você veio do Congo? Da Etiópia? "Do Zaire? De Moçambique? Me perguntam.
E eu respondo: Eu vim de todos esses lugares".

"De repente eu sinto um cheiro de dendê e imediatamente grito:
- Acarajé! Acarajé!
E aí eles me dizem: - Não sabia que você falava Yourubá".

E há uma maestria tão pulsante na dança, nos corpos que dançam, nos corpos que se deslocam, nos "corpos adiante", enfim, nos corpos, que aquele corpo azul de tão preto vai desenhando percursos, atingindo tônus e instaurando geografias que dilatam dor, grito, e, sobretudo, altivez.

Há em NoirBlue todo um refazimento de laços e de reconstrução

NoirBlue - Descolamentos de uma dança é um deleite. Por vezes doído, por vezes alegre, e por todas as vezes intenso.

NoirBlue é um assombro. Estético. Ético. Vital.


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22a Mostra de Cinema de Tiradentes - De 18 a 26 de janeiro de 2019
Programação completa
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior