Ano 16

22a Mostra de Tiradentes - Desvio e Vermelha

Cena de "Vermelha", de Getúlio Ribeiro
Na quinta-feira, 24, na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes, depois de conferir o emocionante Seminário Encontro com os Filmes: A Rainha Nzinga Chegou, de Isabel Casimira Gasparino e Junia Torres, e fazer algumas entrevistas, inclusive com a diretora e Rainha Conga Isabel, foi a vez de conferir algumas filmes.

No Cine Tenda foram exibidos dois filmes da Mostra Aurora, mostra competitiva com cineastas em até terceiros longas: Desvio (PB), de Arthur Lins; e Vermelha (GO), de Getúlio Ribeiro.

Desvio mira sua lente o tempo todo para seu personagem Pedro, um homem que cumpre pena em regime semiaberto em João Pessoa. Com o indulto de Natal, ele sai em tempo integral para os festejos e parte para sua cidade natal no interior da Paraíba, onde vivem a família, os amigos, e também seu passado.

Pedro está o tempo todo em ação, todos os demais personagens orbitam em torno dele. E mesmo quando não está em cena, como nos encontros de sua sobrinha com outros adolescentes, ele é evocado.

Com seus músculos retesados, Pedro parece, o tempo todo, a ponto de explodir. E essa sensação tem a ver com o passado, e a morte do amigo e o motivo  que o levou para a prisão, como se, mais que encarcerado pelas grades, ele estivesse preso em uma espiral do tempo.

O único respiro possível está na relação com a sobrinha, uma jovem insubmissa, como se Pedro se projetasse nela a fim de lhe garantir a liberdade negada pela família e também pela cidade em sua falta de perspectiva.

Desvio se fortalece nessa condução de seu protagonista, um barril de pólvora encharcado de culpa, dor, revolta e fúria. E é prestando contas por um desvio e vivenciando outro, que Pedro vai reconduzir, ou não, os caminhos de  sua vida.


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Vermelha é uma produção de Goiás. Em cena, uma família vivencia momentos de um cotidiano marcado pelos encontros do patriarca,  seja com o vizinho amigo e companheiro de empreitada, seja com um credor violento.

Vermelha, que é o nome da cadela da família, se constrói a partir desse cotidiano. E é impossível não fazer ligação com o cinema de Andre Novais Oliveira, impressão reiterada ao sabermos que quem está em cena é a própria família do cineasta.

Porém, se o cinema de Novais se faz pelo olhar humanista do cotidiano, o recorte apresentado pelo diretor Getúlio Ribeiro difere totalmente, já que há uma intenção em Vermelha que o distancia do primeiro. Humor há nos dois, mas se em Novais rimos do humor de seus personagens para com a vida, já em Ribeiro rimos dos personagens.

Há passagens de grande mérito do roteiro e da direção, como a hilária aparição de fantasma sentado no telhado de amianto, o melhor plano do filme e um achado como encenação, e todo o diálogo que se segue.

Porém, Vermelha tem passagens deslocadas, em que o sentido só é percebido, ou não, tempos depois do visto - toda a cena envolvendo o tronco de árvore, por exemplo. E em sua trama e no universo construído por e para ela, é como se o nonsense invadisse a tela pela porta da cozinha e fizesse morada no quintal.


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22a Mostra de Cinema de Tiradentes - De 18 a 26 de janeiro de 2019.
Programação completa:
www.mostratiradentes.com.br


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior