Ano 16

22a Mostra de Tiradentes - Três longas

Cena de "Um filme de Verão", de Jo Serfaty
Na noite de sexta, 25, foi a vez de conferir três filmes na 22a Mostra de Cinema de Tiradentes. O último da Mostra Olhos Livres, Calypso (RJ), de Rodrigo Lima e Lucas Parente; e os dois últimos da Mostra Aurora, A Rosa Azul de Novalis (RJ), de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, e Um filme de verão (RJ), de Jo Serfaty.

Em Calypso dá-se o encontro entre uma mulher e um homem, dois seres míticos, em uma ilha, em evocação à natureza como refúgio e sobrevivência possíveis ante a sua corrosão.

Calypso tem um registro todo próprio, em que o mítico se traduz esteticamente de forma deslumbrante e a partir de planos acachapantes.

Há, no entanto, um hermetismo tão bruto na narrativa, o que nos faz, e em vários momentos, como espetadores, reféns de sua estética, mas sem capacidade plena de alcançar totalmente sua ética, ainda que seu desenho se apresente de forma avassaladora aos nossos olhos.

Ainda assim, Calypso é filme que se impõe majestosamente, como uma beleza que perturba e nos toma de súbito assalto, evocando-se para muito depois em refazimento na memória.

Aurora

O primeiro filme da Mostra Aurora da Noite foi A Rosa Azul de Novalis.

O filme tem como personagem Marcelo, um homem que revive seu passado e seu presente, assim como uma ideia de futuro, frente à camera, sempre a partir de seu corpo e de seu desjo.

Dessa forma, revivemos com ele o embate familiar - o relato sobre o irmão é o mais comovente -, sua relação com  sexo e a encenação dele, sua fixação pelo poeta Novalis e sua Rosa Azul, os artefatos que o rodeiam, e mesmo sua relação como objeto filmado.

A Rosa Azul de Novalis, dentro da temática da Mostra Corpos Adiante, é filme que se coloca em primeiro plano, especialmente pelo momento castrador em que vivemos. E se há um tom por vezes passadista no encenado, por já termos visto abordagens como as de Derek Jarman nesse próprio terreno, há sua realização nesse momento sombrio, em que tentativas de apagamentos de corpos que suscitam emergir tornam-se ineficazes, pois sobrevivemos mesmo com tudo adverso, ainda que a fúria dessas tentativas e ações de fato causem dor e morte.  


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Um filme de verão encerrou a Aurora.

Em cena, quatro adolescentes da periferia reinventam suas vidas, mesmo que todo o entorno pareça querer deles apenas o cumprimento de um destino anunciado.

Karol, Caio, Ronaldo e Junior são personagens cativantes, cada um deles transitando tanto pelos momentos individuais quanto no coletivo. Há um afeto tão genuíno em suas relações, como também deles para com si próprios, que mesmo quando o acompanhamos em trajetos impostos, seja pela família ou pelas circunstâncias, todos mantém uma insubmissão de vida arrebatadora.

É impressionante como a direção de Jo Serfaty, o roteiro dela, de Isaac Pipano, Ricardo Flogliato e dos quatro protagonistas, mais a montagem de Cristina Amaral e a fotografia de Pedro Pipano se irmanam para fazer de Um filme de verão um filme para a vida.

Ao acompanharmos os quatro adolescentes no verão das férias escolares, nós, espectadotes, também nos fazemos não só de cumplices como também de cativos seduzidos por essa teia de vida e de possibilidade de se inventar uma liberdade.


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22a Mostra de Cinema de Tiradentes - De 18 a 26 de janeiro de 2019 
Programação completa:
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior