Ano 16

23 Mostra de Cinema de Tiradentes - Homenagem

Crédito: Netum Lima/Universo Produção
Com a homenagem a Antonio Pitanga e Camila Pitanga, e a exibição pela primeira vez do longa Os Escravos de Jó, de Rosemberg Cariry, começou a maratona da 23a Mostra de Cinema de Tiradentes.

Até o dia 1 de fevereiro, o público tem uma programação intensa e gratuita formada por exibição de longas, médias e curtas, seminários, debates, oficinas, cortejo e atrações artísticas.

Homenagem

Antonio Pitanga e Camila Pitanga são os grandes homenageados dessa vigésima terceira edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. E a entrada dos dois no Cine-Tenda foi arrebatadora, tanto pelo recepção do público, que os recebeu de pé com aplausos calorosos, quanto pela imagem que protagonizaram ao personificar, mais que duas gerações, o elo ancestral entre pai e filha artistas.

A performance audiovisual, dirigida por Grazi Medrado e Chico de Paula, sempre um grande momento das aberturas oficiais das mostras da Universo - e que, sempre, merece um outro texto à parte - desenha todo esse momento de abertura.

Antonio Pitanga e  Camila Pitanga subiram ao palco para receberem o Troféu Barroco, e chamaram os familiares - filhas e sobrinhas netas, mais Benedita da Silva, companheira de Pitanga.

Camila  fez discurso emocionado, falou sobre escolhas, sobre sonhos, sobre utopias, sobre resistência, sobre cultura. Sobre a necessidade da miragem aos povos originários e à ancestralidade. Ressaltou também que a resistência não é de agora, afinal é, mais que tudo,  uma luta permanente que perpassa o país desde sempre, e é, sobretudo, estado permanente do povo preto.

Antonio Pitanga, um grande narrador de histórias e dono do dom das palavras, passeia com desenvoltura e domínio na sua fala pelo tom de celebração, reivindicação e gaiatice. Seu chamamento à importância e ao papel fundamental da cultura como identidade do povo brasileiro brasileiro e do Brasil jamais se enquadra na estética dos discursos óbvios, decorados e higienizadores. Seu pulso pulsa, e em cada miligrama todo um sangue preto de amor, festa, devoção e luta reivindica, exige e celebra.

Apaixonado e emocionante, pois cheio de paixão, foi a fala de Benedita da Silva exaltando os homenageados, sua família, e declarando seu amor pelo companheiro. Impossível não se contaminar pela confissão de amor daquela mulher por aquele homem, dois militantes e faróis para todas e todos nós da comunidade negra e para todo um país em frangalhos e banhado de ódio e tiros.

Bela e importante homenagem que a Mostra de Cinema de Tiradentes fez em sua 23a edição.


Filme

Também homenageando Antonio Pitanga, foi exibido o longa Os Escravos de Jó, que conta com o ator em seu elenco como um sobrevivente do holocausto e, atualmente, dono de uma livraria. 

O cearense Rosemberg Cariry tem um lugar de destaque no Cinema da Retomada. Seu Corisco & Dadá, de 1996, foi filme que, junto com outros como Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, revisitou o sertão e um cangaço com novas tintas.

Os Escravos de Jó foi rodado em Ouro Preto. O roteiro bebe na fonte do mito trágico clássico de Édipo e traz para seu caldeirão questões como povos dizimados e genocídios, como os vivenciados pelos judeus, na segunda Guerra Mundial, os palestinos na atualidade, e o povo preto desde a escravidão até os dias de hoje.

Ao mirar sua lente para o percurso de um jovem cineasta em filmagens sobre o Barroco  mineiro e a descoberta de sua história familiar, o filme vai entremeando a tragédia pessoal do personagem ao de outros que vão cruzando seu caminho.

História construída com muitas camadas, Os Escravos de Jó tem nos diálogos seu calcanhar de Aquiles. O elenco reúne atores em diferentes estágios, seja veteranos como Antonio Pitanga e Everaldo Pontes, intermediários como Sílvia Buarque e Rocco Pitanga, e novos como Bruna Chiaradia, Daniela de Jesus e Daniel Passi - o protagonista. E todos eles têm que lutar com falas didáticas que destoam do contexto emocional em que estão mergulhados.

Citando o homenageado, que clamou por ousadia, seja para lutar como para sonhar, Os Escravos de Jó ousa em seu roteiro - o que é mais que bem-vindo. No entanto, esse mesmo roteiro configura-se com uma armadilha a enfrentar desafios difíceis que o filme não consegue se desvencilhar.

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23a Mostra de Cinema de Tiradentes
Programação completa
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior