Ano 16

23a Mostra de Tiradentes - Sofá

Chay Suede e Ingrid Guimarães em cena de Sofá (2019), de Bruno Safadi
Bruno Safadi é um cineasta que os frequentadores da Mostra de Cinema de Tiradentes viu surgir e acompanhou sua trajetória imediatamente a seguir. Afinal, seu primeiro longa, Meu nome é Dindi (2007) não só participou da inauguração da Mostra Aurora - recorte competitivo  que apresenta até terceiros filmes de cineastas -, como ganhou a Mostra pelo Júri da Crítica. Depois, retornou com o documentário Belair (2011), dirigido com Noa Bressane.

Se no primeiro filme de ficção do cineasta, que tem como principal referência o Cinema de Invenção, sobretudo no universo de Julio Bressane, o elenco era mais autoral, como Djin Sganzerla, Maria Gladys e Nildo Parente, a partir de Éden (2013) ele foi abrindo mais o leque, trabalhando com atores de maior visibilidade, ainda que circulem pelo cinema independente - Leandra Leal, Mariana Ximenes, Nizo Neto;

Em Sofá, Safadi amplia ainda mais sua paleta trazendo como protagonista Ingrid Guimarães e Chay Sued - mais a presença de Laila Neiva. E Ingrid se dá muito bem na gramática proposta pelo cineasta, o que, infelizmente, não acontece a contento por Suede.

Sofá foi exibido na Mostra "A Imaginação como potência", temática central desta edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. O filme mira sua lente para dois excluídos: uma Joana D´Arc e um pirata tropicais.

Joana D´Arc é uma ex-professora de escola pública que perde a casa da família com a desapropriação pela governo municipal carioca. Em luta para recuperar sua casa e sua identidade, ela perambula revirando lixo na Baía de Guanabara, onde se encontra com Pharaó. Juntos, pescam um sofá, um signo importante para as desventuras de Joana e seu desejo de reintegrar-se ao curso natural de sua vida. Ajudada por ele, ela tenta reaver a casa de sua família, e, portanto, sua história, junto ao Prefeito, enquanto carregam o sofá pelas ruas, praças, gabinetes e praias cariocas.

Na apresentação do filme no Cine-Tenda, Bruno Safadi anunciou que seu filme é uma paródia, mas que toma ares de realismo diante do atual estado do país. Ressaltou também o trabalho de cor feito no filme, processo que levou muitos meses para que se chegasse ao resultado final visto na tela.

Realmente, o país, desde o Golpe sobre a Presidenta Dilma até o atual fascismo no poder, tomou caminhos tão absurdamente incontroláveis, que qualquer paródia perde para o que assistimos, cotidianamente e boaquiabertos, pelas redes sociais.

As intenções de Safadi alcançam resultados interessantes, tanto como o uso das cores vivas que vão sendo imprimidas nas imagens, quanto na composição que Ingrid Guimarães dá a sua personagem. Há ali, na composição de Joana D´Arc que ela apresenta, tanto uma dramaticidade quanto uma crítica que Ingrid expande e reverbera na medida certa. Ela está realmente muito bem, há uma inteligência criativa na sua performance em uma narrativa que se referencia em imaginários arquitetados por Godard, Polanski e Bressane. Já Chay Sued, geralmente um ótimo ator, não consegue dar muito conta de seu pirata, valendo-se mais de expressões externas para compor seu personagem.

Sofá é mais um página interessante na carreira de Bruno Safadi, um cineasta a não se perder de vista.

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23a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 24 de janeiro a 1 de fevereiro
Programação completa
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior