Ano 16

23a Mostra de Tiradentes - Um dia com Jerusa

Léa Garcia, Viviane Ferreira e equipe da mesa de debate do filme Um dia com Jerusa - Crédito: Netun Lima
Depois do arrebatamento de Sertãnia, de Geraldo Sarno, foi a vez de o público se encantar com mais um grande filme na 23a Mostra de Cinema de Tiradentes: Um dia com Jerusa (2019), de Viviane Ferreira.

Se não tivesse todas as inúmeras qualidades que tem, o momento de apresentação do filme no Cine- Tenda já seria inesquecível, pois a protagonista Léa Garcia veio a Tiradentes. Uma das atrizes mais importante do país, referência para a cultura negra, e que compõe, ao lado de Ruth de Souza e Zezé Motta, o trio de ouro das atrizes negras, Léa Garcia é uma Rainha.

O teatro, o cinema e a televisão já nos apresentaram muitas atrizes e atores negros fabulosos, bastando citar, entre as atrizes nomes como Chica Xavier, Cléo Simões, Jacira Sampaio, Jacira Silva, Luiza Maranhão, Neusa Borges, Maria Rosa, Zezeh Barbosa, Thaís Araújo, Camila Pitanga, e tantas outras. 

Já Ruth de Souza e Léa Garcia estão lá na origem de tudo, ambas  vindas do TEN - Teatro Experimental do Negro, a primeira como fundadora ao lado de Abdias Nascimento e outros, e a segunda vindo para o grupo depois. Além de ambas contruírem um carreira majestosa também no cinema e na televisão, e serem faroís do Movimento e da Cultura Negra do país. E Zezé Motta que, vindo depois das duas, também construiu trajetória-farol, seja como atriz, como cantora e como militante do Movimento Negro.

Ver Léa Garcia protagonizando um novo longa é de uma importância enorme. E, além de ela própria por sua trajetória, é  mérito de toda a produção desse longa que montou praticamente  toda a equipe com mulheres negras atrás e a frente das câmeras.

Dirigido por Viviane  Ferreira, Um dia com Jerusa foi primeiro um curta e agora chegou ao formato longa. No filme, Léa Garcia é a Jerusa do título, uma mulher que, no dia do seu aniversário de 77 anos, recebe em sua casa uma pesquisadora de mercado, Sílvia. Enquanto espera os familiares e responde ao formulário de pesquisa sobre sabão em pó, Jerusa conta para a visitante passagens de sua vida, um baú de memórias marcadas pela resistência e pela ancestralidade. E Sílvia, uma estudante às voltas com seu subemprego, tem, no encontro com Jerusa, a chave para também rever sua vida e suas escolhas.

No dia seguinte, o Mulheres também conferiu o debate de Um dia com Jerusa, apresentado na noite anterior na Mostra "A Imaginação como potência", temática central desta edição da Mostra de Tiradentes.

Mediadas pela curadora Lila Foster, a mesa contou com a presença da diretora Viviane Ferreira, das atrizes Léa Garcia e Debora Marçal, da diretora de fotografia Lílis Soares, e da crítica convidada Letícia Bispo, do Distrito Federal.

Viviane Ferreira, que além de cineasta também é advogada e teve trajetória no governo Haddad, contou histórias ótimas sobre o processo do filme. Como a dificuldade para conseguir suplemento financeiro ao prêmio que ganhou em Edital de ações afirmativas em São Paulo - Um dia com Jerusa é rodado na capital paulista -, mas que não conseguiu. E sua luta para ter o equipamento técnico de fotografia. 

Destaques para a narração sobre os conselhos que recebeu para se garantir nesse seu primeiro longa, como montar toda a equipe técnica de profissionais experientes e premiados, e sua decisão em fazer exatamente o contrário, ou seja, todos os cargos de direção de equipes são com mulheres estreando em longas, como ela.

Sobre isso, Léa Garcia assinalou que, mesmo tendo já feito tantos filmes, essa experiência em Um dia com Jerusa também foi uma primeira vez sua, já que nunca antes tinha sido dirigida em um filme com temática negra por uma mulher e nem com uma equipe formada com cerca de 95% de mulheres negras.

Outro confidência importante e saborosa da cineasta foi ao ser questionada pelo público em que momento decidiu que faria o filme, se foi por se achar preparada, apesar das adversidades, pelo currículo que já tinha. No que Viviane explicou: fiz porque minha Mãe de Santo falou quera para eu fazer. Ou eu faria naquela hora ou não faria nunca mais. Nunca mais! 

Integrante do candomblé, assim como a atriz Debora Marçal, Viviane levou, inclusive, esse universo para o filme, quando a personagem passa por transes durante algumas cenas e a história recua e avança formando um movimento circular que liga as personagens à ancestralidade e ao fio de memórias e de descobertas.

Um dia com Jerusa é filme de negras para negras e negros. Para que nos reconheçamos e nos ligamos em comunhão com a ancestralidade.  É filme sobre coletividade. É filme sobre a história, a força, e a resistência permanente de um povo e de sua cultura.


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23a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 24 de janeiro a 1 de fevereiro
Programação completa e gratuita
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior