Ano 16

23a Mostra de Tiradentes - Aurora parte 3

Exibição de Pão e gente (2020), de Renan Rovida - Crédito: Netun Lima
Recorte da Mostra de Cinema de Tiradentes desde 2008, a Mostra Aurora é espaço aberto para exibição de até terceiros filmes de cineastas no formato longa. Competitiva, ela é avaliada pelo Júri Oficial, que escolhe o vencedor para receber o Trofeu Barroco.

Em mais uma noite da Aurora, foram exibidos mais dois filmes. A produção paulista Pão e gente (2020), de Renan Rovida, e de Goiás o filme Mascarados (2020), de Marcela Borela e Henrique Borela.

Pão e gente, como o próprio nome sugere, é filme de forte cunho social. Foco ressaltado, inclusive, pela sinopse apresentada pelos realizadores: "Despossuídos num ensaio pelo pão de cada dia". A partir de texto de Bertold Brecht, "A padaria", escrito entre 1929 e 1930, o filme conta a história de uma viúva despejada e em ruína, depois que o dono de uma padaria, proprietário do quarto que ela ocupa, nega ter pedido para ela fazer uma encomenda para ele de  um carregamento de madeira para lenha. Ela herda a dívida e na rua com os sete filhos se vê às voltas com  homens e mulheres que aderem a sua causa, o Exército da Salvação, a polícia, e um grupo de desempregados.

Também com outras referências, como Mário de Andrade, Pão e gente faz uma analogia do texto de Brecht escrito no final dos anos 1920 com o momento em que país atravessa, com milhões de desempregados e trabalhadores na informalidade e no subemprego. Ponto de vista ressalto, inclusive, pelo diretor em apresentação sobre o filme. Valendo-se de impactante fotografia p&b e de músicas que comentam e denunciam a história narrada, a relação com os tempos atuais está, para além da denúncia social, configurada a partir do cenário, a São Paulo dos dias atuais - "Mário de Andrade morou nessa rua", ressalta um dos personagens. 

Pão e gente tem elenco formado por uma trupe de jovens bons e expressivos atores, com destaques para Natasha Karasek e  e Rafaela Carneiro, ainda que a analogia proposta, por vezes, careça no roteiro de um tônus a evidenciar, cinematograficamente melhor, esses dois tempos da ação.

Mascarados, produção goiânia dirigida por Marcela Borela e Henrique Borela, foi rodada em Pirinópilis, cidade do interior do Estado. Com esse filme, a dupla de diretores retorna à Tiradentes, já que o primeiro longa deles, Taego Ãwa, também foi selecionado para a Aurora em 2016.

Próxima a Distrito Federal, Pirinópolis é a cidade onde vive, há mais de 40 anos, a atriz Eliane Lage, estrela número 1 da Vera Cruz. Foi também cenário para a novela da Globo Estrela Guia, estrelada pela cantora Sandy. E é, sobretudo, palco das famosa Festa do Divino Espírito Santo, manifestação folclórica marcada pelas famosas Cavalhadas e pela concentração de mascarados que, em mistura de ato religioso e profano, circulam pela cidade.

O filme apresenta uma relação entre esse momento de exteriorização e de revolta da festa com a condição em que quatro personagens vivem como trabalhadores de uma mina de pedra. Aviltados na relação de trabalho, eles são explorados e enganados na informalidade em seus direitos básicos, inclusive o de pagamento pela trabalho feito.

"Nós merecemos mais que carregar pedras", diz um dos personagens, desempregado com o fechamento da mina, mirando a cidade do alto de uma colina ao lado de seus companheiros. O mesmo que, ao contrário dos colegas, reivindica seus direitos e luta por um lugar no mundo com mais beleza e felicidade, apesar de um presente e futuro anunciado de uma realidade dura, desumana e cruel.


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23a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 23 de janeiro a 1 de fevereiro
Programação completa e gratuita
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior