Ano 16

23a Mostra de Tiradentes - Aurora parte 4

Cena de Cabeça de nêgo (2020), de Déo Cardoso
A Mostra Aurora, seleção competitiva da Mostra de Cinema de Tiradentes, exibiu seus dois últimos filmes:. Agora é esperar pelo grande vencedor, que será escolhido pelo Júri Oficial com o Trofeu Barroco - Cabeça de nêgo, exibido ontem, é uma aposta forte.

O primeiro filme da noite foi Cabeça de nêgo, produção cearense de 2020 dirigida por Déo Cardoso. Em apresentação do filme no Cine-Tenda, ele disse que estava adorando estar por aqui, aprendendo muito com cada filme exibido e com as trocas entre os colegas. Que aquele era seu primeiro filme, e, por isso, talvez marcado por acertos e erros, mas que era um filme sincero.

Com exceção de Cadê Edson?, da Dácia Ibiapina, os filmes até então apresentados na Mostra Aurora apresentam narrativas de meios tons. Já Cabeça de nêgo, como o de Dácia, já despontou na tela elevando a temperatura, no caso dela pelo foco nas manifestações dos Sem-Teto, e aqui na história do adolescente Saulo, militante negro e amante da saga dos Panteras Negras.

Ameaçado por um jovem egresso no crime envolvido na morte de seu irmão, e chamado de macaco por um colega de turma, a quem revida, Saulo não aceita ser expulso da sala pelo professor: "Ele me chama de macaco e eu é que tenho que sair?". Esse é só o início do confronto que ele vai protagonizar com a escola e seu corpo docente, desaguando em forças como o secretário de educação e a polícia.

Saulo se recusa a sair da escola, ainda que a direção e a maior parte dos professores decidem por sua expulsão do colégio. Com a ajuda de vários colegas, que ficam do lado de fora acompanhando seus vídeos de denúncia da precariedade da escola e depois em protesto pela situação, de duas professoras e com apoio de sua mãe, ele protagoniza um motim de consequências explosivas.

Cabeça de nêgo materializa, em ficção, o que foram as recentes paralisações e lutas dos secundaristas. Aqui no filme, inserindo a questão da negritude e o destino que o Estado, sempre, projeta para jovens pretos e pobres da periferia. A conscientização de Saulo e os desdobamentos dela configuram-se em cenas memoráveis na tela, como a inscrição a canivete que faz nas carteiras de nomes fundamentais da causa negra no Brasil, como Lélia Gonzales Presente, Abdias Presente e Marielle Presente.

Cabeça de nêgo é muito bem dirigido e conta com elenco jovem que imprime a temperatura exata proposta pelo filme, com destaques para Lucas Limeira e Nicoly Mota. A única restrição fica por conta de algumas parte do roteiro, que, sem precisar, pois a força da história é forte por si só, pesa em alguns maniqueísmos, sobretudo na composição da personagem da jornalista de TV que cobre a revolta.

Mesmo assim, esses desvios não conseguem retirar de Cabeça de nêgo o impacto visto nas telas. Emocionado com a recepção do público presente no Cine-Tenda, Déo Cardoso, já em seu primeiro longa, mostrou ser um cineasta a não se perder de vista. Vale ressaltar ainda a ótima montagem do filme assinada pelo experiente Guto Parente. Cabêça de nêgo é dedicado aos cineastas Adélia Sampaio e Zózimo Bulbul.

Natureza Morta é produção mineira dirigida por Clarissa Ramalho. O filme conta a história de Lenita, um jovem de origem abastada e culta. Criada pelo pai, ela se opõe ao casamento como um destino natural para as mulheres. Suas convicções vão se abalar depois de conhecer Barbosa, um homem casado por quem se apaixona.

Protagonizado por Mariana Fausto e Rômulo Braga, Natureza morta conta ainda no elenco com a participação especial de Helena Ignez, como uma das narradoras a tecer impressões sobre a trajetória e as escolhas da jovem. Marcado por apuro estético, as imagens do filme impressionam pela fotografia e pela composição dos planos, remetendo, para quem conhece, ao cinema de Ricardo Miranda, sobretudo Paixão e virtude (2014), a quem o filme é dedicado.

O elenco de Natureza morta, inclusive, reúne os mesmos atores de Paixão e virtude, como a própria protagonista Mariana Fausto, mais as atrizes e atores Rose Abdallah, Paulo Azevedo, Bárbara Vida e Helena Ignez.

Com história que se passa em 1888, Natureza morta se debruça sobre a transgressão de uma mulher, ao mesmo tempo em que é marcada pelas convenções sociais de sua a época.


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23a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 23 de janeiro a 1 de fevereiro
Programação completa e gratuita
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior