Ano 16

23a Mostra de Tiradentes - Curtas

cena de Cinema contemporâneo(2019), de Felipe André Silva

A programação de filmes na Mostra de Cinema de Tirantes é grande. Nesta 23a edição estão sendo apresentados 113 títulos em 53 sessões - 31 longas, 1 média e 81 curtas-metragens. 

 

O Mulheres do Cinema Brasileiro cobre o maior número de longas possível, e também acompanha algumas exibições de curtas. Dessa vez foram poucos curtas, só cinco, mas dentre eles um realmente notável: Cinema contemporâneo (2019), produção pernambucana dirigida por Felipe André Silva.-, apresentado na Mostra Foco - Série 2.

 

Conciso, o documentário Cinema contemporâneo impressiona pela capacidade de, em apenas cinco minutos, não só meter o dedo em uma ferida permanentemente aberta em sangue, o abuso sexual, como extrair daí ótimo cinema.

 

O curta tem narração do próprio realizador, que conta a sua história. E já se anuncia dizendo que ia contrariar o conselho de um curador de cinema, que dissera que o formato documental em que realizadores contavam a própria história já estava saturado.

 

Felipe André Silva coloca em foco de cena uma fotografia em que estão reunidos aqueles que o estupraram desde muito cedo. Sem nunca mostrar o rosto de seus algozes, mas apenas partes de seus corpos e roupas, a narrativa, ainda assim, se instaura com tanta força, que fica nítido tanto o talento do diretor como o da montagem, assinada por Pedro Queiroz.

 

O cineasta personagem denuncia a relativização que muitos fazem sobre os abusos de crianças, muitas vezes, valendo-se e inserindo essa violência nas discussões sobre sexualidade infantil.

 

Enquanto vai contando sua breve, mas dolorosa história, a câmera vai passeando pelo esconde e mostra da fotografia, até que, por fim, projeta a cara dele, a única que aparece. E, dessa forma, materializa e personifica a memória em dor, até então só ouvida pelo relato.

 

E é essa construção, aparentemente simples, que transforma aquela confissão, aquela dor estampada na voz aparentemente tranquila, mas cheia de nuances subterrâneos, e aquela fotografia em puro cinema. Grande cinema.

 

O Mulheres do Cinema Brasileiro assistiu ainda os curtas Egum (2019), produção do Rio de Janeiro de Yuri Costa. Um mergulho no horror a partir da interação entre dois mundos, os dos vivos e os das almas que vagam pelo mundo, dirigido com vigor.

 

Da produção alagoana, que trouxe para a Mostra de Tiradentes três curtas, A barca (2019), de Nilton Resende, Trincheira, de Paulo Silver e Ilhas de calor, de Ulisses Arthur; e o longa Cavalo, de Raphael Barobosa e Werner Salles Bagetti, o Mulheres conferiu A barca. Baseado no conto "A barca de natal", de Lygia Fagundes Telles, o filme, escrito e dirigido por Nilton Resende, conta a história do encontro entre duas mulheres em uma estranha barca, trazendo para a cena o universo singular da escritora.

 

Calmaria (2019), produção mineira dirigida por Catapreta, é baseado no espetáculo Violento, protagonizado por Preto Amparo e dirigido por Alexandre de Sena. O filme de Catapreta introduz texto de Marcelino Freire e traz para a cena a atriz Julhia Santos e o ator Alexandre de Sena.

 

Se em Violento, Preto Amparo fazia de seu corpo um ato presente a confrontar e a convidar o público a rever seus significados e significantes em relação ao corpo negro, em Calmaria, o roteiro e a direção colocam ainda em cena o corpo trans preto, como a propagar ainda mais essa discussão e apreensão urgente.  Ainda que dilua a força imagética do espetáculo, e, consequentemente, as reverberações desta, o curta Calmaria traz para a tela a continuidade do universo proposto.

 

Por fim, Perifericu (2019), produção paulista dirigida por Nay Mendl, Rosa Caldeira, Sthefany Fernanda e Vita Preiera, traz para a cena corpos periféricos que desafiam a ordem e um destino que a sociedade quer lhes impor, mas que as personagens subvertem em explosiva pulsão de vida. Um caleidoscópio arrebatador em que rap, canto evangélico e danças urbanas reafirmam e potencializam identidades.

 

 

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23a Mostra de Cinema de Tiradentes

De 24 de janeiro a 1 de fevereiro

Programação completa e gratuita

www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior