Ano 16

Tiradentes - Cinema dos Veteranos

Apresentação de "A despedida" - Via Negromonte, Nelson Xavier, Marcelo Galvão e equipe
Como diria Nelson Rodrigues, fazer a cobertura da Mostra de Tiradentes “não é bolinho não”.

A programação começa às 10h e termina de madrugada, e daí dá-lhe filmes (curtas e longas), debates, lançamentos de livros, exposição, shows, performances, entrevistas...

No terceiro dia da 18ª Mostra de Tiradentes, ontem, domingo, não foi diferente.  O Mulheres do Cinema Brasileiro acompanhou um debate, assistiu a três longas, fez entrevistas e colheu depoimentos.

O longa “Pingo d`água” (2014), produção da Paraíba dirigida por Taciano Valério, abriu a "Mostra Sui Generis", um dos vários recortes que a Mostra apresenta, e, nessa, com espaço aberto para filmes com propostas mais radicais.

Taciano Valério já esteve em Tiradentes em 2013 com seus dois longas anteriores: “Onde Borges tudo vê” e “Ferrolho”.

Em "Pingo d´água" ela radicaliza seu cinema, com esse filme que muitos encaram como “Filme de Processo”, mas que, penso, vai além disso.

Mesmo porque denominações abrangentes como “Filmes de Processo” e “Cinema do Afeto”, por exemplo, também penso eu, se configuram muito mais como posturas reducionistas sobre cada obra em particular. 

“Pingo d´água” mira sua lente para um grupo de atores que participa de um filme, com seus processos de criação, improvisos e suas “realidades ficcionais”, e também as cenas do próprio filme que realizam e encenam.

O filme, em sua vigorosa fotografia em p&b, focaliza um grupo de artistas potentes, ainda que sua lente se detenha, sobretudo, em Jean-Claude Bernardet. Intelectual, crítico e ensaísta de ponta na história do cinema brasileiro, Bernardet, ultimamente, anda investindo na carreira de ator, já com vários trabalhos no currículo.

Cerebral como ensaísta, Jean-Claude tem se permito uma exposição inesperada nos filmes em que atua, como em FilmeFobia (2008), de Kiko Goifman, e em  “Pingo d´água” não foi diferente, ainda que em outro registro.

Nos improvisos do processo e nas performances no filme, ele protagoniza cenas vigorosas, e, particularmente, sua dobradinha com Everaldo Pontes – ator fetiche do cinema de Taciano Valério - é um dos pontos altos.


Cinema de Veteranos

A presença de Everaldo Pontes em “Pingo d´água”, que foi exibido á tarde, foi como que uma ponte para um verdadeiro “Cinema de Veteranos” na tela da Mostra ontem à noite.

Se Everaldo Pontes brilhou em “Pingo d´água” com suas performances despudoradas, Nelson Xavier e Fernanda Montenegro mostraram outras faces de seus imensos repertórios.

Fernanda Montenegro é o destaque máximo de “Infância” (2014), de Domingos Oliveira, como dona Mocinha, a matriarca de uma família abastada do Rio de Janeiro da década de 1950.

Atriz que dispensa apresentações, é mesmo impressionante a variada paleta de matizes pela qual Fernanda consegue trafegar.

É notório que a atriz transita tanto entre personagens do bem quanto do mal, tanto pobre como milionária. E aqui, em “Infância”, ela compõe uma personagem autoritária, daquelas matriarcas da elite de um Brasil arrogante que insiste em persistir. A Dona Mocinha de Fernanda não se situa na vilania, mas na arrogância de classe.

E olha que em um elenco completamente arrebatador em cena: Priscilla Rozembaum, Paulo Betti, Ricardo Kosoviski, Nanda Costa e Maria Flor.

Pena que esse filme de Domingos Oliveira não seduza tanto como os outros recentes do diretor – a história de reminiscências em si não decola e as cenas com as crianças são fracas. É claro que tem a relevância dos filmes do cineasta, mas o grande destaque mesmo é seu estupendo elenco.

"A Despedida" - Na sequência de “Infância” foi a vez de conferir “A despedida”, e mais um ator veterano em cena em um grande momento: Nelson Xavier.

Dirigido por Marcelo Galvão, “A despedida” conta a história de um velho almirante em sua derradeira idade, que, completamente alquebrado pelo peso dos anos e da saúde frágil, sai de casa sozinho com seu andador e cruza a cidade de São Paulo para encontros definitivos, e que podem ser seus últimos.

Nelson Xavier interpreta seu Almirante, personagem bem mais velho que o ator, com total entrega e domínio de cena. Impressionante como a fragilidade do personagem fica incrustada em todo o corpo do ator: pele, olhos, fala, passos.

O mais impressionante é que o ator encontra em Juliana Paes, com quem vive cenas de amor e sexo, doçura e safadeza, uma atriz que cresce a olhos vistos. Se Nelson Xavier está soberbo, Juliana Paes está sensacional.  Não à toa, receberam o Kikito de Melhor Ator e de Melhor Atriz no Festival de Gramado 2014.

“A despedida” é filme outonal que, ao contrário de muitos filmes sobre o tema, dosa com perfeito domínio a crueldade do corpo que perece com a doçura dos afetos que se eternizam.


Lançamento de livros

A 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes abriu espaço à tarde para o lançamento de Livros e DVDS: foram nove livros e a Coleção Cavídeo de DVDs”.

Impossível não registrar a importância do lançamento do livro “Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista”, do jornalista e pesquisador Matheus Trunk.

Matheus é um nome indesviável quando o assunto é cinema popular brasileiro. Um dos fundadores e editores da revista Zingu!, que fez história ao mirar sua lente para o cinema brasileiro, e, sobretudo, para o cinema popular paulista, Trunk é pesquisador apaixonado pelo seu tema e objeto.

E o tema e o objeto do pesquisador não são nada comuns: ele se interessa, notadamente, por personagens que, muitas vezes e injustamente, ficam relegados aos bastidores quando se fala em resgate de memória, como técnicos, cineastas e atores populares.

Incansável, Matheus Trunk, que ainda está lançando em algumas cidades do país seu “O Coringa do Cinema”, sobre o cineasta e técnico Virgílio Roveda, chega agora com seu “Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista”.

Como o próprio nome indica, mais uma vez Matheus se volta para o universo da Boca do Lixo, e aqui não mais com um personagem único. “Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista” é uma oportunidade para que o leitor conheça um pouco mais de perto um dos melhores momentos do cinema popular do país.



Mais informações sobre a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
www.mostratiradentes.com.br




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 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior