Ano 20

Tiradentes - "Teobaldo morto, Romeu exilado"

Alexandre Cioletti e Rômulo Braga em "Teobaldo morto, Romeu exilado" - Foto Felipe Amarelo
Ontem, terça, 27, na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a chuva forte durante à tarde interrompeu um seminário por algum tempo por causa da falta de luz, e, à noite, causou a transferência da sessão de curtas na praça para a tenda – dias atrás aconteceu a mesma coisa.

Mas nem a alternância entre chuva forte e sol quente afastou o público e nem atrapalhou a agenda intensa.

O Mulheres acompanhou um seminário – de “O animal sonhado” -, já comentado na postagem de ontem, e a cobertura demorou a ser publicada, entre outras coisas pela falta de luz, e, sobretudo, pela perda dos óculos, para desespero desse escriba.

Além disso, assistiu um longa e sete curtas.

“Teobaldo morto, Romeu exilado” (2014), uma produção do Espírito Santo dirigida por Rodrigo de Oliveira, foi o segundo filme da Mostra Aurora – recorte competitivo da Mostra que contempla realizadores com até terceiros filmes.

Rodrigo de Oliveira, crítico de cinema de fôlego, fez a transição para diretor de cinema com fôlego ainda maior.

Com dois longas no currículo, o cineasta marca um tento importante na Mostra de Tiradentes, pois seu filme anterior, “As horas vulgares”, também foi selecionado para a Mostra Aurora, em 2012.

“As horas vulgares” é belo filme que lançou luz sobre a produção capixaba, já que, atualmente, além de Rodrigo Aragão, não é uma cinematografia muito conhecida.

“Teobaldo morto, Romeu Exilado” conta a história de João, um homem em crise e prestes a ser pai, que sai de casa e se exila sozinho na casa rural da família. Lá, reencontra Max, o amigo que tinha sido dado como morto, e do qual, de certa forma, “tomara” o lugar, para um acerto de contas.

Fazendo uma sinopse simples do filme ela seria apenas uma sinopse banal, como a de cima e outras possíveis. Só que “Teobaldo morto, Romeu Exilado” é muito mais que isso.

E isso se dá tanto na história: Max é um duplo de João? João é um duplo de Max? Que narrativa épica está mapeando essa história? 

Como também nas questões formais: o tempo da narrativa é o tempo dos personagens; a estética adotada é da palavra, como muitos filmes também a são, mas aqui com a palavra marcada subterraneamente por um fluxo de ações; a aparição de elementos circundantes – como o cavalo ferido, a árvore em chamas, e, sobretudo, um outro que é melhor não revelar – muito além de significados meramente simbólicos.

E há também os atores. E que atores! Rômulo Braga, que faz Max, já havia trabalhado com Rodrigo de Oliveira, e, talvez por isso e também porque é ator experiente no cinema, faz seu Max com domínio total de corpo e de voz, pontuando seu personagem com a impregnação de uma ambiência trágica, abissal e cheia de claros e escuros.

Alexandre Cioletti, que faz João, marca seu primeiro trabalho com o diretor, e talvez por isso e porque é também um ator experiente no cinema, traz uma quebra de registro. Seu João, por estar em crise, é um personagem aparentemente alquebrado, mas é também ambíguo, não na composição de claro/escuro de Max e mais numa proposição de esconde/aparece, guarda/oferece, introjeta/expõe. 

Ambos – um duplo? - se aproximam e se distanciam, cheios de fúria e amor.

O foco maior vai para Alexandre Cioletti e Rômulo Braga porque eles que estão no centro da ação. Só que "Teobaldo morto, Romeu exilado" conta também com participações em personagens importantes de Sara Antunes, Margareth Galvão e Erik Martincues.


Curtas

Com a chuva, os curtas da praça foram transferidos para o Cine Tenda, e o Mulheres conferiu três dos quatro curtas programados.

Foi a salvação da lavoura no formato, pois “Doutor Margarinos – advogado do morro” (2014 - RJ), de Ludmila Curi, e “Dia da mentira” (2014 - SP), de Thiago B. Mendonça e Marco Escrivão, se revelaram ambos como cinema político de grande interesse.

E foi salvação porque se a Mostra Foco, como já foi dito aqui, é a que, comumente, abriga curtas sempre relevantes, a série de ontem foi muito fraca e com filmes que não seduziram.

Mais informações sobre a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes 
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior