Ano 16

MFL 2015 – Longas Livres Parte 2

Cena de Ela volta na quinta, 2014, André Novais Oliveira
O Mulheres do Cinema Brasileiro segue destacando filmes do programa Longas Livres, da Mostra do Filme Livre, em Belo Horizonte, elencado pela curadoria como os melhores
longas independentes de 2015. Nesse recorte do site, produções dirigidas ou codirigidas por mulheres, além daqueles em que elas estão no centro da cena.

Já falamos por aqui de A mulher que amou o vento, de Ana Moravi, A vida privada dos hipopótamos, de Maíra Bühler e Matias Mariani, e de A misteriosa morte de Pérola, de Guto Parente - veja no arquivo.

Dessa vez são dois filmes: Filme Jardim Atlântico, de Jura Capela (PE, 2012), e Ela volta na quinta, de André Novais Oliveira (MG, 2014).

Como observado, a escolha é porque nos dois a mulher tem papel central. Ainda assim, não podemos deixar de registrar, pela qualidade das produções, os longas Dromedário no asfalto, de Gilson Vargas (RS, 2014), exibido no dia 4, e Pingo d´água, de Taciano Valério (PB, 2014), que será exibido hoje, 10.

Dromedário no asfalto coloca seu personagem, Pedro, em constante movimento e apenas com a mochila nas costas, para, em belíssimos planos e acontecimentos, vivenciar memórias afetivas, encontros e reencontros.  Já Pingo d´água mira sua lente para um grupo de atores que participa de um filme, com seus processos de criação, improvisos e suas “realidades ficcionais”, e também as cenas do próprio filme que realizam e encenam. Ambos são filmes que merecem ser vistos, sobretudo o belo Dromedário no asfalto.

Filme Jardim Atlântico, de Jura Capela, foi exibido na segunda, 8. É um dos pontos altos da programação do Longas Livres.  A produção de Pernambuco confirma, mais uma vez, sua geografia como uma das regiões do país onde se produz muito do melhor do cinema brasileiro contemporâneo.

Filme Jardim Atlântico opera em chave essencial do cinema: conta uma história, mas, antes de tudo, está interessado em como conta-la. Ou seja, é antes de tudo cinema. Ao focar os embates de um casal, que vivenciará os limites do amor e da paixão, da posse e da liberdade, o filme aposta em signos acachapantes – como minotauro e arraias – para construir sua visão de mundo. 

Filme Jardim Atlântico já seduz desde a abertura, e quando coloca seus personagens em pleno carnaval de rua do Recife é impossível não fazermos a ponte com um dos mais libertários, inventivos e belos filmes do cinema brasileiro: A lira do delírio (1973/77), de Walter Lima Jr. E se aqui temos os personagem em puro e extasiante estado dionisíaco da liberdade, a trama vai percorrer um descaminho em que, instaurado a crise de um casal, a compreensão entre a liberdade e a posse do amor vai selar vidas, escolhas e o seu lugar de estar e como estar no mundo. 

Já amanhã, quinta, dia 11, o programa Longas Livres exibe outro ponto altíssimo de sua programação: Ela volta na quinta, de André Novais Oliveira.

A produção mineira reafirma o que já é sabido há muito tempo por quem acompanha a produção do cinema independente de perto: André Novais Oliveira é um dos maiores talentos do Brasil em atividade.

Diretor de curtas absolutamente arrebatadores como 150 miligramas (2009), Fantasmas (2010) e Pouco mais de um mês (2013), em seu primeiro longa solo o cineasta imprime seu cinema humanista de alta cepa aliado a uma pesquisa de linguagem que jamais se desloca do pretendido. No cinema de Novais, a ética e a estética estão colocadas tão absolutamente orgânicas – o que é mostrado e como está mostrado é, em forma e conteúdo, visceralmente político, social e poético - que fazem de seus filmes momentos únicos na atual produção cinematográfica.

No filme está em cena, mais uma vez, esse universo que é apresentado tão comumente de forma reducionista: os dramas comuns da periferia.  Somos apresentados a uma família, interpretada pela própria família do diretor, com ele, inclusive, em cena, vivenciando momentos deflagradores de seu destino, de seu presente e da ideia de seu futuro.

Em Ela volta na quinta, o que poderia resultar em mais um retrato definidor de preconceitos e visões chapadas e maniqueístas, não só de um universo, como também da forma como ele é retratado, encontra na lente de Novais outras possibilidades. Sobretudo, a possibilidade de um encontro com o que somos e com o que o cinema é capaz de fazer para potencializar essa descoberta.

Daí, o filme nos coloca de frente à cenas, por exemplo, como a que ilustra essa matéria. Nela, o casal dançando enamorado a canção Olha, de Roberto Carlos, fala não só sobre os personagens, mas sobre o imaginário de todo o povo de um país. E é isso que o cinema de Novais nos propõe o tempo inteiro: descobrir quem somos, do que somos feitos, e como o cinema pode nos reconduzir nesse olhar.


Confira toda a programação no site www.mostradofilmelivre.com


Serviço
14ª Mostra do Filme Livre em BH – MFL 2015
Local: CCBB-BH (Teatro II)
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários – Belo Horizonte – MG
Tel: (31) 3431-9400 | ccbbbbh@bb.com.br
Entrada franca, com distribuição dos ingressos meia hora antes da sessão.
Programação completa: www.mostralivre.com
Funcionamento: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Data: 03 a 22 de junho de 2015
Horários: consultar programação
Ingressos: entrada franca
Classificação: consultar programação por sessão

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior