Ano 16

Abraccine-100 Melhores Filmes Brasileiros

Aldine Müller e Zecarlos de Andrade em "A mulher que inventou o amor" (1980), de Jean Garrett
Certa vez, não me recordo o ano, o jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria em que elencava o que chamou de "As 25 Maiores Cantoras Brasileiras" – era algo assim o título. A lista abrigava desde medalhões como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e Simone até quem despontava na época, como Marisa Monte. Dentre inúmeras artistas expressivas, deixou de fora Elba Ramalho, que protestou publicamente e cheia de razão dizendo que para a Folha ela não existia.

Depois, toda vez que ouvia a linda canção Ele me deu um beijo na boca, do Caetano Veloso, em que ele dizia o verso “O Time Magazine quer dizer que os Rolling Stones já não cabem no mundo do Time Magazine; mas eu digo (Ele disse) que o que já não cabe é o Time Magazine no mundo dos Rollings Stones Forever Rockin´And Rolling” sempre pensava na tal lista da Folha e em Elba.

Pois agora a canção me veio novamente à mente e ao coração ao me deparar com a lista da Abraccine – Associação Brasíleira de Críticos de Cinema titulada, pomposamente, de “Os 100 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos”.

Mais uma vez estão lá todos os medalhões, o que, realmente, não poderia deixar de ser, pois são mesmo grandes filmes, como Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, e O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla.  Além do, segundo a lista,  Melhor Filme de Todos os Tempos: o eternamente vanguardista Limite, de Mário Peixoto.

Até aí tudo bem. Só que basta uma olhada rápida na lista de 100 títulos para o leitor, sobretudo o amante e pesquisador do cinema brasileiro, tomar um susto atrás do outro.

Quer saber quais?

- Jean Garrett, Carlos Hugo Christensen, Alberto Cavalcanti, Watson Macedo, Antonio Calmon, David Neves, José Carlos Burle, Denoy de Oliveira, Alberto Salvá, Roberto Pires, Aurélio Teixeira,  Jece Valadão, Xavier de Oliveira  e Paulo Porto não existem - só para citarmos algumas ausências.

- Toda a Cinédia não existe.

- Toda a Boca do Lixo –com exceção para Anselmo Duarte e o Cinema Marginal – não existe.

- Diretoras só Ana Carolina, Suzana Amaral, Laís Bodanzky, Anna Muylaert e Daniela Thomas.

- Diretores negros nenhum.

- Walter Hugo Khouri – nosso maior cineasta – com um filme e José Padilha e Walter Salles com três títulos cada – e esse último nem está com Socorro Nobre, seu imenso filme, mas, dentre os três,  com o inferior Abril despedaçado.

- Walter Hugo Khouri com Noite Vazia em 22º.

- Aruanda, de Linduarte Noronha em 94º lugar, Cabaret mineiro, de Carlos Alberto Prates Correia, em 91º, Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, em 89º; enquanto O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho em 15º, O auto da compadecida, de Guel Arraes, em 53º, Abril despedaçado em 58º.

(e quando falo em diretoras ou diretores negros não é questão de cota, mas porque é quase inacreditável constatar que filmes como Os homens que eu tive, de Teresa Trautman, Narradores de Javé, de Eliane Café,  Alma no Olho, de Zózimo Bulbul, Na boca no mundo, de Antonio Pitanga, e A longa noite do prazer, de Afrânio Vital parecerem ser ETs para a Lista – isso só para citarmos alguns).

A Abraccine deixa claro que sua lista é formada por escolhas individuais de seus associados – parece-me que uma centena de profissionais por todo o Brasil. Solicitou uma lista para cada crítico com 25 títulos, daí somou tudo e os 100 filmes mais votados são a Lista dos 100 Melhores. E mais, essa lista vai gerar um livro com todos os títulos escolhidos comentados.

Bom, por aí dá também para aferir outras tantas coisas assustadoras.

Se a Abraccine quis fazer um recorte histórico sobre o cinema brasileiro - o que é mais que louvável, e não tiro o mérito - , por que não colocou seus críticos para fazerem uma varredura na nossa cinematografia?

Possibilidades para isso são muitas, pois hoje em dia temos muito mais vias de acesso, além das Cinematecas, dos antigos VHS e dos DVDs. Temos o Canal Brasil, temos publicações como o Estranho Encontro, a Zingu!, o Mulheres do Cinema Brasileiro, os dicionários do Antônio Leão, vários blogs, vários livros. E, sobretudo, os torrents da vida.

Pois da forma como resultou, não dá para tirar a razão de quem vem apontando o dedo para a tal lista, que, nada mais nada menos, só fez repisar e referendar um olhar histórico pra lá de batido e reducionista.  A Abraccine tinha todas as possibilidades, exatamente por contar com críticos espalhados pelo país, de se debruçar sobre a complexidade e a riqueza do nosso cinema – inclusive em âmbito regional. 

Um dos maiores dramas da história do cinema brasileiro é o processo desde sempre acionado, repisado e redutor que faz com que inúmeros filmes, diretores, atores e toda uma cadeia de produção sejam relegados a um buraco negro da invisibilidade e da negação. É como se para a Academia nada disso existisse.

Esse processo é de um empobrecimento e de uma crueldade gigantescos, e, no caso dessa Lista da Abraccine, o resultado aponta para uma verdade incômoda que se traduz em espanto: muitos críticos de cinema no Brasil não conhecem o cinema feito no Brasil. Por isso,  essa Lista Os 100 Melhores Filmes de Todos os Tempos diz muito mais sobre os nossos críticos, que sobre o cinema brasileiro.

Voltando a canção, não são esses inúmeros filmes, diretores, atores e equipe que não cabem na Abraccine, é a Abraccine  que não cabe na complexidade e na riqueza da história do cinema brasileiro.

Pelo menos, por enquanto.


Veja a lista completa em
http://abraccine.org/2015/11/27/abraccine-organiza-ranking-dos-100-melhores-filmes-brasileiros/


Atualizado em 30/11/2015

Sugestionado pela lista dos 100 Melhores Filmes da Abraccine, fiz essa listinha de 125 filmes de cabeça, num bate pronto, lembrando filmes de cineastas que ficaram de fora daquela. Claro que se fosse pesquisar ainda teriam muitos outros.
Não está em ordem de preferência, mas está numerada só para identificar os 125 filmes. (Ah, e é lista de longas, pois meu conhecimento de curtas e deficitário).

1 – A Mulher que Inventou o Amor, Jean Garrett
2 – Soninha Toda Pura, Aurélio Teixeira
3 – Lúcia MacCartney – Uma Garota de Programa, David Neves
4 – Eu Matei Lúcio Flávio, Antonio Calmon
5 – Ódio, Carlo Mossy
6 – Um Homem sem importância, Alberto Salvá
7 – Os Imorais, Geraldo Vietri
8 – O Menino e o Vento, Carlos Hugo Christensen
9 – República dos Assassinos, Miguel Faria Jr
10- A Faca e o Rio, George Sluizer
11 – Viagem aos Seios de Duília, Carlos Hugo Christensen
12 – Na Carne e na Alma, Alberto Salvá
13 – Fim de Festa, Paulo Porto
14 – Mulher, Octávio Gabus Mendes
15 – Mulher Desejada, Alfredo Sternheim
16 – Longa Noite do Prazer, Afrânio Vittal
17 – Terror e Êxtase, Antonio Calmon
18 – Copabacana me Engana, Antonio Carlos da Fontoura
19 – Marcelo Zona Sul, Xavier de Oliveira
20 – André a Cara e a Coragem, Xavier de Oliveira
21 – A Intrusa, Carlos Hugo Christensen
22 – Inquietações de uma Mulher Casada, Alberto Salvá
23 – A Herança dos Devassos, Alfredo Sternheim
24 – Mineirinho Vivo ou Morto, Aurélio Teixeira
25 – Ladrões de Cinema, Fernando Cony Campos
26 – A Dama do Lotação, Neville D´Almeida
27 – Na Boca do Mundo, Antonio Pitanga
28 – Samba em Brasília, Watson Macedo
29 – É Proibido Beijar, Ugo Lombardi
30 – Baixo Gávea, Haroldo Marinho Barbosa
31 – A Rainha Diaba, Antonio Carlos da Fontoura
32 – A Grande Feira, Roberto Pires
33 – Os Sete Gatinhos, Neville D´Almeida
34 – A Noite do Desejo, Fauzi Mansur
35 – Narradores de Javé, Eliane Caffé
36 – Compasso de Espera, Antunes Filho
37 – O Vampiro de Copacabana, Xavier de Oliveira
38 – Amada Amantes, Cláudio Cunha
39 – Mãos Sangrentas, Carlos Hugo Christensen
40 – Bonitinha, mas Ordinária, Braz Chediak
41 – O Quarto, Rubem Biáfora
42 – Gaijin - Caminhos da Liberdade, Tizuka Yamasaki
43 – Amei um Bicheiro, Jorge Ileli
44 – Também Somos Irmãos, José Carlos Burle
45 – A Penúltina Donzela, Fernando Amaral
46 – Oh, Rebuceteio!, Cláudio Cunha
47 – Anjo Loiro, Alfredo Sternhein
48 – Bebel, a Garota Propaganda, Maurice Capovilla
49 – A Viúva Virgem, Pedro Carlos Róvai
50 – Mulher Objeto, Sílvio de Abreu
51 – Memória de Helena, David Neves
52 – Essa Gostos Brincadeira a Dois, Victor di Mello
53 – O Bom Marido, Antonio Calmon
54 – Muito Prazer, David Neves
55 – Césio 147, Roberto Pires
56 – Pureza Proibida, Alfredo Sternheim
57 – Tchau, Amor, Jean Garret
58 – Nunca Fomos Tão Felizes, Murilo Salles
59 – Os Homens que eu tive, Tereza Trautman
60 – Minervina Vem Aí, Eurídes Ramos
61 – Uma Mulher para Sábado, Maurício Ritnner
62 – Samba em Berlim, Luiz de Barros
62 – Paixão na Praia, Alfredo Sterheim
63 – Sete Dias de Agonia, Denoy de Oliveira
64 – Gente Fina é Outra Coisa, Antonio Calmon
65 – A Dama da Zona, Ody Fraga
66 – Adultério por Amor, Geraldo Vietri
69 – Excitação, Jean Garrett
70 – Um Céu de Estrelas Tata Amaral
71 – Crueldade Mortal, Luiz Paulino dos Santos
72 – Canção de Baal, Helena Ignez
73 – Tigipió, Uma Questão de Amor e Honra, Pedro Jorge de Castro
74 – Elite Devassa, Luiz Castellini
75 – Simão, o Caolho, Alberto Cavalcanti
76 – Ninfas Diabólicas, John Doo
77 – A Prisão, Osvaldo de Oliveira
78 – Sábado Alucinante, Cláudio Cunha
79 – Em Família, Paulo Porto
80 – Mulher, Mulher, Jean Garrett
81 – Palácio de Vênus , Ody Fraga
82 – Cordélia, Cordélia, Rodolfo Nanni
83 – Aleluia Gretchen, Sylvio Back
84 – Crede-Mi, Bia Lessa e Dany Roland
85 – Giselle, Victor di Mello
86 – Corpo Devasso, Alfredo Sternheim
87 – As Intimidades de Analu e Fernanda, José Miziara
88 – Barra Pesada, Reginaldo Faria
89 - Parceiros da Aventura, José Medeiros
90 – Abolição, Zózimo Bulbul
91 – O Fotógrafo, Jean Garrett
92 – O Profeta da Fome, Maurice Capovilla
93 – O Olho Mágico do Amor, Ícaro Martins e José Antonio Garcia
94 – O Ébrio, Gilda de Abreu
95 – A Força dos Sentidos, Jean Garrett
96 – Sexo, Sua Única Arma, Geraldo Vietri
97 – Diário de Sintra, Paula Gaitán
98 – Os Amores da Pantera, Jece Valadão
99 – Viagem ao Fim do Mundo, Fernando Coni Campos
100 - O Forte, Olney São Paulo
101 - O Capitão Bandeira Contra o Doutor Moura Brasil, Antonio Calmon
102 – Na Ponta da Faca, Miguel Faria Jr
103 – Amadas e Violentadas, Jean Garret
104 – Os Condenados, Zelito Viana
105 – A Arte de Amar Bem, Fernando de Barros
106 – Karina, Objeto do Prazer, Jean Garrett
107 – Paraíba, Vida e Morte de Um Bandido, Victor Lima
108 – O Matador Profissional, Jece Valadão
109 – As Aventuras Amorosas de um Padeiro, Waldir Onofre
110 – Obsessão, Jece Valadão
111- O Princípio do Prazer, Luiz Carlos Lacerda
112 – Corpo Devasso, Alfredo Sternheim
113 – Estranho Triângulo, Pedro Camargo
114 – Força Estranha, Pedro Mawashe
115 – Emanuelle Tropical, J. Marreco
116 – Amor e Traição, Pedro Camargo
118 – Bendito Fruto, Sérgio Goldenberg
119 – Possuídas pelo Pecado, Jean Garrett / O Gosto do Pecado, Cláudio Cunha
120 – Pecado Horizontal, José Miziara
121 – O Baiano Fantasma, Denoy de Oliveira
122 – Profissão: Mulher, Claudio Cunha
123 – Rio Babilônia, Neville D´Almeida
124 – Stelinha, Miguel Faria Jr
125 – Kung Fu Contra as Bonecas, Adriano Stuart

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior