Ano 16

19ª Mostra de Cinema de Tiradentes - 4º Dia

Equipe de Urutau - Crédito: Leo Fontes
A segunda-feira, 25, marcou na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes a abertura da Mostra Aurora – recorte que premia produções de cineastas que estão até no terceiro longa -, com a exibição de Índios Zoró – Antes, agora e depois?, de Luiz Paulino dos Santos.

Mas antes desse encontro na tela, que foi o segundo longa exibido no Cine-Tenda, o Mulheres acompanhou outras atrações durante o dia.

A primeira cobertura foi do Seminário Encontro com a Crítica, Diretor e Público sobre o filme Jonas, de Lô Piloti, em mesa formada pela diretora, o ator Jesuíta Barbosa e o crítico Rodrigo Fonseca, com mediação de Pedro Maciel Guimarães.

Como foi registrado na cobertura da exibição do longa, Jonas pode encontrar pelo caminho reações contundentes pela forma como o roteiro foi construído – também assinado pela diretora – na forma como desenvolve tanto seus personagens protagonistas quando coadjuvantes, e também na condução da sua história.

O crítico Rodrigo Fonseca é um entusiasta do filme, daí sua abordagem utilizou vários elementos – forma, uso da fábula, insubordinação de um excluído para mudar seu destino etc – para referendar Jonas. Lô Piloti também defendeu seu filme, explicando suas escolhas, desde o nome do filme até como o argumento e roteiro foram construídos a partir do nome Jonas. E por fim, o ator Jesuíta Barbosa também falou, situando o filme dentro de sua recente, mas profícua carreira no cinema, e da mudança no entendimento de seu personagem, pois quando filmou o via como herói e agora como um homem perigoso.

Tudo corria em um céu de brigadeiro, até que começaram pipocar, ainda de forma muito isolada, algumas reações não só ao filme, mas também às colocações da cineasta – isoladas porque grande parte da plateia parece ter gostado do filme. Até que, já quando o debate se encaminhava para o final, aconteceu uma reação mais generalizada, ainda que de um pequeno grupo, mas que não se intimidou, levantando questões como estereótipo racial e, principalmente, inconsequência na abordagem sobre a violência sexual sobre a mulher. Daí o tempo ferveu, com direito a vaias e aplausos. E se Jonas era, até então, o filme mais comentado pela crítica presente à Mostra – e não necessariamente de forma positiva -, ele ganhou sobrevida como, até agora, a presença mais polêmica na programação dessa 19ª edição.

Durante a tarde foi a vez de o Mulheres entrevistar a cineasta Maria Augusta Ramos, premiada e importante documentarista, que está na programação da Mostra com Futuro junho – já abordado aqui na cobertura anteriormente.


Longas

A programação do Cine-Tenda à noite apresentou dois longas e duas séries de curtas. O Mulheres cobriu os dois primeiros.

Urutau (2015), de Bernardo Cancella Nabuco, surpreendeu a plateia – pelo menos ao Mulheres, que nem sabia de antemão do que o filme tratava. A apresentação no palco pelo diretor, atores e produtora já anunciara que era um filme difícil, mas foi já a partir da cena de abertura que tudo se evidenciou: o filme tem como personagens um pedófilo que mantém em cativeiro um garoto já há sete anos.

Cancella Nabuco filma seus personagens e conta sua história se valendo de uma composição sem muitos acessórios de linguagem, em um registro cru, econômico e em diálogo com o universo retratado.

Não há utilização de música no filme – a trilha sonora se vale apenas de ruídos e sons produzidos nas cenas pelos personagens -, a câmera é fixa durante quase toda a narrativa; o quarto onde o agora adolescente está trancafiado é pequeno e com poucos elementos cênicos; há muitos silêncios; e cenas longas em que o foco central não é a ação, já que não é esse o elemento pretendido do mostrado.

Urutau apresenta um rigor muito grande na forma. Como se passa todo no espaço de encarceramento, sem cenas externas, o diretor escolheu alguns procedimentos, como a utilização de planos-sequência e o também o recurso de deslocar o acontecimento para fora da cena, para fora do espaço da câmera.

O filme já abre com cena do abuso sexual, que volta depois em tempo real, o que pode exasperar alguns – duas mulheres jovens que estavam sentadas ao meu lado abandonaram a sala. Mas traduzem bem tanto a escolha ética quanto estética que o cineasta – que também assina o roteiro – escolheu para abordar esse tema espinhoso.

Alguns podem até ver o filme como um puro exercício de estilo no tratamento de um tema tão polêmico, complexo e perigoso – não é o caso do Mulheres. Mas o fato é que Urutau perturba, e aí para muito além do seu tema primeiro, um pedófilo sequestrador e sua vítima, pela forma como roteiro e direção abordam e constroem seus personagens e sua história.

Índios Zoró – Antes, agora e depois?, de Luiz Paulino dos Santos, abriu a Mostra Aurora. Luiz Paulino, mais o montador André Sampaio e o produtor subiram ao palco para apresentar o filme para a plateia, o que ocasionou momento divertido com a mestre de cerimônia, já que ao explicar que a Aurora é formada por jovens diretores, confundiu-se com Luiz Paulino, que tem mais de 80 anos, e entregou o microfone para o produtor. 

No caso da explicação da Aurora, do jeito que ele falou, já tinha sido engraçado, pois Luiz Paulino não é apenas octogenário, mas um veteraníssimo do cinema brasileiro – e seu filme foi selecionado para a Aurora porque ela contempla cineastas com até três longas, não necessariamente feito por jovens e sem considerar curtas, médias e ou trabalhos para a TV nessa soma.

Índios Zoró não só marca o retorno do diretor ao cinema, do qual andava afastado há cerca de 20 anos, como também sua volta à aldeia dos índios Zoró, que havia filmado no curta documental Ikatena Vamos caçar (1982).

Nessa sua jornada de reencontro com a tribo para mostrar e entregar para seus integrantes o curta realizado com eles, quando ainda eram jovens ou crianças, o cineasta, que está o tempo todo em cena, refaz todo um caminho – e no caso dos índios brasileiros de descaminho. Um reencontro com uma cultura em processo contínuo de aniquilamento, seja por morte ou por aculturação, essa última nos últimos tempos impetrada pelos evangélicos comandados por organização alemã, que tem raio de atuação em vários países.

O filme tem momentos lindos cinematograficamente falando, pois tanto esteticamente como simbolicamente, como o cineasta nas pedras de beira do riacho envolvido por borboletas amarelas, e ele mergulhando naquelas águas – ambos os momentos outrora protagonizados pelas crianças índias registradas em Ikatema

Índios Zoró  mesmo com momentos belos e sutilmente divertidos, instaura uma melancolia crescente por estarmos ali olhando para os legítimos donos da terra sendo aniquilados, não só pelos inimigos e pela aculturação, mas também por um Estado que cruza os braços e deixa os índios entregues à própria sorte - quando ele próprio não cuida pessoalmente de seu aniquilamento.

A programação do dia encerrou-se em grandíssimo estilo com a apresentação de Marcelo Veronez e seu show "Não sou nenhum Roberto" – artista genial da nova cena musical mineira com olhos atentos para o país e para o mundo. Fabuloso!


19ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Programação completa
www.mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior