Ano 16

Sonhos de menina moça, 1988, Tereza Trautman

Elenco estelar em belo retrato feminino

Uma olhada rápida no elenco deste Sonhos de Menina Moça faz a gente logo pensar que seja um filme de Walter Hugo Khouri – ainda que fosse improvável que o mestre usasse um título assim. É porque o desfile de deusas na tela é impressionante. Vejam só: Tonia Carrero, Louise Cardoso, Marieta Severo, Selma Egrei, Monique Lafond, Xuxa Lopes, Zezé Motta, Íris Bruzzi, Norma Blumm, Gabriela Alves, Flávia Monteiro, Angela Figueiredo, Dóris Giesse. Mas não, é filme da cineasta paulista radicada no Rio de Janeiro desde os anos 1970, Tereza Trautman. Aliás, foi em terras cariocas que a cineasta dirigiu um marco feminino dos anos 70: Os Homens que Eu Tive – idealizado para Leila Diniz, mas protagonizado por Darlene Glória depois da trágica morte de Leila. Não só pela temática, que falava dos anseios da mulher moderna, mas por também ser longa pioneiro de uma diretora naquele momento, já que até os anos 60 menos de dez mulheres tinham chegado a conduzir um filme no formato. Portanto, Tereza Trautman tem mesmo o que dizer, e, melhor, sabe como fazê-lo ao se debruçar sobre esse universo - é ela que também assina o argumento e o roteiro. Aqui, ela mira sua lente para uma família chefiada pela matriarca belamente interpretada por Tonia, que se reúne para uma grande despedida, já que aquele será o último dia de permanência de todos na mansão, que fora vendida. Abre-se palco então para o despertar de memórias, rancores, frustrações, amores mal resolvidos, traição, drogas e casamentos assim assim.


Algumas palavras, verbos e dizeres se tornaram verdadeiros clichês esvaziados pelo uso constante e sem peias, como "comunidade", "instigar" e “no tempo da delicadeza”. Mas ainda que seja armadilha anunciada, é impossível não pensar nesse tempo delicado que a cineasta construiu para soltar suas feras na arena. Todos os sentimentos, fortes ou leves, estão lá, mas há uma ternura impregnada em sua lente que nos faz olhar para aquilo tudo como se estivéssemos mesmo folheando álbuns de retratos ou assistindo filmes Super-8 caseiros, como os personagens fazem. Só que jamais sem exalar mofo ou tempo estagnado. Os personagens de Trautman pulsam, e ainda que seus desejos e temores sejam, afinal, em grande parte, sentimentos burgueses, nunca deixa de ser interessante olhar para aquela paleta de cores que ela desenhou e descortina à nossa frente.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 003



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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.