Ano 16

Passaporte para o inferno, 1976, J. Marreco

Perseguição frouxa

Não é só o cinema americano que gosta de filmes de perseguição. Em sua história, vez ou outra, o cinema brasileiro também dá as caras nesse subgênero. Exemplos: os bacanas Arara Vermelha (1957), de Tom Payne, e Fêmeas em Fuga (1984), de Michele Massimo Tarantini. Só que em Passaporte para o Inferno, o cineasta J. Marreco se equivocou terrivelmente. O problema maior está no roteiro, também assinado por ele. Vejam só: quatro bandidos perigosos escapolem da prisão, e o presídio, ao invés de acionar a polícia, chama um caçador de fugitivos para capturar os tais. Em meio a isso, uma patricinha briga com o pai dominador, termina com o noivo babão e parte em teco teco para integrar equipe de faculdade no melhor estilo Projeto Rondon – um convite tentador à aventura para quem foi estudante nos anos 1970 e 80. Só que lá pelas tantas o avião pifa, o piloto, que tem que fazer pouso forçado, morre, e resta ela, que fica ferida. Agora imaginem onde ela caiu? Claro, justamente no caminho dos bandidões. Pronto, está aí a trama do filme.


Bom, mesmo com esse rame rame, daria para fazer algo bacana se o roteiro de Marreco não enfrentasse a história com bocejos sem fim. O caçador poderia ser o cão, pois é personificado por Jonas Melo, um ator que tem perfil para ser um temido capitão do mato. Só que o que ele faz o filme inteiro é seguir a trilha dos moços sem erro, como se eles, feito Joãozinho e Maria, deixassem bagos de milho sinalizando o caminho; chegar aos locais sempre depois do bando; e ficar ligando para a central que o contratou para dar notícia de tudo o que acontece. Ou seja, ação quase zero. Já os bandidões – Cazarré, Gilberto Sávio, Darcy Silva e Walter Prado - personificam os clichês de sempre, ainda que Marreco queira lhes dar uma certa identidade: o líder é chamado de Profeta, pois vive com a bíblia debaixo do braço, bastando ouvir o nome santo de Deus em vão para disparar sua garrucha; um é o estuprador sacana; outro faz cara de bom moço e, quando baleado, tornar-se estorvo para o bando; e o último um aloprado que ri o tempo todo de tudo e de todos. Um detalhe perturbador: eles nunca parecem sentir fome ou sede, pois são capazes de jogar as latas de leite fora sem sequer conferir se tem líquido lá dentro; chegam a um rio depois de longa caminhada, mas não se atiram na água para beber ou se refrescar. Já a mocinha é a musa da Boca, Fernanda de Jesus, que sem mais pra quê é capaz até de chorar com a morte deles. Enfim, tudo muito frouxo nesse filme do cineasta que vinha do comentado A Carne (1975) e logo depois faria o bacana Emmanuelle Tropical (1977), respectivamente com as deusas Selma Egrei e Monique Lafond.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 002



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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.