Ano 16

Negação do Brasil, A, 2000, Joel Zito Araújo

Importante mapeamento e registro histórico

O cinema de tese, aquele modelo de produção em que os realizadores fazem um filme engessado para referendar o que acreditam ou querem dizer, quase sempre é uma cilada. Mas esse não é, de forma alguma, o caso de A Negação do Brasil, ainda que a intenção de Joel Zito Araújo esteja claríssima já no título do filme. O cineasta e pesquisador traça um painel da participação dos atores negros na história da telenovela brasileira, que, como se sabe, é janela de entretenimento e repassadora e construtora de valores simbólicos para a maior parte da população brasileira. Para quem já botou pelo menos um olho, e é difícil encontrar alguém que não, nessa avalanche que é a novela brasileira, assistir ao filme é reencontrar momentos memoráveis dentro do recorte apresentado. E aí estão cenas como o embate entre a explosão da mãe alemã Gertrude de Elisabeth Hartman na defesa do filho negro com os vizinhos em "Meu Rico Português" (1975), de Geraldo Vietri; ou ainda a inesquecível vilã Rosa de Léa Garcia em "Escrava Isaura" (1976/77), de Gilberto Braga. Aliás, ótima sacada do diretor em reunir Léa Garcia, Ruth de Souza, Cléa Simões e Maria Ceiça para reverem algumas cenas, como foi feliz também nos depoimentos de Zezé Motta, Walter Avancini e Herval Rossano, esses últimos se justificando, sem muita força de convencimento, o fato de "Escrava Isaura" e "Gabriela" não terem sido protagonizadas por atrizes de perfil afro-descendente. 

Em A Negação do Brasil, que também é livro, Joel Zito Araújo bota no meio da sala da classe média brasileira e dos que se auto-proclamam cabeças pensantes, aqueles que, historicamente, essas mesmas classes adoram confinar em quartinhos sufocantes e abjetos, em uma reprodução perversa e and infinitum das casas grandes e senzalas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
longas brasileiros em 2010 (32)


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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.