Ano 16

Cartomante, A, 1974, Marcos Farias

Adaptação sem brilho de Machado

Para muita gente boa, Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Graciliano Ramos formam a trindade supra-sumo da literatura brasileira. E como não poderia deixar de ser, os cineastas cresceram o olho em cima deles. Mas se os dois últimos já renderam ótimos filmes e até obras-primas como, respectivamente, A Hora e Vez de Augusto Matraga (1965 - Roberto Santos) e Vidas Secas (1963 - Nelson Pereira dos Santos), o velho Machado é constantemente maltratado em nossas telas. Como é o caso das adaptações desse seu conto A Cartomante. Se a dos anos 2000 de Wagner de Assis e Pablo Uranga já era complicada, todas as fichas estavam apostadas nessa produção dos anos 1970 e dirigida por Marcos Farias. Ledíssimo engano. Ainda que seja louvável escalar três atores veteranos como protagonistas - Ítala Nandi, Ivan Cândido e Maurício do Valle - fica um osso duro de roer ver Ítala fazendo cara de coquete e falando tatibitate em sua interpretação na primeira fase do filme. Sim, porque a trama se passa nos anos 1800 e depois nos 1900, com o trio repetindo os papéis, mas com algumas variações na história. E há mais um constrangimento. Nessa primeira fase, os personagens andam para lá e para cá, mas não não se vê viva alma nas ruas. E a gente fica cafifando daqui se é porque faltou grana para pagar, e vestir à carater, os figurantes. 

A trama é sobre um triângulo amoroso, sem que o marido saiba que é corneado pelo grande amigo, e com uma cartomante pontuando os desdobramentos dessa escapulida de cerca. A dona gosta de ir à cartomante para ver a sorte, e o amante, cético, também acaba se sentando em frente às cartas e, com isso, selando o seu destino. Muito se fala, nem sempre com justiça, de certas adaptações bolorentas que o pessoal ligado ao Cinema Novo fez, e é mesmo impossível não associar esse A Cartomante ao filão. Decididamente, não adianta apenas juntar um escritor de alto estirpe, atores de talento e um diretor considerável para fazer um grande filme. Onde tudo poderia dar certo é aí que dá xabu. O buraco do cinema é mesmo mais em baixo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
longas brasileiros em 2010 (47)


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 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.