Ano 16

Quinze, O, 2004, Jurandir Oliveira

Romance de iniciação de formação nas telas

Para quem tem mais de 40 anos é quase certo que "O Quinze", de Rachel de Queiróz, tenha sido leitura obrigatória no colégio. E, claro, muitos meninos e meninas torceram o nariz para aquele tema árido, alguns poucos se deleitaram com a prosa sedutora, e tantos mais reencontraram o livro só mesmo na fase adulta. Daí que esse romance de estreia da escritora cearense publicado em 1930, quando ela tinha 20 anos, é não só um clássico como também pedra fundamental de iniciação literária. Talvez por isso esse O Quinze, o filme, nos remeta o tempo todo aquele outro "O Quinze", o livro, que está para sempre no nosso imaginário. E ainda que saibamos que cinema e literatura são linguagens diferentes, nesse caso fica difícil desassociar uma da outra. 

Jurandir Oliveira está correto na direção e demonstra talento, principalmente, na atuação. Como o ponto fraco é o roteiro, também dele, o ideal é que tivesse entregue para alguém do ramo. Sim, porque do jeito que ficou ele diluiu o impacto do relato, sobretudo ao deixar em segundo plano o olhar de Conceição, Karina Barum, para tudo o que se descortina à sua frente, e também sua relação de soslaio com Vicente, Juan Alba. No filme, o que está na boca de cena é o drama dos retirantes Cordolina, Soia Lira, e Chico Bento, Jurandir de Oliveira, que vão perdendo os filhos pelo caminho. Como se sabe, a trama focaliza a grande seca de 1915 que assolou o Ceará, matou muita gente, e exportou um contigente enorme para o sul, que veria não ser tão maravilha assim. Conceição é uma professora que vive em Fortaleza e está em férias na fazenda da avó, Mãe inácia. Observadora sensível, ela registra o sofrimento de seu povo, ao mesmo tempo em que ama de longe o primo Vicente. Se o roteiro capenga, Karim Barum, atriz interessante, também parece não ter encontrado a chave de sua personagem - Juan Alba se sai melhor. Soia Lira e Jurandir Oliveira, mais contemplados na história, defendem bem seus trágicos personagens - há um close sensacional de Soia. E Maria Fernanda empresta na medida sua face e porte trágicos e altivos para Mãe Inácia. Daí a gente fica pensando do lado de cá o quanto o filme poderia ter sido, mas o tanto que, infelizmente, não se cumpriu.

sexta-feira, 5 de março de 2010
longas brasileiros em 2010 (55)


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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.