Ano 16

Volúpia de Mulher, 1984, John Doo

Um elenco de deusas em estado de graça

O cinema dos anos 1970 e 80, sobretudo as comédias e os dramas eróticos ou então aqueles de ordem diversa mas com o pé quente no erotismo, é marcado pela profusão de mulheres peladas. Mas se olharmos atentamente para os filmes do período de alguns cineastas, como John Doo, David Cardoso e Carlos Reichenbach, é fácil constatar que eles também tiravam a roupa dos seus mancebos sem pudor - no caso de Cardoso, era o seu próprio corpo à mostra. E se os homens e outras tantas mulheres se fartavam com a genitália feminina, as mulheres e outros tantos homens também tinham seu momento de recreio vendo paus, sacos e pentelhos em profusão. Isso sem falar nos marmanjos que adoram medir e comparar tamanhos. Como John Doo nesse Volúpia de Mulher, em que despe mulheres e homens com naturalidade. Já no início, quando Vanessa Alves fala para o namoradinho da roça explicitamente excitado que não tem teta mas seios, a gente acredita logo nas brincadeiras sacanas debaixo d´água e naqueles personagens - ponto para os atores e a direção. E quando sai expulsa de casa com a saia plissada e rota em direção à capital já estamos tomado por aquela personagem, como acontecerá com André Loureiro, artista plástico que procura há cinco anos uma modelo com cara de menina, mas marcada pela vida. Vanessa chega à cidade grávida, passa uma temporada na casa da prostituta de Alvamar Taddei, e depois encontra guarida na médica de Helena Ramos e na travesti de Romeu de Freitas. Enquanto tenta arrumar dinheiro para a cirurgia de risco do filho, tenta a viração e posa para o pintor. 

Volúpia de Mulher leva a contento sua trama, que tem roteiro de Ody Fraga. E além do talento de Doo, muito de seu desempenho se deve ao elenco que parece ter sido escolhido a dedo - fora o fato de todos eles já terem quilometros de estrada e por isso já com total domínio de cena. Ninguém é capaz de incorporar uma mulher do povo sem perder o poder de sedução como Alvamar Taddei - e aqui ela está especialmente deslumbrante, tanto como atriz quanto deusa, como a puta Carla. Vanessa Alves como Cristina cabe como uma luva no ideário do artista plástico, pois sabe incorporar como poucas aquelas meninas que brincam de boneca Susy, mas de olhos atentos nos documentos de Falcon. E Helena Ramos mostra porque além de musa maior do filão, tornou-se ótima atriz e capaz de dar todas as nuances para a sua Dra. Laura, mulher que sofre com o fim anunciado de seu amor, mas sem perder a altivez e com todos os conflitos internalizados. Outro destaque é Romeu de Freitas como Lili Marlene, que encarna um outro tipo de ideário, o das criaturas da noite que de navalha à mão fazem de um tudo na viração, mas são mãezonas prontas para proteger quem encontra ainda mais fragilizado em troca de atenção e carinho. Volúpia de Mulher é um interessante e deslocado filme já em época da invasão explícita e um dos últimos trabalhos de Doo, Helena e Alvamar.

quarta-feira, 10 de março de 2010
longas brasileiros em 2010 (59)


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 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.