Ano 16

Pra Quem Fica, Tchau!, 1971, Reginaldo Faria

Um cineasta de talento

Reginaldo Faria é um grande cineasta. Um dos precursores de um filão com Os Paqueras (1969), mostrou talento na comédia de costumes - Aguenta Coração (1983), e no gênero policial - Barra Pesada (1977), dois belíssimos filmes. E uma de suas marcas é o tom agridoce de suas tramas, em misto de leveza com uma injeção de angústia - como no desfecho de Os Paqueras, por exemplo. Daí que esse Pra Quem Fica, Tchau!, seu segundo longa, poderia ter sido mais um exemplar desse tom. Surpreendentemente, isso não acontece, pelo menos no primeiro 1/3 do filme. Stepan Nercessian é um adolescente que vem do interior para morar no ap do primo, Reginaldo Faria, no Rio de Janeiro. Diz que a mãe morreu, o pai sumiu, traz uma carta para o primo se responsabilizar por ele, e traz também muito muito dinheiro. Reginaldo e seus dois comparsas, Flávio Migliaccio e Hugo Bidet, unem-se para mostrar a Cidade Maravilha e o borogodó das cariocas para o priminho endinheirado. Mas ele conhece Rosana Tapajós, uma mulher mais velha e casada com um marido ciumento, e fica obcecado por ela. É quando o encontro entre Luizinho e Maria engata que o filme toma prumo e Reginaldo Faria mostra a força de seu cinema e seu olhar singular. 

Stepan é ótimo ator sempre e Rosana Tapajós está mais linda e enigmática que nunca. Os dois têm química e a quase pedofilia chega a ficar divertida, com transas debaixo de bandeirinhas do cirquinho que o capiau do mato monta para encontros sexuais com a amada. Porém, antes desse encontro, há no roteiro e na direção uma forçação de barra na busca da graça e da leveza. E ainda que Faria, Migliaccio e Bidet tenham charme e camaradagem, e Stepan em início de carreira já está muito bem - como também nada de braçada na época com o seu Marcelo (Zona Sul) e André (A Cara e a Coragem) de Xavier de Oliveira - aqui eles custam a pegar no tranco. Quando o filme entra nos trilhos, a angústia se acomoda na leveza natural da estética do diretor e os atores se sentem mais confortáveis na roupa de seus personagens, Pra Quem Fica, Tchau! cresce em decibéis. E é também ao largar mão de forçar graça com a obesidade de Wilza Carla ou da bichona que assedia o garoto - ou seja, ainda hoje um dos manjados recursos do "Zorra Total", que o filme mostra mais uma vez porque Reginaldo Faria - que ainda lamenta não dirigir mais filmes - é mesmo um dos grandes cineastas desse país e ponto.

terça-feira, 9 de março de 2010
longas brasileiros em 2010 (58)


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 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.