Ano 16

Eu Te Amo, 1981, Arnaldo Jabor

Cinema de ouro da década de 1980

Para quem viveu nesse planeta nos anos 1970 e 80, uma lembrança de publicidade é do sabonete Vale Quanto Pesa, que tinha seu mote na comparação com outros para oferecer suas vantagens: tamanho generoso e preço lucrativo. Tal medida comparativa pode ser feita também sobre o Arnaldo Jabor jornalista e o Arnaldo Jabor cineasta. Se o primeiro, com seu costumeiro tom apocalíptico, quase não vale meio tostão, o segundo é de real grandeza. Daí que sua volta ao set é mesmo uma das melhores notícias cinematográficas dessas bandas de cá. O cinema de Jabor é sensacional e esse Eu Te Amo, que tem a cara dos anos 80, sobrevive bem passados 30 anos. Segunda parte da trilogia do apartamento - Tudo Bem e Eu Sei Que Vou Te Amar - o filme foi bancado pelo big boss da época Walter Clark e reúne duas DEUSAS em maiúsculas e no auge da beleza: Sônia Braga e Vera Fischer. Já no elenco masculino faz interessante contraposição com o despojado Paulo César Pereio e o galã, no melhor sentido da palavra, Tarcísio Meira - ainda que em registro debochado. E todos estão ótimos atores - tem também Regina Casé naquele seu estilo característico e hilário. 

Pereio é Paulo, um industrial falido e entupido até a garganta com 1200 caixas de sutiãs anatômicos no seu modernoso ap de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. E tem também vários aparelhos de TV, por onde vemos Vera se despedir dele com frases no melhor estilo Nelson Rodrigues, referência imediata nos diálogos em todo o filme, que tem roteiro também do cineasta - fã confesso do gênio e sobre quem fez dois petardos, Toda Nudez Será Castigada e O Casamento. Choroso, solitário e com vontade de morrer de amor e de abandono, Pereio liga para Sônia, mulher que conhecera na véspera em noite de porre homérico. Desalentada com seu comandante do ar Tarcísio, Sônia chega para o encontro coberta por manto negro cobrindo vestido de baile, faz-se de prostituta, e os dois passam noite-dia-noite em tom acima de dor, abandono, prazer e amor. Falam, gritam, riem, choram, e trepam. Tudo embalado por trilha sonora nota 10 de Cesar Camargo Mariano e canção-tema de Chico Buarque e Tom Jobim, na gravação original de Chico e Telma Costa. Aquela que fala dos amantes que estão, ou já estiveram, em todos nós: de quando a gente perde a noção da hora, de quando o sangue erra de veia e de quando damos nossos olhos para tomarem conta. Eu Te Amo tem uma estética que depois foi muito esvaziada no cinema dos anos 80, mas ainda hoje é cinema de culhões.

segunda-feira, 8 de março de 2010
longas brasileiros em 2010 (57)


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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.