Ano 16

Gabriela, 1983, Bruno Barreto

imaginário popular perde força na telona

Até a década de 1980, Bruno Barreto tem uma filmografia das mais interessantes, com filmes notáveis como Tati, a Garota (1973), A Estrela Sobe (1974), Dona Flor e seus Dois Maridos (1976), Amor Bandido (1978), O Beijo no Asfalto (1980), e o maravilhoso Romance da Empregada (1988). Mas dos anos 90 para cá, principalmente depois de passagem por Hollywood - onde dirigiu o bacana Atos de Amor (1996) - seus filmes não fazem nem sombra à essa primeira fase. É como se Bruno antes fizesse filmes para seu quintal, e aí eles ficavam universais, e agora fizesse filmes com olhos estatelados para o mercado externo, mas nem aqui eles funcionam muito. Esse Gabriela parece já estar contaminado por isso. E aqui ainda há um desafio maior, pois se o público tende a comparar filme e livro, aqui ainda tem a novela, um marco da TV de todos os tempos - ainda mais que é a mesma Sonia Braga na pele da personagem de Jorge Amado, do livro, e de George Walter Durst, da novela. Gabriela, o filme, elimina muitos personagens, e não poderia mesmo ter sido de outra forma. Só que dos que restaram no roteiro de Leopoldo Serran, Barreto e Flávio Tambellini, há uma simplificação que tira toda a verdade de cada um deles e também de suas ações. A Malvina de Nicole Puzzi e o engenheiro de Nuno Leal Maia aparecem e desaparecem feito raios; o Mundinho de Flávio Galvão só faz discursos; o Tonico Bastos de Antônio Cantáfora tem pernas grossas, mas não tem o physique du role canastrão necessário; as disputas entre os coronéis vira cabo de guerra de meia dúzia de jagunços correndo pela praça; o Bataclan vira palco de dança sem o mínimo rastro do que o cabaré tem na história.

E mesmo o casal central, Gabriela e Nacib, ficou entre a venda, a cama e os banhos de torneira, mas sem a pegada convincente. Marcello Mastroianni como Nacib está muito bem, e é notável suas falas em português bem menos macarrônico como poderia ser. Já Sônia Braga, apesar de linda linda linda, faz sua Gabriela um tanto no piloto automático, daí que já na primeira cena em que fala o famoso "que moço bonito", a gente já não acredita muito naquilo e nem na personagem. A trama, como se sabe, focaliza o encontro entre Gabriela, uma retirante da seca, e o comerciante Nacib, na Ilhéus da época dos mandos e desmandos dos coronéis e de suas disputas políticas à base da garrucha. Daí, um monte de personagens autenticamentes do universo de Jorge Amado transita por esse caldeirão de política, cabresto, sensualidade e fodas clandestinas. Mas do jeito que Bruno Barreto filmou o roteiro que também ajudou a escrever, ficou pouco dessa mistura e muito de uma busca pela sensualidade cosmética, que, infelizmente, não funciona. Ficam cenas plasticamente lindas na tela, mas muitas vezes sem um pingo de verdade. O que fica mais mesmo é a belíssima trilha sonora de Tom Jobim, muito bem acompanhado por Gal Costa.

segunda-feira, 22 de março de 2010
longas brasileiros em 2010 (64)


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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.