Ano 15

Baixio das bestas, 2006, Cláudio Assis

A mulher como objeto

Uma das maiores acusações que Cláudio Assis vem recebendo por seu filme Baixio das bestas é a de misoginia. Inclusive, ouvi de mais de uma mulher essa acusação. Outra é a de que seu cinema, assim como o de Sérgio Bianchi, só quer provocar, chocar, porém sem propor nada. 

Não concordo com nenhuma das duas acusações. A forma como ele retrata as mulheres em Baixio das bestas me parece apropriadíssima naquele recorte que ele fez – mesmo porque a realidade está aí gritando, como a agressão de estudantes à uma mulher no Rio de Janeiro, com a assassina desculpa de que a confundiram com uma prostituta. Quanto a querer chocar por chocar, não creio que um cineasta tenha que apresentar respostas, a realidade brasileira é mesmo chocante por si só.

Baixio das bestas confirma o talento de Cláudio Assis no universo em que ele escolheu como foco e, sobretudo, na direção de cena e dos atores. Não é sempre que vemos no cinema brasileiro feito hoje uma câmera tão poderosa. A parceria de Assis com o talento de Walter Carvalho faz de Baixio das bestas um grande momento das nossas telas deste ano. 

Matheus Nachtergaele e Caio Blat apresentam o talento de sempre, mas no elenco masculino o grande destaque é do ator Fernando Teixeira como seu Heitor, o avô que exibe a nudez da neta adolescente em público. Irandhir Santos também está muito bem como Maninho – sua cena como bêbado é inesquecível.

Já no elenco feminino, objeto de estudo do Mulheres, Cláudio Assis reuniu três das mais importantes atrizes do cinema brasileiro do momento: Marcélia Cartaxo, Dira Paes e Hermila Guedes. 

Marcélia Cartaxo é sinônimo de qualidade no cinema desde 1985, quando roubou a cena como Macabéa em A hora da estrela, na premiada adaptação do livro de Clarice Lispector dirigida por Suzana Amaral - Melhor Atriz no Festival de Berlim, entre outros. Em Baixio das bestas ela é Ceiça, uma das meninas do prostíbulo de dona Margarida. Sua personagem funciona como um elo de ligação entre a revolta de Dora, a rebeldia de Bela e exploração agressiva de dona Margarida.

Outra prostituta é Bela, personagem kamikaze interpretada por Dira Paes, a mais atuante atriz do Cinema da Retomada. Dira Paes volta a trabalhar com Cláudio Assis depois do inesquecível Amarelo manga, em 2002. Mais uma vez o cineasta reservou um papel de destaque para a atriz, que se entrega sem reservas à Bela. Dira Paes imprime à sua personagem uma alegria desesperada e inconseqüente de viver, como se soubesse á beira do fim a qualquer momento

A terceira prostituta é Dora, interpretada por Hermila Guedes. Revelação de O céu de suely (2006), de Karim Ainouz, Hermila vem crescendo a cada trabalho, com uma característica impressionante que é a de cada hora estar de um jeito. Sua outra composição marcante foi como Elis Regina no especial da Globo sobre a cantora, Por toda a minha vida. Em Baixio das bestas, ela faz de Dora uma mulher amargurada e revoltada com a sina de ser gado de corte para as brutalidades lascivas dos clientes.

Além das três, outras duas atrizes tem trabalhos marcantes no filme: Mariah Teixeira e Conceição Camarotti. Mariah Teixeira, em sua estreia no cinema como a adolescente Auxiliadora, segura a personagem, que tem papel central na trama, imprimindo um tom de inocência e desamparo no tom certo. Já Conceição Camarotti, como dona Margarida – proprietária do prostíbulo, é uma força da natureza. Sua presença impressiona e retrata com precisão a ética e a estética impressas por Cláudio Assis em um cinema que pulsa e sangra.

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Sala 
 Adriana Prieto
Bela e talentosa, em persona marcada por postura maliciosamente crítica e desafiadora.