Ano 15

Benjamim, 2003, Monique Gardenberg

Filme revela Cléo Pires

Benjamim é o segundo longa de Monique Gardenberg, que iniciou carreira cinematográfica com os curtas Day 67 - rodado no seu curso de cinema na Universidade de Nova York, e, posteriormente, o premiado Diário noturno (1963). Em 1996, Gardenberg estreou no formato com o afetado Jenipapo, filme falado em inglês com elenco internacional – Henry Czerny e Patrick Bauchau, e nacional – Júlia Lemmertz e Marília Pêra. 

Em Benjamim, Monique Gardenberg levou para as telas o romance homônimo de Chico Buarque, numa carreira ascendente como escritor  e que já soma outros títulos de sucesso como Estorvo e Budapeste. Benjamim foi lançado em 1995, vendeu cerca de 80 mil exemplares, foi traduzido para seis idiomas e lançado em oito países. 

Monique Gardenberg avança a passos largos entre seu primeiro filme e o atual. Chico Buarque é um inventor na MPB, autor de linhas melódicas sofisticadas e letras construídas com rigor e poesia nas mesmas medidas. Essa característica ele levou também para a literatura, e isso parece ter facilitado a apreensão e a compreensão de Gardenberg desse universo. Ela mesma com carreira importante na produção de eventos musicais através de sua produtora Dueto, como o `Free Jazz Festival´, e também na direção de diversos videoclipes e nos DVDs de Caetano Veloso, Caballero de fina estampa (1996) e Prenda minha (1999) – não à toa o nome de Paula Lavigne, esposa do baiano, e dona da Natasha, na produção de Benjamim ao lado da Dueto e da Gullane Filmes. 

Outra importância da música no filme é a trilha sonora, com música original de Arnaldo Antunes e Chico Neves, e com  direção musical assinada pela própria Monique, que incluiu no filme clássicos de Elvis Presley, Chet Baker, The Platers, Eumir Deodato, Gerry Mulligan, Jacques Brell e Astor Piazolla. 

Em Benjamim, Monique Gardenberg acertou em cheio na escalação do elenco. Paulo José, uma das presenças mais luminosas e importantes em toda a trajetória do cinema nacional, compõe o personagem-título, o modelo meio esquecido Benjamim Zambraia,  no tom certo, entre o patético, o extravagante e o emocional conflitante. Danton Mello faz o Benjamim jovem com graça e delicadeza – a cena em que ataca sua imagem no espelho mostra e revela, no bom sentido, a sua fragilidade. Nelson Xavier demonstra o talento de sempre e Mauro Mendonça, Guilherme Leme, Chico Diaz, Rodolfo Bottino e Ernesto Piccolo somam em competência - o único senão é a escalação de Rodolfo Bottino como contemporâneo ao personagem de Paulo José. 

Além do avanço cinematográfico de Monique Gardenberg e da atuação de Paulo José, o grande destaque de Benjamim é a revelação da atriz Cleo Pires. 

Filha da atriz Glória Pires, um dos maiores nomes de sua geração na televisão e também com atuação expressiva no cinema nacional, e de Fábio Jr., bom ator e compositor e cantor popular de sucesso, Cleo Pires estreia como atriz em grande estilo ao dar voz a duas personagens de tempos e personalidades diferentes: Castana Beatriz e Ariela Masé. 

Benjamim se passa em dois tempos diferentes através da história do personagem título, que ao conhecer a bela garota Ariela, de espantosa semelhança com sua amada do passado, Castana, entra num processo sem volta, em que revive suas dores, alegrias e paixão pelo antigo amor, em lapsos intensos de memória. 

Castana Beatriz é o primeiro amor de Benjamim, filha de um homem rico e autoritário, que ao ser enviada pelo pai para Paris para afastá-la do namorado, presencia a revolta estudantil do Maio de 68, envolve-se e tem uma filha com professor intelectual e casado, e acaba sendo perseguida pela ditadura brasileira. Cleo Pires compõe a personagem com um misto de sedução e fatalidade, introduzindo um ar moleque que trai o estereótipo das ´femme fatale´, revelando um frescor irresistível, bem exemplificado no primeiro encontro com Benjamim durante a gravação de um comercial, no primeiro despertar político ao ver as cenas da revolta dos estudantes franceses pela televisão, ou no novo encontro com Benjamim  na sua volta ao Brasil. 

Já a personagem Ariela Masé, pivô atual da confirmação do destino de Benjamim, uma espécie de acerto de contas com sua própria consciência segundo a sinopse do filme, é uma jovem recém-chegada ao Rio de Janeiro que acaba se casando com um policial, mas que logo entrará numa crise de desejo e culpa, com a condição do marido, que numa troca de tiros fica paraplégico. 

Desejosa de contatos íntimos e seduzida por pequenos prazeres e presentes, Ariela se envolve com vários amantes, durante suas visitas como guia dos clientes da imobiliária em que trabalha, em vários apartamentos pela cidade. Nesses locais, Ariela passará por várias experiências, inclusive um estupro, que será o deflagrador de um desdobramento perigoso e explosivo. 

Cleo Pires, surpreendentemente, dá conta das duas personagens com louvor. Levando-se em conta a sua inexperiência, ela consegue interpretar Castana e Ariela com propriedade e espontaneidade. Por Ariela ser mais próxima a sua realidade, segundo a própria Cleo a personagem é mais parecida com a maneira como ela se comporta fisicamente, fica mais claro nessa composição as características pessoais da atriz. Nos bastidores, Cleo Pires revela-se uma pessoa gentil, alegre, de bem com a vida – impossível não lembrar da mãe, Glória Pires, atriz que eu considero a mais gentil e doce com seu público, quando anos antes trabalhei no lançamento do seu filme, O quatrilho (1995), de Fábio Barreto, e presenciei seu contato com os fãs. 

Monique Gardenberg conheceu Cleo Pires numa festa e decidiu que ela seria a atriz que queria para o filme. Convidou Cleo na lata, e mostrou ter perfeito faro como descobridora de talentos. Cleo Pires nunca quis ser atriz, apesar dos pais famosos, e sempre que tentou carreira em comerciais ou quando recebia convites para trabalhos, revela que o nervosismo com os testes a afastava de quaisquer possibilidade. A atriz chegou a ser sondada para protagonizar o remake de Cabocla, próxima novela das seis da Globo, um  sucesso de Benedito Ruy Barbosa  protagonizado por  Glória Pires. Além de não querer começar uma carreira à sombra da mãe, que considera uma das melhores atrizes do mundo – como diz na entrevista ao Mulheres - Cleo confessa também que não se sente preparada para ser protagonista de novela. 

Cleo Pires é linda, e parece ter o talento certo para uma carreira cinematográfica – recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio. Sua presença ilumina o filme de ponta a ponta, e não faz feio ao lado de grandes atores como Paulo José e Nelson Xavier. 

No lançamento do filme no Rio de Janeiro, Chico Buarque, que acompanhou o roteiro do filme - assinado por  Jorge Furtado, Glênio Povoas e Monique Gardenberg - disse que gostou do resultado, mas que acha que Monique fez um filme a partir da mulher, e que seu Benjamim é uma história de macho. 

A maior parte dos personagens da história é de fato homens. Daí o pouco espaço para outras atrizes no elenco do filme. Micaela Góes, Dadá Maia, Ana Kutner e Ivone Hoffman fazem pequenas participações. 

Micaela Góes e Ivone Hoffman estão na primeira época do filme. A primeira como Aninha, amiga de Castana Beatriz; e a segunda como a governanta da família. Já Dadá Maia e Ana Kutner estão na segunda, no tempo presente. Dadá é a recepcionista da imobiliária, sempre com os olhos atentos e vigilantes sobre Ariela; Já Ana Kutner, filha da saudosa Dina Sfat e de Paulo José, interpreta a assistente do fotógrafo e publicitário Gâmbolo, personagem de Rodolfo Bottino. 

Além de Monique Gardenberg e de Paula Lavigne, a ficha técnica de Benjamim  conta com mais uma experiente profissional: Elisa Tolomelli,  na produção executiva. 

Benjamim
Brasil, 2003, 1h40
Direção: Monique Gardenberg

Ficha técnica feminina:
Elenco: Cleo Pires, Micaela Góes, Dada Maia, Ana Kutner, Ivone Hoffman
Direção Musical: Monique Gardenberg
Produção executiva: Elisa Tolomelli

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Sala 
 Adriana Prieto
Bela e talentosa, em persona marcada por postura maliciosamente crítica e desafiadora.