Ano 15

Espelho d’água, uma viagem no rio são francisco, 2004, Marcus Vinícus Cézar

Uma força da natureza

Segundo Marcus Vinicius Cezar, a história de amor em Espelho d’água, uma viagem no rio são francisco é bobinha e o grande personagem do filme é mesmo o Rio – “Nem me preocupei em criar climas para o casal”. E é assim mesmo que deve ser assistido esse primeiro longa do cineasta. Os desencontros entre os personagens do fotógrafo Henrique, de Fábio Assunção, e sua namorada Celeste, Carla Regina, funcionam apenas como mote para a narrativa desfilar-se frente aos olhos, uma fábula imbuída de cultura ribeirinha, superstições e crítica social.

No filme, Henrique passa a questionar a validade de seu projeto, um livro fotográfico sobre o rio São Francisco, depois que Candelário, um líder comunitário, o acusa de ser mais um agente explorador do manancial. Antes de ser morto, ele vocifera para o fotógrafo “por cima o rio está lindo, mas abaixo do espelho d’água ele está morrendo”. Depois disso, Henrique desaparece nas águas do rio, e Celeste, acompanhada pelo canoeiro Abel, o ambulante Zé da Carranca e o “modernoso” Olavo partem a sua procura. 

Com fotografia do mestre José Tadeu Ribeiro, de vários filmes de Júlio Bressane , Espelho d’água, uma viagem no rio são francisco é um filme envolvente para quem deixar se seduzir pelo narrado. O roteiro de Marcus Vinícius, Lara Francischetti e Yoya Wursh dá voz ao universo que circunda ao rio através de suas estórias, crenças, superstições, cantos, rezas e folguedos. E para verossimilhar esse foco, o diretor acertou em cheio ao recrutar para o elenco uma atriz do porte de Regina Dourado. 

Chamada por Marcus Vinícius Cézar de uma “força da natureza”, a atriz compõe Penha com verdade em emoção e técnica. A vivência com o tema, conforme conta em entrevista exclusiva ao Mulheres, já que na infância costumava passar férias à beira do rio, aliada a sua sensibilidade de excelente atriz, faz da personagem um dos pontos altos do filme. Por esse trabalho, Regina Dourado recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Recife. Merecidíssimo, desde o belo e trágico Tigipió – uma questão de honra, de Jorge Pedro de Castro, que ela já mostrou como pode ser uma das grandes atrizes de nosso cinema. 

Carla Regina faz uma Celeste com graça, porém sem maiores vôos, e Analu Tavares, a outra atriz do elenco,  faz identificação correta com sua personagem, Ana. O elenco masculino está em acerto, com destaque para Francisco Carvalho como Abel, Melhor Ator Coadjuvante em Recife.  

Ao se apropriar de um universo ecológico e dialogar com os matizes da obra do escritor José Mauro de Vasconcelos, autor de Rosinha, minha canoa e Meu pé de laranja lima, Marcus Vinícius César realizou um filme agradável. Não é grande cinema, mas é filme dos bons. E a trilha sonora de João Souza Leão e Naná Vasconcelos é um deslumbre. 

Espelho d’água, uma viagem no rio são francisco foi produzido por Carla Camurati, e co-produzido pela B-52, que tem Tatiana Braga como Diretora Executiva. 

 
Espelho d’água, uma viagem no rio são francisco, Brasil, 2004.
 Direção de Marcus Vinícus Cézar

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Sala 
 Adriana Prieto
Bela e talentosa, em persona marcada por postura maliciosamente crítica e desafiadora.