Ano 15

Garrincha: estrela solitária, 2004, Milton Alencar Jr.

Cinebiografia capenga

Ao optar por uma linha tradicional, como é a maior parte das cinebiografias, Milton Alencar Jr. levou a vida de Mané Garrincha para as telas em Garrincha, estrela solitária e conseguiu um resultado insatisfatório. Se a outros cineastas, como o brasileiro Júlio Bressane e o inglês Derek Jarman, o que mais interessa são os signos propostos e possíveis para essas personalidades, para outros – a maioria – o essencial é apenas contar uma história, aprisionando e esvaziando, muitas vezes, o objeto filmado.  

Garrincha, estrela solitária é uma adaptação cinematográfica do livro Estrela solitária: um brasileiro chamado garrincha, de Ruy Castro, que eu não li. Um dos mitos do futebol brasileiro, Mané Garrincha, como ficou conhecido, é contemporâneo a Pelé e, para muitos, tão genial quanto ele - apesar de não ter conseguido se manter na mídia e no imaginário mundial como o primeiro conseguiu e ter terminado seus dias na miséria. Mesmo não gostando de futebol, como é o meu caso, ainda assim é impossível não reconhecer a importância do esporte na cultura brasileira. E Garrincha é um desses signos que comportam em si todo o amor-fúria que os torcedores e as gentes do futebol dedicam a seus ídolos e a esse universo.  

O filme propõe retratar o craque através dos pontos de vista dos personagens que conviveram com ele, que relembram a trajetória de Garrincha durante a homenagem que a escola de samba Mangueira ofereceu a ele em 1980, quando já estava debilitado e arruinado. São eles a amante Iraci, o jogador e amigo Nilton Santos, o jornalista Sandro Moreyra e a amada cantora Elza Soares. Resta ao espectador, na sala escura do cinema,  tentar acompanhar e apreender o exposto.  

Parte da crítica acusa o fraco desempenho do ator André Gonçalves, inclusive acusando-o de não ser parecido com Garrincha. Não acho isso um problema,  já vi atores e atrizes compondo maravilhosamente um personagem, mesmo sem se parecer um níquel com eles. Mesmo sem ser um grande ator, fica a dúvida  se o resultado capenga se deu, inclusive, pelo caminho equivocado adotado pela direção. Milton Alencar Jr não faz uma boa direção nesse Garrincha, e seus personagens, ao relembrar Garrincha, parece-nos muito mais escondê-lo que revelá-lo.  

Para compor o universo feminino que girou em torno do atleta, o diretor escalou três belas atrizes: Roberta Rodrigues como a esposa Nair; Ana Couto como a amante Iraci; e Táis Araújo como Elza Soares, a paixão fulminante. Marília Pêra e Creo Kellab fazem pequenas participações. Aliás, há muito que Marília Pêra reclama que só tem feito participações nos últimos filmes em que atuou, o que é mesmo uma pena. Com exceção da protagonista em O viajante, o belo e incompreendido filme de Paulo César Saraceni, a atriz tem emprestado seu gigantesco talento para pequenas aparições, mas sempre grandiosas – sua atuação em Central do Brasil é um exemplo. Em Garrincha, estrela solitária ela tem apenas um cena, mas diz a que veio e dá humanidade para a personagem nessa aparição.  

Ana Couto como Iraci dá um tom oscilante à interpretação da personagem, que fica entre a busca de um possível naturalismo e uma perseguida necessidade de interiorização magoada. Roberta Rodrigues, que, felizmente, depois da bela revelação em Cidade de Deus anda bastante requisitada pelo cinema nacional, compõe a esposa Nair sem muito espaço para criação.  

Entre as mulheres, como não poderia deixar de ser, Elza Soares é a que ganha mais espaço no filme. A presença dela é realmente muito importante na vida do craque, mas ainda assim não deixa de causar estranhamento a impressão de que muitas vezes, mais que querer contar a vida de Garrincha, o que o filme procura é acertar as contas e mostrar para todos que a notável cantora não foi mesmo a causa da ruína dele, como ficou registrado no imaginário.  

Taís Araújo compõe bem Elza Soares, apesar de em alguns momentos parecer que a atriz precisaria amadurecer mais para dar voz a uma personagem real e tão complexa. Não que qualquer ator precise de milhares de quilômetros rodados para dar veracidade a um personagem, mas Elza Soares é um ícone em que parece caber várias Elzas. E mesmo que Taís Araújo esteja bem, levando-se em conta a irregular direção, fica parecendo que ela conseguiu dar voz à apenas partes da retratada.  

 Há anos, quando do lançamento da cinebiografia da cantora Tina Tuner, Rubens Ewald Filho criticou a opção do diretor Brian Gibson em colocar no final a própria cantora em cena, o que para ele foi um desrespeito à bela composição da atriz Angela Basset. O comentário de Rubens tem razão de ser. No entanto, agora, no caso de Garrincha, estrela solitária, mesmo com toda a entrega de Taís Araújo, não há como negar que a aparição de Elza Soares cantando ‘Bambino´, de Ernesto Nazareth e José Miguel Wisnik, é a cena mais bonita do filme.  

Na ficha técnica de Garrincha, estrela solitária, as presenças de Vera Freire na montagem e Isa Castro na Produção Executiva – ao lado de David Matheus. 

Garrincha, estrela solitária recebeu os prêmios de  Melhor Filme – Júri Popular, Melhor Trilha Sonora (Leo Gandelman) e Prêmio Gilberto Freyre no CINE PE – Festival do Audiovisual; Lente de Cristal de Melhor Atriz para Taís Araújo – Festival do Cinema Brasileiro de Miami;  Melhor Ator (André Gonçalves) e Melhor Trilha Sonora – Festival de Belém.  

Garrincha, estrela solitária
Brasil, 2004, 1h50. Direção: Milton Alencar Jr.

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Sala 
 Adriana Prieto
Bela e talentosa, em persona marcada por postura maliciosamente crítica e desafiadora.