Ano 15

O outro lado da rua, 2003, Marcos Bernstein

Amor outonal reúne dois grandes atores

Além do talento inquestionável, Fernanda Montenegro possui um carisma tão gigantesco que em qualquer trabalho que faça, seja no teatro, na TV ou no cinema, a gente já vai ver querendo gostar. E não é diferente no filme O outro lado da rua, primeiro longa de Marcos Bernstein, premiado co-roteirista de Central do Brasil, de Walter Salles. 

Em O outro lado da rua, Fernanda Montenegro é Regina, uma mulher aposentada que para fugir da solidão, torna-se, voluntariamente, informante da polícia. Certa noite, Regina vê, pelo binóculo, algo parecido com um assassinato no prédio em frente ao seu. Quando a polícia declara que a morte da mulher de um juiz aposentado teve morte natural, Regina resolve investigar por conta própria e acaba se envolvendo com o suposto assassino, Camargo (Raul Cortez), fato que acarretará mudanças impensáveis para sua vida. 

O outro lado da rua é um belo filme outonal. Só que ao invés dos tons dourados que normalmente pontuam títulos desse gênero, o que se vê é a predominância de um tom azul que faz lembrar o cinema do grego Theo Angelopoulos, de Paisagem na neblina. Em  entrevista ao Mulheres, Fernanda Montenegro ressaltou que o trabalho da direção deu tempo para os atores se proporem, para os personagens se proporem dentro da história, que foi uma direção larga, sem taquicardia. E isso está claro no filme, o que contribui para a conquista sem pressa do público. 

E é preciso que seja dito: Fernanda Montenegro está mesmo, mais uma vez, impecável. Na primeira cena, em que aparece de calça comprida passando batom e seguindo para uma boate, de cara a gente já começa a acreditar na personagem.  Não a tôa, vem recebendo novos prêmios, como no Tribeca Film Festival, criado pelo ator Robert De Niro após os atentados de 11 de setembro. 

Raul Cortez faz o juiz Camargo. No roteiro, suas chances de brilho são menores que as de Fernanda, mas ainda assim ele demonstra porque é considerado um dos nossos grandes atores. E é bom vê-lo novamente no cinema, já que a memória busca, imediatamente, momentos luminosos do passado, como em O caso dos irmãos naves (1967), de Luis Sérgio Person, ou de poucos anos atrás como em Cinema de lágrimas (1995), de Nelson Pereira dos Santos, e Lavoura arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho. 

Uma das cenas mais esperadas do filme é a cena de sexo entre Fernanda e Raul, já que não é muito comum esse tipo de cena com pessoas dessa idade. E também por ser protagonizada por Fernanda Montenegro e Raul Cortez, e ainda  por persistir na memória, pelo menos para os cinéfilos,  a belíssima cena de sexo outonal entre Miriam Pires e Jofre Soares em Chuvas de verão (1978), um dos melhores filmes de Carlos Diegues. Marcos Bernsteim preferiu uma cena mais recatada, em resolução tomada junto com os atores. O resultado faz uma parte do público rir, como foi quando eles estiveram em Belo Horizonte para o lançamento do filme. Outros, como eu, mesmo sem deixar de relembrar a bela cena de Miriam e Jofre, acha beleza na cena de outros dois gigantes das artes cênicas brasileiras, e gosta não só dela, mas de tudo o que o filme propõe. 

Como o que pode se modificar, tanto dentro como fora, quando se vê a vida pelos olhos da solidão e da instauração do vazio. Como as escolhas podem vir, de ordem diferente do pretendido, quando se configuram como tapa-buracos de um fundo sem fundo. Como é sempre belo também ver a grande Laura Cardoso dando dignidade em qualquer aparição. Como é bom ver um primeiro filme de um cineasta que aposta na contramão da ordem atual, que é a da correria sem tempo sequer para um abraço com um tempo de abraço, como nos filmes de Theo Angelopoulos.  E sem taquicardia. 

Além das presenças de Fernanda Montenegro e Laura Cardoso, O outro lado da rua conta com Kátia Machado na Produção (junto com Bernstein); Mariza Figueiredo na Produção Executiva, Melanie Dimantas no Roteiro (junto com Bernstein), Bia Junqueira na Direção de Arte; Cristina Kangussu no Figurino. 

O outro lado da rua, Brasil, 2003, 1h47. Direção: Marcos Bernstein.

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Sala 
 Adriana Prieto
Bela e talentosa, em persona marcada por postura maliciosamente crítica e desafiadora.