Ano 16

Deuses e os mortos, Os, 1971, Ruy Guerra

Guerra filma alegoria no sertão

O Cinema Novo, página importante da história do cinema brasileiro, propunha-se a realização de filmes com forte acento político e social - fossem rurais (primeira fase) ou urbanos (segunda fase) - e com propostas conscientizadoras. Reuniu cineastas como Glauber Rocha, Paulo Cesar Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Leon Hirszman e Carlos Diegues, em inquestionáveis obras-primas como Deus e o diabo na terra do sol (1963), de Glauber, Os fuzis (163), de Guerra, e O padre e a moça (1965), de Joaquim. O mestre Nelson Pereira dos Santos dirigiu um dos maiores do período, Vidas secas (1963) - ainda que há alguns anos tenha dito que ele, Nelson, não era Cinema Novo. Com o endurecimento da ditadura civil-militar pós AI-5, em 1968, muitos se exilaram e outros partiram para filmes mais herméticos e alegóricos, uma terceira fase do Cinema Novo, como Ruy Guerra em Os deuses e os mortos (1970).


Em Os deuses e os mortos, coronéis do cacau no nordeste – Jorge Chaia e Rui Polanah - digladiam-se pelo poder, o que custa baixas de cada lado em um crescendo incontrolável. Enquanto essa guerra se trava, um estranho homem, Othon Bastos, busca seu lugar nesse reinado, em meio a personagens como a esposa de um dos coronéis e seu desejo de posse – Norma Bengell; uma camponesa justiceira – Ítala Nadi; um dos capangas em conflito – Nelson Xavier; uma prostituta dona de zona – Mara Rúbia; e uma louca grávida que perambula pelas terras dos senhorios – Dina Sfat. Os deuses e os mortos é filme super premiado – no Festival de Brasília arrebatou Melhor Filme, Direção, Ator (Bastos), Atriz (Dina Sfat), Cenografia e Trilha Sonora -, mas ainda assim é um dos menos comentados e, talvez, menos vistos do Cinema Novo. O roteiro e os diálogos são assinados por Ruy, Flávio Império e Paulo José – também um dos produtores do filme – que não facilitam a vida do público, nem o de ontem e nem o de hoje. O filme tem encenação poderosa, mas aposta alto em teor alegórico, o que não o torna de fácil digestão, ainda que, como imagem, impressione. Em seu misto de biografia e autobiografia – assinada por ela e Mara Caballero -, Dina Sfat, que estava realmente grávida durante as filmagens, registra: “ Participo do filme, faço o papel de uma louca grávida, passo alguns dias em Ilhéus, chego a pensar que a minha criança vai nascer em pleno cacau. No fim de tudo ganho um prêmio e uma música de Milton Nascimento, ‘Cravo e Canela’. Mas o filme, Os deuses e os mortos, é um modelo de produção descontrolada. Gasta-se muitíssimo, Rui Guerra cria, Paulo José não sabe de onde arrancar dinheiro e pede emprestado até ao Mazzaropi. Quando a coisa se encerra, devemos 450 milhões de cruzeiros; eu ganho 3 milhões, o Paulo José, 12 milhões”. Os deuses e os mortos tem trilha de Milton Nascimento, que também faz ponta como ator


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (019)


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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.