Ano 16

Gato de botas extraterrestre, O, 1990, Wilson Rodrigues

Divertida viagem de LSD em slow motion

Heitor Gaiotti de gato com direito a rabão grosso e look antropofágico de A bela e a fera, de Jean Cocteau; Felipe Levy de rei que faz cara de que não acredita minimamente nesse figurino de manto, cetro e coroa; Zezé Motta transformada em coruja; Joffre Soares de feiticeiro com estampa psicodélica; um elenco que junta Maurício Mattar, Tony Tornado, Zé do Caixão e Tônia Carreiro; e tudo embalado pela trilha sonora de Blade Runner – o caçador de andróides. Ah, e ainda tem nave espacial, que parece ter sido feita mesmo de papel crepom. E o nome do filme - que é por si só uma maravilha? O gato de botas extraterrestre. Pois é, o baú do cinema brasileiro não é para amadores e tampouco minimamente assemelhado a essas comédias em pencas atuais que fazem as bilheterias tilintarem. Quer coquetel mais saboroso que esse? Ok, ok, a receita pode desandar ali e acolá, mas é muita criatividade nonsense, o que valeria anos de aprendizado por correspondência pelo Instituto Universal Brasileiro para inúmeros e empostados cineastas atuais que acham sempre que estão reinventando a roda. O responsável por isso tudo? O mineiro radicado em São Paulo, Wilson Rodrigues, diretor e também produtor da façanha.



Em O gato de botas extraterrestre somos conduzidos à fábula de Perrault reescrita pelos Irmãos Grimm, em adaptação de Rubens F. Luccheti – só que dessa vez o bamba parece ter ligado o foda-se e o roteiro morno contradiz sua habitual mente criativa. Quem deita e rola mesmo é o diretor – ainda que isso não signifique injeção de adrenalina. Na história, o dono de um moinho morre e deixa a herança para os três filhos: a propriedade para o mais velho; um burro para o do meio; e um gato para o caçula. Só que não é um gato qualquer não. Ele tem o tamanho dos marmanjos, caminha em duas pernas, e fala baldes – ainda que ninguém estranhe nada disso, seja a realeza, seja a plebe. Ele então bola um plano rocambolesco para mudar a vida de seu dono miserável - um Maurício Mattar na extrema beleza de seus poucos mais de vinte anos, dois depois de estampar – para alegria quase geral - o pau em close em O cinema falado (1986), de Caetano Veloso. O tal quiproquó o fará se tornar um marquês riquíssimo, dono de terras e de castelo,  e pretendente natural à mão da filha do rei – uma Flávia Monteiro de princesa  só no estilo caras e bocas. Bom, mas aí tem o detalhe extraterrestre do título, né? E que diabos de recurso foi esse enxertado na clássica fábula? Ora ora ora, melhor não revelar, pois isso torna tudo ainda mais delirante. O  filme é creditado no "Dicionário de Cineastas Brasileiros", de Luiz F. A Miranda, com a data de 1988 – a publicação sempre prioriza a realização; mas parece que o lançamento foi só depois, em 1990. Produção infanto-juvenil que mais parece viagem de LSD em slow motion – são inacreditáveis os longos tiriricotés de rabos abanando do tal bichano pelos campos -, O gato de botas extraterrestre, se degustado com diversão zombeteira e piscadela de olho, pode se transformar em momento único. Mas aí vai depender do gosto do freguês.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (012)



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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.