Ano 16

Uma longa viagem, 2011, Lucia Murat

Testemunha e personagem de um período sombrio

Lucia Murat é um caso único dentre os cineastas, homens ou mulheres, pois a sua história pessoal já é um roteiro pronto – e já virou vários filmes. Durante a ditadura civil-militar, ela atuou na luta armada, foi presa e torturada, e ficou encarcerada durante três anos e meio. O primeiro sobre o tema e a partir dessa sua história, Que bom te ver viva (1988), é ainda o melhor deles. Depois dirigiu outros filmes, e em mais três retornou ao seu drama ou contexto pessoal e também de todo uma geração e um país – Quase dois irmãos (2004), Uma longa viagem (2011), e A memória que me contam (2012). A diferença deste Uma longa viagem é que nos outros ela usou atores para encarnarem ela e seus companheiros de luta, já aqui, ainda que também utilize um ator, Caio Blat, ela mesma está em cena, em primeiríssima pessoa.



Uma longa viagem é um registro familiar sobre ela e dois de seus irmãos. Com a morte do mais velho, Miguel, ela recupera as cartas que o mais novo, Heitor, um andarilho pelo mundo, escreveu para a família de diferentes países e continentes. Como Miguel era um médico com forte atuação social e Lúcia se tornara uma militante política, a mãe dos três resolve mandar Heitor para fora do país, receosa de que ele seguisse os passos da irmã. E é aí que ele inicia uma longa viagem tanto pelo mundo quanto pelas drogas, em seus mais diferentes formatos e calibres. A época que Heitor escreve as tais cartas é  grande parte do período que Lucia está presa, na década de 1970, daí, com isso, ela refaz não só a história de uma família, mas também do período mais sombrio do Brasil. Para contar essa história, a cineasta se coloca em cena junto com Heitor, que depois de tantos experimentos tornou-se esquizofrênico - informação que o filme não fornece -, ainda que bem-humoradamente lúcido. E coloca em cena também o ator Caio Blat, que encarna o irmão na juventude, não só escrevendo as cartas, como também lendo-as e interpretando. O maior achado do filme reside exatamente neste recurso, já que Blat atua em monólogo sobre projeções, seja de fotos ou de vídeos, o que causa belo efeito cinematográfico, somado à  uma maravilhosa composição do ator. Uma longa viagem é um filme premiado e comentado - no Festival de Gramado de 2011 ganhou, inclusive, o prêmio máximo de Melhor Longa e também o de Melhor Ator e Especial do Júri. Muitos se emocionam e se divertem com o depoimento de Heitor e suas cartas, já para mim esse embarque não se completa. Penso que o maior, e melhor, atrativo está mesmo na estética que a cineasta adotou para fazer a sua viagem e nos fazer conduzir por ela.


sábado, 9 de janeiro de 2016

Longas Brasileiros assistidos em 2016 (010)



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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.