Ano 16

Prazeres Permitidos, 1982, Antônio Meliande

Filme em episódios na Boca

Prática comum no cinema dos anos 1960 e 70, sobretudo no italiano e no brasileiro, o filme em episódios sempre rezou pela cartilha da desigualdade. Afinal, juntar diferentes cineastas em segmentos distintos que variam entre a comédia – a maioria –, o drama ou os dois juntos, era batata de que o resultado final apontaria para um certo desequilíbrio, com uns se saindo melhor que os outros. Agora, e quando o roteirista e o diretor eram os mesmos nos diferentes episódios? Era garantia de uma divisão melhor? Não necessariamente. Como prova esse Prazeres Permitidos, que juntou dois veteranos da Boca: o roteirista Luiz Castilini e o cineasta Antônio Meliande. O filme é formado pelos episódios Água Abaixo... Fogo Acima, e O Sonho - o primeiro, um drama; já o segundo uma comédia. Se no segmento de abertura há uma certa sofisticação, sobretudo na ambiência que perpassa toda a história, o que encerra o longa aposta no diálogo mais fácil, em que a costura finaliza mal acabada e apelativa.


Em Água Abaixo... Fogo Acima, Lia Furlin é Andréa, uma mulher casada de classe média, que ainda que escreva artigos sobre sexo para uma editora, tem rotina das mais manjadas: de dia busca o filho na escola e à noite fica esperando o marido (Roberto Miranda) chegar em casa para o jantar e depois o sexo mal feito debaixo do lençol. Numa das idas à escola, ela conhece uma outra mãe que, ao contrário dela, é totalmente liberal e pratica o sexo casual numa boa. Esse convívio fará com que Andréa mergulhe cada vez mais em fantasias sexuais que vão lhe causar prazer e culpa. Bem dirigido, o episódio conta com ótima presença de Lia Furlin, que ainda que não apresente grande atuação é figura imponente em cena – a atriz já protagonizara o filme anterior de Meliande, Lilian, a Suja. E Roberto Miranda é sempre garantia de talento com sua persona genuinamente cinematográfica. Já O Sonho é sobre um jovem produtor e diretor de filmes pornôs para motel que fica alucinado com a chegada da nova mulher de seu tio caipira que vem passar, com ele, uns dias na casa em que vive com sua mãe. Logo logo ele verá que de caipira ela não tem nada e que está muito mais interessada é em satisfazer todas as suas fantasias com o sobrinho, já que o marido conservador fica com ela só na base do papai e mamãe. Ana Maria Kreisler compõe de forma zombeteira a tal tia fogosa, o que traz certo humor para a trama. E há ainda a presença elegante em cena de Arlete Montenegro. Mas se José Miziara exagera na caricatura, é Monique Lafond que tem personagem completamente esvaziado como a namorada do sujeito. Ao final de tudo, a gente fica meio sem entender como os dois episódios foram escritos e dirigidos pelas mesmas pessoas. Um detalhe: o cartaz faz alarde sobre o conteúdo sexual, mas, na verdade, é filme dos mais comportados.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 013



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Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.