Ano 16

Perdida em Sodoma, 1982, Nilton Nascimento (Texto 1)

Sodoma na Boca

Esse Perdida em Sodoma começa interessante com sequência na cidade bíblica, que tal como nas Escrituras arde em chamas pela ira de Deus devido ao alto grau de devassidão de seus habitantes. E é curioso ver lá em trajes de época, deusas como Silvia Gless, Zilda Mayo e Maristela Moreno. Só que já nesse começo, vemos também Nicole Puzzi, a protagonista Marlene, com sua expressão khouriana presenciando, aparentemente, uma cena de sexo explícito. O espanto torna-se maior ainda quando os letreiros irrompem na tela após o incêndio e a gente vê no elenco os nomes de Juca de Oliveira, José Lewgoy, Alcione Mazzeo e Roberto Bataglin. Vixe! Como essas deusas todas da Boca - e ainda tem Aldine Muller, Tânia Gomide e Noelle Pinne - e esses astros de outras paragens foram parar em filme de sexo explícito? Bom, as interrogações não perduram por muito tempo, pois logo logo a gente vê que foi claramente o uso de expediente torpe que algumas produções usaram – seja por diretores, produtores ou exibidores - que foi a de enxertar cenas explícitas nos filmes. Com o sucesso de O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, realizado em 1976, mas lançado no Brasil em 1981, via mandado de segurança, começou a produção desenfreada de explícitos, e alguns dos que já estavam prontos e não tinham cenas assim, passaram pelo tal enxerto E aí, basta uma conferida rápida tanto no dicionário de filmes, do Leão, como no dicionário de diretores da Boca, do Sternheim, para a gente confirmar que é isso mesmo. E que Nilton Nascimento, cineasta que realizou pioneiro longa de ficção em Santa Catarina, O Preço da Ilusão, em 1957, se enveredou nos anos 80 para os explícitos, e, segundo a publicação de Sternheim, enxertava cenas de um filme no outro.


Em Perdida e Sodoma, Nicole Puzzi chega do interior para procurar em São Paulo a mãe que a abandonou ainda criança. O que sabe é que tem um pai que desconhece, mas que lhe manda uma mesada, e que sua mãe se chama Giovana e cantava músicas italianas nas boates da noite paulistana. A partir daí, perambula pelos inferninhos da cidade ao lado do ex-cafetão da mãe que lhe promete levar até ela, mas que tem interesse mesmo é assediar Marlene para a prostituição. Esse caminhar pela noite é o palco perfeito para cenas de nudez e sexo – incluindo os enxertos -, em canhestra analogia à cidade dizimada do início do filme e estampada no título. Não bastasse isso, o roteiro ainda amplia a geografia do pecado, ao levar Marlene para o Rio de Janeiro em pleno carnaval, deixando claro que as duas capitais são a personificação atual da amaldiçoada Sodoma bíblica. Em Perdida em Sodoma não é apenas a personagem mas o próprio filme que se perde, o que fica mais evidenciado ainda na aposta pífia em seu final redentor com a possibilidade do recomeçar no interior.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

longas brasileiros em 2012 - 011



::Voltar
Sala 
 Léa Garcia
Dona de um talento ímpar e altivo, Léa Garcia brilha no teatro, na TV e no cinema.