Ano 16

Marcelo Lyra (Tata Amaral)

A presença feminina no cinema hoje é muito forte, cresceu muito nos últimos anos, ela é muito mais presente na Retomada, que nos anos anteriores, nos cem anos anteriores. Acho que se a gente fizer um levantamento, eu chutaria que tem umas cinqüenta que surgiram no cenário, na direção de filmes. beirando a sessenta mulheres. Eu credito isso a uma certa democratização do acesso ao cinema. Hoje você tem que tomar a iniciativa, ou ganhar o Edital, ou tomar a iniciativa de sair para captar recursos. E na hora de sair para captar recursos, as pessoas mais ou menos se nivelam. Então democratiza muito mais o acesso, embora sempre haja os privilegiados, as pessoas que têm mais contatos nas empresas. Mas na média, na grande média, eu acho que dá uma nivelada, e as mulheres cresceram então muito nesse período. Isso são números mais ou menos certos, eu já tinha pensado um pouco sobre isso.

Dentre tantas mulheres eu podia conversar aqui com você sobre umas dez. Como eu preciso escolher uma, eu separaria a Tata Amaral, que eu acho, talvez, desse período, a diretora mais importante que apareceu. O que mais me chama a atenção é que ela entra nesse cenário de diretores com um olhar feminino mesmo. Ela pega, por exemplo, o Um céu de estrelas, que é um livro do Bonassi, em que o protagonista é um homem. É a história de um casal, em que a mulher está saindo, mas é do ponto de vista do homem. A Tata entra nesse livro, faz o roteiro com o Bonassi, mas ela muda o enfoque, e aí o ponto de vista passa a ser o da mulher. Ela faz um filme muito feminino, ela aborda o ponto de vista dessa opressão que a mulher sofre, dessa situação de você diante do mais forte que quer impor sua vontade pela força, não mais pelo diálogo. 

Eu estou falando só dessa parte sensível do filme, eu não vou entrar no mérito da direção de atores, que é um trabalho muito interessante. Ficando só nesse aspecto, que é onde a mulher então se diferenciaria do homem na direção, que é você colocar um olhar feminino, você colocar problemas das mulheres na direção de um filme. Isso é muito forte no Um céu de estrelas

Isso também entra forte no Através da janela, que é o segundo filme dela. Aí sim, a mulher já na terceira idade, que é a Laura Cardoso fazendo a mãe do personagem, que me esqueci o nome agora, mas que é feito pelo Fransérgio. Ele é um ator que eu acho que não fez carreira, e que talvez seja até o grande problema do filme. Mas enfim, a Laura Cardoso dá um show, e é a visão dessa mãe que vai perdendo o controle do filho mimado, uma mulher que criou o filho sozinho e vê o filho envolvido com problemas, que ela não quer ver. Também é um olhar muito feminino, muito interessante, muito peculiar da Tata.

Agora ela vem com o Antônia, que também é um olhar pra periferia, é um olhar de um grupo de mulheres que quer tentar vencer no rap, num universo normalmente dominado pelos homens, mas que elas se impõem pelo talento. Ao mesmo tempo em que o rap está ali como um pano de fundo, na verdade, ele também está ali para contar histórias e situações femininas na periferia, é um filme muito relacionado com o Um céu de estrelas. As situações são de quatro mulheres, situações muito bem colocadas, situações-limite muito comuns do universo feminino. A mulher que tem um marido novamente a impedindo de fazer a carreira, a outra que quer vencer, uma que está atrás do marido. Quer dizer, tem vários problemas colocados do universo feminino.

A Tata vem com uma carreira muito coerente nesse sentido, para mim seria o grande destaque, a minha mulher preferida do cinema, se for para escolher uma.


Marcelo Lyra é crítico de cinema e editor do site Cinequanon.


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Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.