Ano 16

Luiz Carlos Merten (Rejane Medeiros)

Eu sou Luiz Carlos Merten,  do jornal do Estado de São Paulo.

A proposta, a ideia, de falar sobre as mulheres míticas do cinema brasileiro realmente é uma coisa muito atraente. Me perguntam assim: Quais as mulheres que te marcaram no cinema brasileiro? Eu vou começar pela Helena (Ignez), por exemplo, depois eu vou progressivamente passar pela Norma Bengell, Odete Lara. Sabe, são mulheres maravilhosas que com certeza fazem parte do meu imaginário, uma pela ingenuidade, outra pela sensualidade, seja lá o que for.

Nessa eu talvez surpreenda porque eu vou falar de uma atriz que, na realidade, é um tanto esquecida do cinema brasileiro atual. Eu vou falar sobre Rejane Medeiros porque o grande filme que ela fez, Selva trágica, pra mim é uma das obras mais importante da história do cinema brasileiro. As pessoas normalmente esquecem desse grande filme, foi um filme produzido à margem do Cinema Novo. Na realidade, Roberto Farias era um diretor à margem do Cinema Novo, ele foi integrado ao movimento pelo sucesso do Assaltado ao trem pagador,  não se pode dizer que ele fosse um diretor cinemanovista. 

Realmente, pelo seu perfil, Farias veio da Atlântida, ele iniciou com Cidade ameaçada,  e que, pra mim, é uma trilogia que prosseguiu com o Assalta ao trem pagador e terminou em Selva trágica. O próprio diretor tem uma relação um tanto ambígua com o filme, porque embora ele saiba que seja um grande filme, o seu maior filme foi foi o maior fracasso, ou o único fracasso de público de toda a carreira dele. E isso estigmatizou Selva trágica, que é um grande filme baseado no romance, ele se passa na fronteira do Paraguai, na fronteira do Brasil com Paraguai, naquela cultura de colheita da erva, da erva mate. Os homens que colhem a erva são identificados como Xangai, e eles vivem do trabalho escravo, existe inclusive uma milícia dos grandes proprietários daquelas plantações que os vigiam, os mantém nessa escravidão. O  protagonista, como toda a trilogia é do Roberto Farias, é interpretado pelo irmão dele, o Reginaldo, embora no caso especifico do Assalto a gente tenha a figura do Elizer Gomes como Tião Medonho, como o chefe. Como o principal policial temos o Mauricio do Valle.

Rejane Medeiros é um monumento de mulher, linda, linda, morena, cabeleira longa. Ela tinha uma beleza agreste, alguma coisa que se eu fosse tentar comparar,  eu acho que ela foi uma pré no sentido dessa beleza, dessa beleza agreste. Ela tinha mais carnalidade, ela tinha mais exuberância feminina do que a Florinda Bolkan. Nesse filme, principalmente, isso casa à  perfeição com a personagem, porque ela faz essa mulher que na realidade faz parte desse mundo de escravidão, que existe naquela região. Os homens são trabalhadores escravos e as mulheres são objetos de prazer dos homens, elas são prostituídas, elas trabalham. Se fosse um garimpo talvez não fosse diferente. Eu sou capaz, eu seria capaz de até citar cenas inteiras do filme, assim, a postura, a beleza, o olhar, o gesto da Rejane. Porque eu era um cara muito mais jovem, o filme era de 65, há 45 anos. Eu era bem garoto ainda e aquele mulherão me fascinou, mas o que me fascinava era o contexto geral da ideia, a ideia da utilização do trabalho escravo do homem, a ideia da coisificação da mulher, e uma rebelião contra isso.

É um filme que realmente me apaixona, mas eu não me apaixonaria se ele não tivesse Reginaldo no papel do protagonista e Rejane no papel dessa mulher que me marcou tanto. Existiriam, sei lá, outras personagens famosas, outras grandes mulheres. Eu amo a Odete Lara em Copacabana me engana,  por exemplo. Existe outra atriz que pouca gente fala, a Florinda Bolkan. E aqui na Mostra de Tiradentes, eu assisti anteontem, meus Deus, como o cinema é deslumbrante, que mulher mais linda que era a Helena no auge do Cinema Marginal!

Mas eu vou ficar com a minha Rejane Medeiros, pelo filme, por ela com certeza, mas pelo filme, um filme que eu amo muito. E engraçado, em uma dessas enciclopédias de cinema, a pessoa que escrevia sobre o diretor Roberto Farias definia esse filme como Raoulwalchiano, tentando fazer uma ponte com o diretor norte americano. Eu adoro o Walch, mas eu nunca fiz essa ponte na minha cabeça. Pra mim é o filme do Roberto Farias, a construção de tragédias, os elementos de melodramas, de violência física, essa ideia do trabalho escravo do homem, da utilização da coisificação da mulher, Tudo isso pra mim remete muito mais aqueles filmes que faz parte do imaginário, Rejane, aquele rosto, aquela beleza, aquela cabeleira, aquelas pernas, ela realmente é uma imagem muito forte pra mim. 

E um detalhe é que, de repente, a Rejane, no próprio arquivo do Estadão, eu fui várias vezes atrás de informações  sobre a Rejane, e ela meio que sumiu do mundo. Eu não saberia te dizer sobre o desdobramento da carreira, da vida, seja lá o que for. Mas ela esta lá, ela faz parte da história do cinema brasileiro, com certeza é parte destacada da minha história do cinema brasileiro.

Luiz Carlos Merten é jornalista e crítico de cinema.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.