Ano 15

Julia Nogueira

A produtora e jornalista Julia Nogueira nasceu em Belo Horizonte, em 17 de maio de 1977. A descoberta do Jornalismo foi nos Estados Unidos, ainda em época de estudante: “Quando eu tinha 16 anos eu fiz intercâmbio nos Estados Unidos, no estado de Vermont, e tive a oportunidade de trabalhar lá com o jornalismo impresso, era uma das disciplinas de inglês que eu tinha que fazer, eu escolhi o jornalismo impresso e me apaixonei. Quando eu voltei para o Brasil até então eu tinha a ideia de fazer Direito, aí resolvi fazer Jornalismo batalhando contra a família, que queria que eu continuasse com a ideia do Direito. Acabei fazendo os dois vestibulares e, graças a Deus, não passei no vestibular de Direito, só passei no de Jornalismo e fiz na PUC”.

Julia Nogueira tem carreira importante no jornalismo cultural, atuando na área, principalmente na televisão, e onde estreita ligação com o cinema: “Antes de me formar, provavelmente em 98, eu comecei a trabalhar no programa Cine Magazine, exibido na Rede Minas. Na época, eu comecei como estagiária e hoje em dia eu ainda trabalho lá. O programa estava com um ano na época e hoje em dia já está caminhando para os 16. Ao longo da minha vida profissional eu transitei pelo programa, eu comecei como estagiária, virei produtora, repórter, apresentadora durante muito tempo, até o momento em que eu me desliguei totalmente do programa pra fazer mestrado em 2006. Aí fiquei do meio de 2006 ao final de 2008 fora, voltei, e de uma forma ou de outra eu continuo ligada ao programa, em momentos mais em alguns momentos menos. Foi através do Cine Magazine que eu tive uma ligação maior com o cinema, porque além de trabalhar pelo programa eu comecei a frequentar os festivais e depois comecei a trabalhar em festivais, e aí a ligação não parou”.

A dobradinha televisão e cinema se intensifica, e Julia Nogueira trabalha também na TV Mostra, informativo das mostras de cinema da Universo Produção, trabalhou no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, produziu filmes, e lançou o Guia Fala, fundamental site de pesquisa e consulta que mapeia os festivais de cinema da América Latina, e que já cadastrou mais de 800 eventos: “Esse número é crescente, a cada semana a gente acrescenta quatro, cinco festivais novos. A pesquisa continua e a gente vai encontrando festivais pequenos que vão ganhando um pouco mais de notoriedade e fica mais fácil de descobrir que eles existem. Eu agora estou batalhando pra traduzi-lo para o espanhol e para o inglês, porque eu não quero que ele seja simplesmente uma ferramenta para os brasileiros saberem o que acontece na América Latina, mas que a América Latina como um todo se conheça. Chamamos de países hermanos, mas esses irmãos se conhecem muito pouco”.

Julia Nogueira conversou com o site Mulheres do Cinema Brasileiro durante a 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013. Ela falou sobre sua formação, repassou sua trajetória, o trabalho na televisão, a participação nos festivais de cinema, os filmes que produziu, o Guia Fala e outros assuntos.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Para começar, origem, data de nascimento e formação. 

Julia Nogueira: Eu nasci em Belo Horizonte, no dia 17 de maio de 1977, e sou formada em Jornalismo. 

MCB: Quando você procurou o Jornalismo tinha alguma área específica que você queria trabalhar ou foram aquelas opções que a gente faz sem muito saber das coisas?

JN: Tinha, quando eu tinha 16 anos eu fiz intercâmbio nos Estados Unidos, no estado de Vermont, e tive a oportunidade de trabalhar lá com o jornalismo impresso, era uma das disciplinas de inglês que eu tinha que fazer, eu escolhi o jornalismo impresso e me apaixonei. Quando eu voltei para o Brasil até então eu tinha a ideia de fazer Direito, aí resolvi fazer Jornalismo batalhando contra a família, que queria que eu continuasse com a ideia do direito. Acabei fazendo os dois vestibulares e, graças a Deus, não passei no vestibular de Direito, só passei no de jornalismo e fiz na PUC. Entrei pensando em jornalismo impresso e o mais engraçado é que desde então eu praticamente não trabalhei com isso, minha carreira foi me levando, desde ainda da época de faculdade, para o jornalismo televisivo, principalmente. Trabalhei depois com rádio também, mas com impresso foi só um período muito curto em um jornal quinzenal.

MCB: Quando foi isso?

JN: Eu entrei na faculdade no meio de 1995 e me formei no meio de 1999. Antes de me formar, provavelmente em 98, eu comecei a trabalhar no programa Cine Magazine, exibido na Rede Minas. Na época, eu comecei como estagiária e hoje em dia eu ainda trabalho lá. O programa estava com um ano na época e hoje em dia já está caminhando para os 16. Ao longo da minha vida profissional eu transitei pelo programa, eu comecei como estagiária, virei produtora, repórter, apresentadora durante muito tempo, até o momento em que eu me desliguei totalmente do programa pra fazer mestrado em 2006. Aí fiquei do meio de 2006 ao final de 2008 fora, voltei, e de uma forma ou de outra eu continuo ligada ao programa, em momentos mais em alguns momentos menos. Foi através do Cine Magazine que eu tive uma ligação maior com o cinema, porque além de trabalhar pelo programa eu comecei a frequentar os festivais e depois comecei a trabalhar em festivais, e aí a ligação não parou.

MCB: Quando você procurou esse estágio é porque era o que tinha de oferta lá ou porque você já queria trabalhar com cinema? Ou porque queria trabalhar na televisão?

JN: Meu sogro era diretor do programa, o Mário Lúcio Brandão Filho tinha criado o programa junto com o Geraldo Veloso um ano antes e eles estavam precisando de estagiário. Eu tinha acabado de sair de um estágio de assessoria de imprensa na Secretaria de Ciência e Tecnologia e estava procurando um estágio, sempre gostei de cinema, mas não tinha uma vontade específica de trabalhar com isso até então. E aí coincidiu, eu tinha pouco tempo de namoro, o meu sogro estava precisando de estagiário, e eu comecei a trabalhar com o programa. Depois disso o Gustavo Brandão, que hoje em dia é meu marido, que assumiu a direção do programa já há alguns anos, então eu falo que sou casada com o Cine Magazine. Felizmente, porque com isso eu tenho a possibilidade de, dependendo de outras coisas que estejam acontecendo na minha vida, eu sei que sempre consigo voltar para o programa na hora que é pertinente para mim, para eles, ou para os dois lados.

MCB: O Cine Magazine é um programa importante, é um programa de resistência, há muito tempo no ar. Ele dá conta do cinema atual, mas não esquece o resgate, não esquece a memória, eu queria que você falasse um pouco mais sobre essa sua trajetória no programa. Qual você acha que é a grande contribuição do Cine Magazine para o cinema brasileiro?

JN: O que eu aprendi sobre cinema, principalmente, foi dentro do Cine Magazine, e eu acho que isso não foi só comigo que trabalhei no programa praticamente a história inteira dele, mas como quem assiste ao programa também. Porque exatamente, o Cine Magazine tem uma janela, uma preocupação muito grande em dar um espaço para o cinema brasileiro. Ele está sempre falando de novos realizadores, às vezes realizadores que estão fazendo o seu primeiro curta e tem espaço dentro do Cine Magazine para falar do processo de produção, do processo de pesquisa. Mas ao mesmo tempo a gente também fala dos grandes diretores que estão lançando os seus filmes depois de uma longa e consolidada carreira. Então nem tem sempre esse foco do cinema brasileiro, mas ao mesmo tempo a gente tem uma preocupação em falar da história do cinema brasileiro, a gente tem pessoas que trabalham no programa desde o início, que é o Paulo Augusto Gomes e o Mário Alves Coutinho, e outros ensaístas que passaram pelo programa e que são grandes conhecedores do cinema brasileiro e do cinema internacional. A gente pode contar com essa fonte de conhecimento mesmo, de traduzir isso para uma linguagem televisiva e passar isso para um público de televisão aberta que, com muita frequência, não tem acesso ou nunca viu ouviu falar de Godard, de Ozu, mas tem ali, dentro aqueles ensaios do programa, a possibilidade de ouvir um pouco da história desses caras, dos filmes que eles fizeram e ver um pouquinho dos trechos dos filmes. Eu acho que isso desperta o interesse das pessoas e isso é muito importante para nós, a gente não larga mão desse lado mais erudito do programa, que muita gente acha que era muito duro às vezes, mas eu acho que é fundamental. Tem também um quadro no programa que é de entrevistas, em que damos voz para quem faz cinema, diretores, roteiristas, atores, todos estão ali na íntegra falando durante quatro minutos sobre seus filmes, seus trabalhos, suas carreiras, e aí, primordialmente no cinema brasileiro. Então toda semana tem um pouquinho de cinema brasileiro independente, os filmes que estiverem entrando em cartaz, e tal.

MCB: Você acabou atuando também no rádio, não é, mas o cinema e a televisão estão desde o início, do estágio até hoje, então não é à toa que você faz a TV Mostra, das mostras de cinema da Universo Produção. A televisão é um veículo que você encontrou como sua praia? Foi difícil lá no início, é difícil até hoje ou é tranquilo?

JN: A televisão é a minha praia, não tenho a menor dúvida, e eu já fiz de tudo, menos operar a câmera e áudio, mas do resto eu já fui estagiária, produtora, repórter, apresentadora, coordenadora, e, vire e mexe, eu volto em alguma dessas funções. Eu adoro e isso não tem dúvida, foi onde eu fiz a minha escola, e é onde para sempre eu vou voltar. Hoje em dia eu trabalho em uma produtora de cinema e TV coordenando o núcleo de produção de TV, então eu deixo de lado um pouco o jornalismo, mas não a televisão. Então, definitivamente, é a minha praia, mas eu gosto muito de transitar por outras áreas, a minha experiência com rádio, por exemplo, porque a minha carreira de jornalismo ela sempre foi na área cultural, é o que me atrai, o que eu gosto de fazer. Eu agradeço muito que eu tenha tido oportunidades ao longo da minha carreira para continuar no jornalismo cultural porque se você me colocar mesmo para fazer televisão, que eu adoro, mas pra cobrir política ou polícia, eu vou ser profundamente infeliz. Eu dou graças a Deus que tenha gente que faça, que goste de fazer e sabe fazer bem, mas não me peça porque não é a minha praia. Então eu transitei pelo jornalismo cultural no programa Agenda, da Rede Minas, e também na rádio Oi FM, durante um ano e meio, e foi muito bacana, eu adorei, foi uma experiência incrível. Eu aprendi muito, e se tiver oportunidade eu volto também para o rádio porque ele é muito complementar à TV.

MCB: A produtora é de vocês, não é isso?

JN: A produtora que faz o Cine Magazine, a Trade Produção e Comunicação, é do Mário Lucio Brandão Filho e do Gustavo Brandão, eu não sou sócia da empresa, mas eu sou frequentadora assídua dos projetos, eu tenho a minha própria empresa, que é a Versão Final. A produtora em que eu trabalho hoje em dia é a Camisa Listrada, do André Carreira, que me chamou pra criar e coordenar um núcleo de produção de TV e documentário dentro da Camisa Listrada, que até então era uma produtora muito voltada para a área de cinema.

MCB: Isso foi quando?

JN: Eu entrei no dia 5 de março de 2012.

MCB: E já realizou o projeto ou está envolvida na produção?

JN: Eu entrei especificamente para produzir uma série de TV que vai ser exibida na TV Brasil nesse ano e que se chama Expedições Burle Marx, com direção de João Vargas Pena. Ela está em processo de finalização, nós rodamos e roteirizamos ao longo de 2012, são quatro episódios. Agora, a gente está exatamente no momento de fomentar, de encontrar quais são os outros projetos que vamos filmar em 2013, 2014.

MCB: A TV Mostra é um veículo específico para as Mostras da Universo, não é isso?

JN: Sim, eu frequento as Mostras de Tiradentes desde a segunda edição, eu vinha cobrindo pelo Cine Magazine, e aí, um ano, a Raquel Hallak teve a ideia da TV Mostra e me chamou para fazer. A TV Mostra é um informativo do que acontece dentro da Mostra de Cinema de Tiradentes, na época eu trabalhei com uma equipe de São João Del Rei durante três anos. Quando eu fui fazer o Mestrado nos Estados Unidos aconteceu que o Gustavo (Brandão) assumiu a parte técnica de edição. O que eu fazia era reportagem, texto e locução. Ele assumiu essa parte técnica, trabalhou com alguns outros repórteres, mas da mesma forma que eu vou e volto no Cine Magazine, eu vou e volto na TV Mostra, que também é um outro projeto que eu adoro. 

MCB: Essas duas frentes em que você vem atuando há um bom tempo, seja no Cine Magazine ou nas Mostras da Universo, isso acabou te dando um conhecimento bem generoso da produção do cinema brasileiro, não é?

JN: Sem dúvida.

MCB: Porque você tem esse contato com os realizadores de diferentes esferas.

JN: Exatamente. Eu sempre transitei entre o jornalismo cinematográfico e a produção audiovisual, porque eu comecei trabalhando na Trade, a gente fazendo alguns documentários, vídeos institucionais, eu trabalhando como roteirista e como produtora. Aí fui trabalhar com produção cultural e fui fazer uma pós-graduação em gestão cultural, acabei ganhando uma bolsa para fazer um mestrado de Estudos Latinos Americanos nos Estados Unidos, na Universidade de Ohio, que é um acordo antigo que a UNA tem com a Universidade de Ohio. Aí eu falei “se é estudo latino-americano eu vou fazer sobre cinema latino-americano”, porque você tem que escolher um foco que seja voltado para a América Latina. Infelizmente, não tinha ninguém para me orientar, e aí eu acabei fazendo o mestrado em comunicação, voltado para a área de audiovisual. Eu criei uma campanha de prevenção de doença de chagas no Equador, através de vídeos, vídeo promocional, vídeo institucional, mas o cinema estava ali. Eu já tinha começado a fazer algumas matérias na faculdade de cinema e falei assim “não vou largar esse osso”, aí eu consegui uma outra bolsa para fazer mestrado de Estudos Cinematográficos que é uma coisa que a Universidade de Ohio incentiva, que é o mestrado duplo. Não é uma coisa comum aqui no Brasil, as pessoas se assustam quando eu falo que fiz dois Mestrados ao mesmo tempo, mas é muito legal, porque eu transitei entre a escola de cinema e a escola de comunicação, algumas matérias valem para os dois mestrados. Eu consegui ter uma formação mais em crítica cinematográfica, eu não tenho pretensões de virar uma crítica de cinema, eu não acho que seja a minha praia, mas me deu um conhecimento dessa área de estudos cinematográficos, que foi complementar ao ver cinema e ao debater cinema.  Como eu já frequentei realmente muitos festivais no Brasil, isso me deu um outro lado do conhecimento. Mais recentemente, depois que eu voltei desse Mestrado, eu passei para o lado de produção de cinema, mesmo que eu nunca tenha feito, e acabou que eu produzi um curta- metragem que se chama Antes que o verão acabe, da Marília Nogueira.

MCB: Quando?

JN: Em 2009.

MCB: Como foi produzir o curta?

JN: Foi uma experiência muito gratificante, eu não conhecia a Marília, nós temos o mesmo sobrenome, somos Nogueiras. Que me indicou para trabalhar com ela foi o Guilherme Reis, que me conhecia pelo Cine Magazine. Ele me indicou para produzir o curta, fazer a produção executiva, eu fiz a produção executiva junto com ela, mais a edição de produção, eu pré-produzi o filme todo em Belo Horizonte e ela em São Sebastião do Paraíso. Nós nos conhecemos pessoalmente no primeiro dia de filmagem, o curta foi lançado no ano passado, ele foi todo filmado em São Sebastião do Paraíso, com toda estrutura da família dela. Ela ganhou o Filme em Minas para fazer esse curta e aí foi muito bacana.  Óbvio que tivemos uma série de dificuldades. Eu me lembro muito claramente de um dia, a gente tinha uma jardineira, um veículo que fazia parte do filme, ela era muito velha e aí ela quebrou no meio das filmagens, não tinha como ir para o set, aquelas mil confusões. Eu me lembro que liguei para a minha mãe, quase aos prantos, mas disse ao mesmo tempo que não tinha problema não, pois foi ali que tive certeza que gostava de produção e que queria trabalhar com isso.Logo depois disso, trabalhei em um projeto que começou como um curta e vai terminar como longa, que é O cabeleireiro da Medusa parte I, do Cláudio Oliveira, ele ainda vai fazer a parte II e a parte III. Eu fiz a produção executiva e a direção de produção desse filme que ainda não foi lançado. Foi uma outra experiência, produzir um longa-metragem com orçamento de curta, foi aprender a tirar leite de pedra mesmo, então foi uma outra experiência bem interessante. Agora estou focada na produção de séries para a TV.

MCB: O Guia Fala surge já desse mestrado voltado para a América Latina?

JN: Quando eu comecei a fazer o mestrado de estudos cinematográficos, paralelamente eu me senti meio que na obrigatoriedade de fazer alguma coisa que ligasse os dois temas, o cinema e a América Latina. Eu tinha uma ligação muito forte com festivais de cinema por causa do meu trabalho no festival de curtas e por causa dos meus trabalhos nas Mostras de Cinema de Tiradentes, uma ligação e uma paixão mesmo. Logo que eu cheguei na Universidade de Ohio, uma das disciplinas do mestrado de cinema era ligada ao festival de lá, um festival internacional que já tem muitos anos. O trabalho era uma disciplina do mestrado em que você participava da comissão de seleção do Festival junto com a coordenadora. Eu já tive uma relação com o Festival de lá de cara, quando eu formalizei realmente a entrada no mestrado. Eu estive em Belo Horizonte, porque eu vinha e trabalhava no Festival de Curtas, eu vinha de férias e não dava conta de ficar longe da área, coincidia que eu vinha no meio do ano e daí trabalhava no Festival de Curtas. Eu encontrei o Antônio Leal, que na época era o presidente do Fórum dos Festivais e com quem eu tinha tido um longo contato durante os festivais anteriores. Eu disse para ele que queria fazer alguma coisa com festivais de cinema da América Latina no mestrado, mas não sabia o que fazer.  Ele então me disse que eles tinham acabado de lançar um diagnóstico do circuito de festivais latino-americanos, festivais brasileiros, e quem sabe eu não ampliaria isso para a América Latina. Foi aí que surgiu a ideia. 

MCB: Isso foi quando?

JN: Isso foi em julho de 2007. Eu voltei para os Estados Unidos e sugeri para a professora, que não entendia nada de América Latina, mas entendia tudo de festivais. Ela achou a ideia superbacana e eu tive que fazer todo um trabalho teórico, de pesquisas sobre festivais de cinema, que é uma coisa que praticamente não existe bibliografia a respeito. Fazer um levantamento dos festivais de cinema que acontecem na América do Sul, eu limitei à América do Sul por causa de escopo mesmo, eu não tinha tempo pra fazer a América Latina como um todo. Daí fiz a minha dissertação de mestrado, que é um diagnóstico do circuito de festivais de cinema da América do Sul com comparações de números de datas e tal. Quando eu voltei para o Brasil, eu fiquei com essa informação guardada, mas com plena consciência que essa informação precisava ser divulgada, não fazia o menor sentido ficar com isso guardado na gaveta. Em 2010 eu consegui uma bolsa da Funarte de produção cultural para internet e aí eu coloquei o site no ar, o Guia Fala, um guia de festivais audiovisuais latino-americanos, em agosto de 2011 ele entrou no ar – www.guiafala.com.br. 

O Guia Fala entrou no ar com 550 festivais latino-americanos, aí eu consegui ampliar e hoje em dia, um ano e meio depois, ele já está com 740 festivais. Esse número é crescente, a cada semana a gente acrescenta quatro, cinco festivais novos. A pesquisa continua e a gente vai encontrando, festivais pequenos que vão ganhando um pouco mais de notoriedade e fica mais fácil de descobrir que eles existem. Eu agora estou batalhando pra traduzi-lo para o espanhol e para o inglês, porque eu não quero que ele seja simplesmente uma ferramenta para os brasileiros saberem o que acontece na América Latina, mas que a América Latina como um todo se conheça. Chamamos de países hermanos, mas esses irmãos se conhecem muito pouco.

MCB: Como foi a repercussão do Guia?

JN: Foi muito bacana. Eu tinha feito a pesquisa para o mestrado e descobri que não existia uma sistematização dessas informações, e isso não existe até hoje, não é? O Guia Fala é o único meio que tem isso e as pessoas ficam muito felizes de saber que existe um lugar onde elas podem encontrar as informações sobre todos esses festivais, quando eles acontecem, quando estão com as inscrições abertas, qual é o contato desses festivais. É um site feito para quem faz cinema e para quem pesquisa sobre cinema também, que eu acho que é uma fonte bem interessante. 

MCB: Além dessa ferramenta de praticidade de pesquisa de informação, ele também acaba se configurando como retrato da circulação do cinema por esses espaços todos, vai para além do que essa primeira e primordial função.

JN: Por isso estou lutando bravamente para conseguir mais verba para o site, para que eu possa realmente prover esses tipos de informações, só que a cada informação extra que eu acrescento na lista de informações que estão disponíveis no site eu tenho que conseguir essa informação 740 vezes, porque aí eu vou fazer completo. Então eu preciso de equipe para fazer isso, eu ainda, infelizmente, não tenho recursos, mas eu tenho realmente a esperança porque eu acredito que tem gente que vai acreditar que isso vale a pena.

MCB: Você percebe que além de estar aquele recorte lá, e por ser um recorte, ele já tem um outro significado quando você vai olhar de uma forma mais abrangente?

JN: O que eu quero fazer depois também é um diagnóstico mesmo de pesquisa com cada um dos festivais para a gente entender esse circuito, quantos filmes circulam, quais filmes circulam, quais circulam mais, quais circulam menos, premiações, quem foi premiado, quais são os valores de premiação, as dificuldades enfrentadas pelos festivais, os que deram certo e os que não deram certo. Tanto é que nessa história da pesquisa eu não tiro do site os festivais que deixaram de existir, entendeu? Porque tem Festival que está ali que não vai acontecer no ano que vem, ou que aconteceu no ano passado e que já não aconteceu nesse ano, a gente está fazendo um trabalho de separar isso dentro do site para que a fonte de informação continue.

MCB: Mesmo porque muitos festivais que acontecem hoje ocorrem porque já existiram outros, então é fundamental que a memória esteja preservada.

JN: Exatamente E é verdade, festivais surgem, você acha que é um festival totalmente novo, mas você vê que, na verdade, é uma versão nova de um festival que deixou de existir há cinco anos porque não tinha recurso. Ou então são festivais que têm intervalos grandes e alguém consegue resurgir, é o caso do Festival de Curtas de Belo Horizonte, por exemplo.

MCB: Isso te levou a conhecer as pessoas por trás desses outros festivais?

JN: Ainda não, esse é um trabalho que a gente vai começar a fazer esse ano, desse relacionamento com os festivais.

MCB: Tem que ter um investimento grande, não é, todo um trabalho.

JN: Uma equipe bilíngue... Então eu tenho muito trabalho pela frente ainda, ainda bem, adoro. Tem uma coisa que é muito importante na minha trajetória que eu acho que eu não falei o suficiente, a gente só citou que é o Festival de Curtas de Belo Horizonte. O Festival de Curtas apareceu na minha vida quando eu tinha saído do Cine Magazine e estava procurando alguma coisa na área de cinema. O Festival precisava de um assessor de imprensa e a Waleska Falci me convidou, eu trabalhei na quarta edição, primeiro na assessoria de imprensa. Depois quando o CEC assumiu, o Geraldo Veloso me chamou para fazer parte do que ele chamava de triunvirato Festival de Curtas, que era ele na coordenação geral, a Márcia Valadares na produção executiva e eu na secretaria executiva. Esses anos que eu trabalhei no Festival de Curtas foi quando a sementinha da produção realmente foi plantada para mim, porque a gente fazia o festival com poucos recursos, e eu acho que a gente conseguia fazer um festival maravilhoso. E tinha o convívio com os realizadores, com os críticos de cinema, porque tinha um júri da crítica muito bacana, com os curadores internacionais que vinham, com o público de cinema. Foi um aprendizado para mim fenomenal, eu fiz grandes amigos nessa época, curta-metragistas que hoje eu vejo aí lançando seus longas e seguindo uma trajetória. Para mim foi um aprendizado fantástico, eu saí em 2006 quando fui fazer o mestrado. Sem dúvida é um projeto que me amolece o coração e me faz brilharem os olhos até hoje, eu tenho um carinho enorme, foi uma verdadeira escola.

MCB: Para terminar, qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você deixa registrada em sua entrevista como homenagem?

JN: Engraçado, a primeira pessoa que me vem na cabeça é uma atriz, que é a Fernanda Montenegro, porque eu acho que os inúmeros papéis que ela já interpretou, a garra que essa mulher tem, a idade que ela tem hoje em dia e o que ela continua ainda fazendo, a paixão que ela tem, que a gente vê. Eu quero ser igual a ela, eu quero chegar até os sei lá quantos anos que ela está atualmente, sendo respeitada pelo o que ela faz, respeitada e admirada pelo que ela faz bem, com paixão. 

MCB: E qual foi o último filme brasileiro a que você assistiu?

JN: Eu não sei se foi o Paraísos artificiais, porque eu vi uns três ou quatro filmes embolados.

MCB: Pode citá-los.

JN: Eu vi Paraísos artificiais, Trabalhar cansa, e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.

MCB: Muito obrigado pela entrevista.



Entrevista realizada durante a 16a Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.