Ano 15

Ursula Rösele

A crítica e programadora de cinema Ursula Rösele nasceu em Belo Horizonte (MG), no dia 9 de julho de 1980. É graduada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda (Universidade Fumec), e mestre também em Comunicação Social, pela UFMG: “Na minha graduação eu era muito inexperiente ainda e eu procurei a Comunicação com uma visão um pouco ingênua, de que eu poderia trabalhar redação, sempre foi o meu interesse a escrita. Mas ao longo do curso eu fui me desencantando, porque a lógica mercadológica não me atrai em absoluto e eu fui me enveredando para o cinema”.

A formação nessa área se dá na Escola Livre de Cinema: “Depois que eu saí da Fumec, onde me graduei, eu fiz um curso técnico na Escola Livre de Cinema, em Belo Horizonte, que foi em 2005, e que me abriu todas as portas. Eu conheci o Rafael Ciccarini, ele foi meu professor na época, e vários alunos que foram da minha turma e de outras turmas são pessoas que estão no cinema até hoje, como os meninos da Filmes Polvo (revista virtual de cinema).”.

Na Escola Livre de Cinema, Ursula Rösele chegou a trabalhar em filmes em diferentes áreas, mas foi ao integrar a Filmes Polvo, fundada em 2007, que começou a trajetória como crítica de cinema: “Foi na época em que se discutia, apesar de eu achar meio temerário essas nomenclaturas, sobre essa nova crítica que surgia, um interesse muito grande pelo trabalho que a Contracampo e a Cinética faziam, essa coisa de olhar para o curta, de pensar, de ampliar o filme para além do que ele é. Foi isso, mas eu acho que, talvez, a Contracampo e a Cinéticasejam os maiores referênciais iniciais”.

Ao lado de Rafael Ciccarini, Ursula Rösele programa o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte (MG): “O trabalho do Rafael no Cine Humberto Mauro é mais conceitual que o meu, ele que é o curador das Mostras, apesar de eu auxiliar, dar minhas opiniões e de a gente fazer muita coisa juntos”. E completa: “Eu faço tudo lá, mural, quadro de informação, funcionários, comunicação, eu que gerencio essa parte toda do que vai para a imprensa, o que vai para o site, o que vai para as peças gráficas, eu sempre sento com o pessoal da Comunicação lá para definir isso. É difícil trabalhar com cinema porque você está fadado a não ter carteira assinada, existe uma série de instabilidades, mas hoje eu me sinto bem realizada, eu fiz um mestrado, estou na Filmes Polvo, trabalho no Cine Humberto Mauro, querendo ou não o cinema tomou minha vida, eu me deixei ser levada pelo cinema”.

Ursula Rösele conversou com o site Mulheres do Cinema Brasileiro durante a 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013. Ela fala sobre sua formação, sua trajetória, aFilmes Polvo, o trabalho no Cine Humberto Mauro, a participação das mulheres na crítica de cinema, o olhar feminino e outros assuntos.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Para começar, origem, data de nascimento e formação.

Ursula Rösele: Sou de Belo Horizonte, mãe brasileira e pai alemão, nasci em 9 de julho de 1980. Fiz graduação em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (Fumec), mestrado também em Comunicação Social, na UFMG. A graduação foi em 2004 e o mestrado eu defendi em 2011.

MCB: Como se deu seu interesse pela Comunicação?

UR: Na realidade foi um pouco contingente. Na minha graduação eu era muito inexperiente ainda e procurei a Comunicação com uma visão um pouco ingênua, de que eu poderia trabalhar redação, sempre foi o meu interesse a escrita. Mas ao longo do curso eu fui me desencantando, porque a lógica mercadológica não me atrai em absoluto e eu fui me enveredando para o cinema. No início, ainda tateando muito de leve, porque eu não conhecia muita gente da área. Depois que eu saí da Fumec, onde me graduei, eu fiz um curso técnico na Escola Livre de Cinema, em Belo Horizonte, que foi em 2005, e que me abriu todas as portas. Eu conheci o Rafael Ciccarini, ele foi meu professor na época, e vários alunos que foram da minha turma e de outras turmas são pessoas que estão no cinema até hoje, como os meninos da Filmes Polvo(revista virtual de cinema). Na realidade, a gente não era da mesma sala, mas da mesma época, e então fomos todos ficando amigos. Através da Escola Livre eu encontrei a docência, encontrei um caminho para o mestrado. Naquela época trabalhei com alguns filmes, mas a realização não é muito a minha praia. Depois, em 2007, a gente começou a Filmes Polvo.

MCB: Você falou que a sua intenção sempre foi a escrita. E você escreve, inclusive, poesia, não é? Porque a gente vai falar sobre crítica, que é também um espaço em que você pode exercitar essa questão da escrita, da reflexão.

UR: É, falando assim em um terreno mais de sonho, eu gostaria muito de trabalhar com literatura, eu tenho alguns textos de poesia, alguns contos, algumas coisas nesse sentido. Cheguei a fazer um blog numa época, que foi mais ou menos quando eu estava na escola. Depois, quando eu entrei na Filmes Polvo eu me afastei um pouco disso. Vira e mexe eu fico tentando voltar, acho que agora com excesso de afazeres eu não tenho sentado muito com calma pra mexer com isso, mas, invariavelmente, eu acho que vou voltar pra esse lugar também. Isso até influenciou muito os meus textos na Filmes Polvo, os meus primeiros textos são mais poéticos que os atuais. No mestrado eu tive problema com texto por causa disso, porque é super antiacadêmico esse tipo de escrita. Mas eu acho que literatura, poesia, é o meu interesse maior, e o cinema é, digamos assim, uma paixão.

MCB: Você pode citar alguns desses trabalhos em curta de escola que você fez? 

UR: Eu dirigi um que é horroroso, com toda honestidade, não tem experiência em absolutamente nada, sobre elevador, muito ruim. Eu fiz um do Cláudio Costa Val que se chamaA espera, em que fiz direção de arte, figurino, ajudei um pouco na produção. Eu produzi alguns que eu confesso que nem me lembro mais, que também eram da escola, mas nenhum desses rodou muito não.

MCB: Eu tenho alguns nomes, veja se está correto. Bom, tem O elevador, que você já citou, oVocê é o que você come....

UR: É verdade, da Mariana, fiz direção de arte.

MCB: Atitudes extremas.

UR: Foi produção, maquiagem, eu acho.

MCB: Assistente de direção, não?

UR: Isso mesmo, assistente de direção.

MCB: Como economizarA espera.

UR: A espera foi o que eu te falei, foi direção de arte e figurino.

MCB: Pedaço de papel.

UR: Pedaço de papel eu não cheguei a fazer, eu entrei pra equipe no meio do processo, eu saí dele.

MCB: Como você disse, foi a Escola Livre de Cinema que lhe abriu as portas, e você vai acabar atuando em várias frentes. O primeiro momento foi a Filmes Polvo, não é isso? 

UR: Eu entrei na Escola Livre em maio de 2005, eu fiz vários cursos lá. A Filmes Polvocomeçou em 2007, a gente começou a discussão no final de 2006 e inauguramos aqui, em Tiradentes, na 10ª edição. Aí mudou tudo, esse encontro com o cinema, com muita gente da área, com jornalista, crítico, realizador, isso foi abrindo muito o meu leque, sem duvidas. Eu acho que devo muito a Filmes Polvo, a minha trajetória no cinema, sem dúvidas, e aí isso me abriu um pouco para o mestrado também. Porque na realidade, quando eu comecei a estudar cinema, minha intenção inicial era fazer o mestrado. Só que, enfim, eu não tinha muito conhecimento da área, eu era muito cru e tal. Então teve esse tempo em que eu fiquei estudando, fazendo outras coisas, trabalhei com produção na ArtBHZ, que foi uma coisa bem fora do cinema. Depois eu fui fazer mestrado na Fafich com o Cézar Guimarães, estudei Documentário e Performance. 

MCB: Na Filmes Polvo você trabalha desde o início, desde a formatação. O que moveu a criação da Filmes Polvo?

UR: A Filmes Polvo surge em um contexto em que eu não estava participando, na realidade. O Rafael Ciccarini tinha dado uma aula de crítica cinematográfica lá na Escola Livre, em que estavam, se não me engano, o Gabriel (Martins) e o Léo Amaral, o João (Toledo) não, ele entrou depois. Gabriel Martins, Léo Amaral, João Paulo Teixeira, que hoje trabalha com continuidade em um monte de filme e acabou saindo depois, e a Mariana Souto. São os primeiros nomes que eu me lembro que fizeram aula de crítica, e aí eles apresentaram essa demanda de fazer um site. O Rafael entrou no início como uma espécie de consultor e me indicou, acho que o Léo Amaral me indicou também, não me lembro mais. Aí eu comecei a entrar pesado. Lá, no contexto das nossas conversas, eram coisas ainda meio artesanais, de experimentar com as nossas reflexões da época, de tentar ampliar um pouco o nosso conhecimento da área. Um dia o Rafael falou que a gente ia precisar de alguém para editar o site, ele não tinha na época vontade de fazer isso, mas a gente sentou, conversou e dissemos que tinha que ser ele. Ele topou e eu e ele assumimos uma certa frente, ele no conceitual de edição e na coordenação, e eu na produção. Aí nós fomos atrás, montar tudo, procurar designer.  Foi na época em que se discutia, apesar de eu achar meio temerárias essas nomenclaturas, sobre essa nova crítica que surgia, um interesse muito grande pelo trabalho que a Contracampo e a Cinética faziam, essa coisa de olhar para o curta, de pensar, de ampliar o filme para além do que ele é. Foi isso, mas eu acho que, talvez, a Contracampo e a Cinéticasejam os maiores referenciais iniciais.

MCB: Me corrija se eu estiver errado: por que são tão poucas mulheres fazendo crítica? O que você acha sobre isso? 

UR: Não sei, eu acho essa resposta difícil. Nós já tivemos essa conversa, quando a gente fez uma Mostra de Cinema e Crítica, não lembro mais se foi em 2008, nós conversamos sobre isso, sobre o universo cinematográfico. Hoje em dia eu acho que nem tanto, tem mulher para a realização inteira, mas para a critica ainda sim. Esse universo da cinefília é um pouco essencialmente masculino, e eu não sei dizer porque, para te falar a verdade. Tem uma coisa que me incomoda, e, enfim, não é sem generalizar nem nada, mas eu não gosto muito doapproach que as mulheres dão pra coisa. Porque eu não acho que a aproximação deva ser por um viés mais feminista, ou de defesa de um olhar feminino e tal. Eu sinto falta de uma presença mais massiva feminina porque eu acho que a mulher tem muito a acrescentar ao olhar. O Rafael fala muito que o homem tem essa verve quase, não é neurótica a palavra, mas essa coisa de ver um monte de filme e se enfurnar. De fato eu conheço poucas mulheres que fazem isso. Claro que eu não posso falar generalizando, porque eu não conheço tanta mulher da área, mas eu tendo a concordar um pouco com o que ele fala. Eu acho que existe, naturalmente, um caminho do homem assim, até historicamente, o pessoal da Nouvelle Vague... Claro que tem mulheres também que fazem isso, como a Marguerite Duras, que apesar de não escrever tanto, mas tem um trabalho interessante, reflexivo, com as próprias imagens. Não sei, acho que é uma questão complexa mesmo de se abordar assim, sabe. Recentemente, no Forumdoc, se não me engano foi a Carla Maia que fez uma curadoria de uma mostra sobre mulheres. Teve uma discussão muito interessante sobre a presença da mulher, que eu acho que até faltou uma reflexão sobre a mulher na crítica.

MCB: Quando eu entrevistei a Ilana Feldman, ela falou um pouco isso, ela acha que o homem tem essa necessidade de esgotar um autor, por exemplo, que ele não fica descansado enquanto não vê tudo. Já no caso dela, por exemplo, interessava mais fazer um recorte, mas sem ter que esgotar uma filmografia. A mulher hoje ocupa várias áreas do cinema.

UR: Sem dúvidas.

MCB: Agora, na crítica me espanta um pouco essa ausência.

UR: Me espanta também, me incomoda, na realidade. Eu tenho um pouco isso assim, essa coisa cinéfila de ver muito filme, não de esgotar todos os cinemas, as filmografias, até porque eu acho que tive um início um pouco tardio. O Rafael, por exemplo, começou, sei lá, com 14, 15 anos, a ver filmes, em uma época que não trabalhava. Eu comecei no cinema em uma época que eu já trabalhava, não tinha muito tempo para isso. Eu tenho uma relação ótima com a Tatiana Monassa, da Contracampo, mas eu nunca tive essa conversa com ela para saber como funciona a cinefilia dela, que até acho que deve ser por essa coisa de se esgotar, de pensar e tal. A Ilana é mais acadêmica mesmo, assumidamente, faz um trabalho maravilhoso, acho que ela contribui reflexivamente de uma forma incrível. Eu tendo a concordar com a opinião dela, talvez a mulher procure algumas especificidades nas coisas, que desvincule o olhar um pouco dessa coisa mais ampla, tipo" vi todos os filmes do John Ford etc". Eu vejo tudo de filmografias que têm coisas que me dizem respeito.

 MCB: Você acredita em olhar feminino?

UR: Eu acredito.

MCB: Como você definiria isso, não, claro, esgotando o termo, mas o que você pensa sobre isso?

UR: Acredito sim, não tem como não dizer que não exista, mas você sabe que tem uma coisa que eu acho que é da essência feminina, e essência masculina. A mulher é muito dispersa, dispersa porque repara vários detalhes ao mesmo tempo, não sei se tem essa coisa maternal que bate, não sei. Eu acho que o homem tem uma capacidade mais profunda, digamos, de focar em uma coisa e ficar só nessa coisa, eu observo isso muito. Essa coisa do olhar feminino, pensado para a crítica, é o que eu falei, eu sou contra uma postura de defesa feminista, da presença da mulher, eu acho isso bobagem.  Comigo é assim, eu estava falando que eu tenho essa tendência em me esgotar em filmografias que me dizem coisas, isso eu já acho que é uma pequena diferença. Porque eu vejo muito na escrita, na reflexão das mulheres, um olhar que perpassa o sensível, que é um sensível não só estético, é um sensível temático também, entende? O homem, acho, consegue chegar e escrever um texto mais técnico, mais frio que também tem emoção, claro, que também tem poesia. Mas eu acho que a mulher tem uma, e não estou falando de todas, mas a grande maioria, uma coisa com o olhar sensível, que faz com que as escritas, o pensamento, e até as realizações sejam mais pontuais. O trabalho, por exemplo, de mulheres do cinema contemporâneo me atrai demais, é algo que eu penso, inclusive, para o doutorado. Nomes como a Agnès Varda, a Sofia Coppola, enfim, são mulheres que tem esse tipo de trabalho, que é um olhar muito sensível para algumas coisas específicas. A Varda, por exemplo, do amor, da solidão, ela tem uma coisa com o tempo, até a visão dela para as imagens passa por uma coisa supersensível de filmar a si mesma, de filmar essa deteorização.  Eu nem sei se estou respondendo à sua pergunta, mas eu acho que acaba que existe uma diferença entre a essência da mulher e do homem, e que se reflete nesse lugar. Agora, porque elas não estão na crítica, eu não sei te responder.

MCB: Nesse período que você vem escrevendo, ou seja, que você vem refletindo sobre o cinema, você consegue identificar isso na realização? O olhar feminino?

UR: Certamente.

MCB: Para além da temática?

UR: Eu acho que sim. Agora, por exemplo, você vai pensar em um Guerra ao terror da vida, eu acho que Kathryn Bigelow faz um filme de culhões, eu gosto do filme, ela não cai muito em uma coisa meio piegas, numa choradeira. Eu acho que é um exemplo de um filme de um olhar de uma mulher que traça um olhar que também não tenta ser masculino, eu acho interessante. Na realidade, eu não acho que deva ser assim enlaçado, entende, não tenho uma defesa de como a mulher deva se apresentar cinematograficamente não, agora que eu percebo olhares femininos eu percebo, enquanto que no homem talvez eu perceba uma pluralidade maior. Existem homens, o Bergman (Ingmar Bergman), por exemplo, o Domingos de Oliveira, eles olham para a mulher de um jeito incrível, uma curiosidade, uma sensibilidade. Eu acho que o Bergman filmou questões femininas como poucas mulheres talvez conseguiriam fazer. Agora, vai parecer até meio machista a minha posição, mas eu acho que a mulher talvez precise se afastar um pouco dessa postura. Não é que eu mulher tenho que me colocar artisticamente, temos que nos colocar não porque somos mulheres, mas porque temos verves artística ou acadêmica, intelectual, enfim. Eu sinto falta disso, eu gostaria até de saber das mulheres que escrevem porque elas não estão na crítica.

MCB: Eu acho essa questão muito complexa. Eu acho, por exemplo, que se há um olhar feminino ou um olhar masculino, o olhar feminino não quer dizer que seja da mulher, homem pode ter olhar feminino e mulher masculino. Como você acabou de citar, basta procurar na política, por exemplo, a Margaret Thatcher tem um olhar mais masculino.

UR: A Dilma, né?

MCB: É um assunto que eu sempre pergunto principalmente para quem trabalha nesse campo da reflexão, porque eu acho muito surpreendente serem poucas mulheres refletindo na crítica.

UR: Isso é engraçado mesmo, porque existe uma inclinação para o academicismo na mulher que é impressionante, eu sei de várias, a Carla Maia, que eu citei, por exemplo, escreve super bem, fala super bem. Eu gostaria de saber o que ela responderia, porque que ela não trabalha com crítica. Eu conversei com a Lila Foster anteontem e até brinquei com ela, das poucas da resistência feminina na crítica, e ela falou que não faz crítica há muito tempo. A Tatiana eu nem sei se ela escreve ainda para a Contracampo, sei que está na França há dois anos, não sei se é mestrado ou doutorado. Eu tenho esse interesse, eu acho que é algo que nunca vai me largar, eu posso até me afastar formalmente da Filmes Polvo, mas eu acho que nunca vou abandonar a crítica.

MCB: Já ia te perguntar isso: a crítica tomou um lugar definitivo na sua vida profissional e existencial?

UR: Sem dúvida, sem dúvida, eu acho que ela, inclusive, me ajuda muito no Cine Humberto Mauro. O trabalho do Rafael no Cine Humberto Mauro é mais conceitual que o meu, ele que é o curador das Mostras, apesar de eu auxiliar, dar minhas opiniões e de a gente fazer muita coisa juntos. Mas a crítica, voltando em uma coisa que eu falei lá no início, que eu acho que por isso que a critica nunca vai me abandonar, eu sinto algo muito forte me puxando para a poesia de novo, e não largar a crítica em detrimento disso assim, manter os dois. Quando eu entrei para a crítica houve um processo que foi longo, assim de me afastar dessa coisa muito poeticona de escrever, que me tirou da poesia. Engraçado, apesar que eu acho que não tem jeito, os meus textos eu acho que têm isso, um peso ou outro. Mas eu me achei em um olhar um pouco mais técnico também, e isso me acompanha o tempo inteiro para tudo. Mesmo que eu vá ver um filme sem ter que escrever sobre ele, no Cine Humberto Mauro eu estou sempre vendo filmes, se tornou algo natural eu pensar nas imagens, refletir nas imagens, e depois elas ficam na minha cabeça, pensar conceitualmente em autores. Eu acho que a crítica meio que entrou em mim, meio que encaixou muito com meus interesses profissionais e reflexivos, digamos assim.

MCB: Como aconteceu o Cine Humberto Mauro?

UR: O Cine Humberto Mauro foi uma felicidade do acaso, a sala estava passando por um período supercomplicado, o Afonso e o Téo haviam saído, o André havia tido uma experiência ruim lá dentro e a sala ficou dois meses sem ninguém pra chefiá-la. Daí o Rafael recebeu um telefonema da Fundação. Eu e o Rafael trabalhamos muito em dupla, tem essa coisa da Filmes Polvo, eu devo muita coisa do meu mestrado a ele. Eu também auxilio ele em muitas outras coisas.  Como o Rafael está envolvido em muitas coisas, tem lá o doutorado dele, ele colocou um pouco como condição eu entrar junto para a gente fazer, continuar esse trabalho de dupla lá dentro. Apesar de não gostar muito de produção, eu tenho um viés, um certo dom para trabalhar com isso. Daí, ele entrou com, digamos, uma incumbência de acertar as coisas politicamente, conceitualmente, e eu entrei com a parte mais administrativa, cuidar com o pessoal, lidar com o dia a dia da sala, organizar logisticamente o trabalho, então é um pouco assim que funciona.

MCB: Tráfego de filmes... 

UR: Tudo, eu faço tudo lá, mural, quadro de informação, funcionários, comunicação, eu que gerencio essa parte toda do que vai para a imprensa, o que vai para o site, o que vai para as peças gráficas, eu sempre sento com o pessoal da Comunicação lá para definir isso. É difícil trabalhar com cinema porque você está fadado a não ter carteira assinada, existe uma série de instabilidades, mas hoje eu me sinto bem realizada, eu fiz um mestrado, estou na Filmes Polvo, trabalho no Cine Humberto Mauro, querendo ou não o cinema tomou minha vida, eu me deixei ser levada pelo cinema, espero chegar na literatura.

MCB: Eu nunca entro no lado privado das entrevistadas, mas aqui eu acho importante, só pra ilustrar, porque você e o Rafael são casados, não é isso? Porque essa parceria é particular e profissional, e, eu imagino, vocês devem pensar em cinema quase o tempo todo, não é?

UR: É, na realidade nós fazemos uma busca até terapêutica de não fazer isso, a gente até consegue, mas é difícil.  Nos nossos primeiros meses de Cine Humberto Mauro a gente não conseguia falar de outra coisa no nosso ambiente privado. Mas é assim, querendo ou não, a gente ou está falando da estrutura do Palácio das Artes, do Cine Humberto Mauro, falando de projeto de reforma, ou falando da programação. Por força de contingência, estava todo mundo trabalhando em outras coisas, a Filmes Polvo passou por um período em que ficou meio parada. Mas agora nós vamos fazer uma reformulação grande no site, vamos trocar de novo o design dele, o site vai mudar, não vai ter mais colunas, nós vamos continuar, mas uma série de novos colaboradores foram convidados, então assim vai ter um fluxo de texto maior. Mas é mesmo difícil pra gente parar de falar de cinema, entendeu, mas eu acho que a gente consegue.

MCB: Você acabou atuando em duas frentes, o da reflexão e o da programação de sala.

UR: Docência também, eu dou aula na Escola Livre, eu até vou sair esse ano.

MCB: Que foi onde você iniciou.

UR: Dando a disciplina que o Rafael me deu, que é História de Cinema. 

MCB: A partir desses três campos, reflexão, educação e programação, como você vê o cinema brasileiro atual? Você acha que o cinema brasileiro está em bom ou em mau momento?

UR: Em termos de realização de criação eu acho que está em um excelente momento, em termos de penetração dessa variedade criativa, que eu acho que o cinema brasileiro tem. Existem as velhas discussões, né, problema de distribuição, domínio do mercado, é um trabalho que a gente tem tentado amenizar. Quer dizer, o Cine Humberto Mauro sempre teve esse papel de amenizar, a gente tem tentado dar continuidade para isso em termos de filmes brasileiros, que é o que a Raquel (Hallak), o Forumdoc, o que várias dessas Mostras e Festivais tentam fazer.  Nós temos tentado fazer no dia a dia, colocar filmes brasileiros nas salas. Por exemplo, agora nós estamos com uma estatística maravilhosa. O Cine Humberto Mauro tinha a Mostra Inéditos em BH e a Mostra Passou Batido, daí a gente resolveu juntar as duas, estamos com 25 filmes, eu não vou saber a quantidade exata, mas eu acho que pelo menos uns 10 ou 11 são brasileiros, que vão ser exibidos três vezes cada um durante um mês. Eu acho que o cinema brasileiro vive um período criativo maravilhoso, eu gosto muito do cinema brasileiro contemporâneo. Eu não gosto muito de comparação, mas eu sinto um pouco de falta, talvez, de uma militância política mais presente. Mas não sei, são outros tempos, acho que o mundo vive outros tempos.

MCB: E o que você acha sobre um pensamento que diz que o cinema brasileiro contemporâneo não sabe contar histórias? O que você pensa sobre isso? 

UR: Eu discordo. Mas quando você fala cinema brasileiro contemporâneo você fala todo o cinema, não é?

MCB: É, a produção atual.

UR: Tanto no comercial quanto no autoral. 

MCB: Sim.

UR: Eu discordo completamente.  O som ao redor, por exemplo, o Kléber Mendonça é um excelente contador, o No meu lugar, do Eduardo Valente, acho brilhante nesse sentido. Dos mais comerciais eu estou um pouco mais afastada. Na realidade tem isso, você começa a trabalhar no cinema e para de ir ao cinema, eu sofro desse mal. Eu gosto de acompanhar esses filmes mais comerciais brasileiros e tem um tempo que eu não os assisto. Ah, tem o Domingos de Oliveira que eu não citei, ele não é tão contemporâneo, mas faz cinema no contemporâneo. Eu discordo assim, eu já falei sobre a variedade, eu acho que se vê tudo hoje em dia, uma abertura para o experimental. Aliás, eu acho que o cinema brasileiro, talvez não mundial, mas o brasileiro especificamente, vive um momento para mim muito positivo, existe a reflexão sobre essas questões, mas não existe mais essa coisa cansativa de isso é ficção, isso é documentário, isso é vídeoarte, isso é experimental, isso é não sei o que, que eu acho que é um pouco prejudicial. Eu vejo um movimento muito positivo, de trânsito entre os gêneros, de um trânsito entre as figuras que fazem cinema no Brasil. Isso a gente vê aqui o tempo inteiro. O Gabriel Martins está em três, quatro filmes que estão na Mostra, os Pretti foram para Belo Horizonte, o Bruno Safadi agora mora em Belo Horizonte. Existe uma coisa colaborativa que eu acho que também contribui para o cinema estar cada vez mais variado, eu acho o cinema brasileiro hoje em dia muito rico.

MCB: Para terminar, as únicas duas perguntas fixas do site: qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você deixa registrada na sua entrevista como homenagem?

UR: De qualquer época, já que estamos falando de Domingos de Oliveira, acho que a Priscila Rozenbaum, uma figura que eu admiro imensamente. Eu admiro muito como ela se coloca artisticamente. Talvez porque eu e o Rafael fazemos muito esses trabalhos juntos, eu acho incrível o trabalho que ela faz com o Domingos. Acho ela uma grande atriz, gosto do programa dela no Canal Brasil, não sei se ainda passa, um  programa de entrevistas. Enfim, eu admiro ela profissionalmente, pessoalmente eu não tive o prazer de conhecer ainda, profissionalmente eu admiro pra caramba.

MCB: Qual o último filme brasileiro que você viu sem ser na Mostra?

UR: Provavelmente foi no Cine Humberto Mauro, acho que foi na Mostra Transições, que a gente fez, foram curtas os últimos filmes que eu vi. Nós fizemos uma Mostra de intercâmbio entre cinema e artes visuais, eu vi alguns novos do Cao (Guimarães).

MCB: Muito obrigado pela entrevista.


Entrevista realizada durante a 16a Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.