Ano 20

Clarice Niskier

Clarice Niskier tem quase 30 anos de carreira de teatro, e mais de 30 peças no curriculo. Desde 2006 faz sucesso com "A Alma Imoral", peça que montou para comemorar seus 25 anos de carreira, mas que permanece em cartaz até hoje. "A Alma Imoral" já foi assistida por mais de 90 mil pessoas, e nesse final de semana, de 5 a 7 de junho, retorna à Belo Horizonte no Teatro Seseiminas, em produção da Nó de Rosa. 

"A Alma Imoral" é um monólogo adaptado do livro homônimo de Nilton Bonder: "O livro despertou a coragem em mim, a coragem que todos nós temos e que fica adormecida, a coragem de se ouvir, de procurar a autenticidade. Porque nós vivemos em um contexto de massa, somos bombardeados de informações impessoais, que nos diz o que pensar, o que comer, o que vestir. E isso não é para a gente em especial, levando em conta a nossa sensibilidade. Ele me fez prestar atenção em minha sensibilidade. E a peça “A Alma Imoral” não é uma mega-show, é para 200, 300 pessoas por sessão. Então eu acho que ela bate muito nessa história da pessoa, as rupturas, as transgressões que ela está se devendo".

Clarice Niskier tem trabalho notável também no cinema, sobretudo em sua parceria com o cineasta Domingos Oliveira. Com ele fez "Amores" e "Feminices": "A relação artística com o Domingos é muito bonita, ele aposta muito na intuição, na espontaneidade, na primeira intuição. Com ele a gente só fazia três vezes cada cena, uma para ver, outra pra valer, e outra para garantir. Era também para não gastar material, mas era também uma aposta nessa espontaneidade. E aí eu ficava “só mais uma, só mais uma”. E ele “não, não tem tempo, já foi”. 

Clarice Niskier atuou também em filmes de Emiliano Ribeiro - "Viagem de Volda" e "As Meninas - e de Moacyr Góes - "Maria, Mão do Filho de Deus, e vai atuar em "As Vidas de Chico Xavier", de Daniel Filho. A atriz , que está em Belo Horizonte para apresentar "A Alma Imoral", conversou com o Mulheres por telefone. Na entrevista abaixo, ela fala sobre "A Alma Imoral", sobre o trabalho no teatro, na televisão, e, claro, no cinema.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Como foi transportar o conteúdo denso do livro “A Alma Imoral” para o teatro?

Clarice Niskier: Quando eu li o livro ele tocou os meus sentimentos. E aí eu queria expressar toda a complexidade racional que está nele, que é muito forte, para a linguagem teatral. Eu queria atravessar aquele conteúdo para chegar à linguagem teatral. Porque uma das características do teatro é a síntese. Basta uma frase para você dizer uma página, pois há muita informação, tem a luz, a música, o ator, já há muita informação ali.

E eu vinha de dois monólogos, o primeiro sobre obra da Clarice Lispector (“Um Ato Para Clarice), que não era uma história, eram mais reflexões. Não era um roteiro meu, era do Eduardo Votzik, mas que me deu uma experiência de atriz muito importante. E o outro foi o “Buda”, com o Domingos Oliveira. 

“A Alma Imoral” partiu de um sentimento no coração, foi uma travessia fazer o roteiro desse livro. Foram dois anos para chegar até a estréia. E fomos trabalhando, é um texto em que está sempre se mexendo.

MCB: A montagem marcou os seus 25 de carreira em 2006, só que a peça continua em cartaz e já foi vista por mais de 90 mil pessoas. A que você atribui o fato dela ter tocado tantas pessoas?

CN: O livro despertou a coragem em mim, a coragem que todos nós temos e que fica adormecida, a coragem de se ouvir, de procurar a autenticidade. Porque nós vivemos em um contexto de massa, somos bombardeados de informações impessoais, que noz diz o que pensar, o que comer, o que vestir. E isso não é para a gente em especial, levando em conta a nossa sensibilidade. Ele me fez prestar atenção em minha sensibilidade.

E a peça “A Alma Imoral” não é uma mega-show, é para 200, 300 pessoas por sessão. Então eu acho que ela bate muito nessa história da pessoa, as rupturas, as transgressões que ela está se devendo.

MCB: A peça tem a supervisão de direção do grande Amir Haddad. Como se deu essa supervisão?

CN: Realmente, o grande Amir Haddad. Ele é fundamental em todo o processo. Eu fiquei muito curiosa com esse negócio de supervisão, e o Pedro Cardoso me falava muito dessa supervisão do Amir. Eu tinha intuição do que ia fazer, e o trabalho preciso do Amir é que ele segue o trabalho do ator, o caminho que o ator escolheu. Então funcionava muito para eu não perder a ponte que eu estava construindo, para não perder a margem do lado de lá. 

Ele assiste uma vez por mês, então ele sabe o que eu estou sentindo, com a notícia que tem ver com “A Alma Imoral” naquele momento. Você se lembra daqueles africanos escondidos em um navio querendo entrar no Brasil? Então, eu e o Amir ficamos uma hora ao telefone falando sobre isso. Então o trabalho tem muito disso, da força do ser humano, de sair do lugar que horroriza o ser humano. Aqueles homens ali, confinados em um navio, em um espaço mínimo, mas lutando.

A peça tem também o trabalho do José Maria Braga, que é meu marido. Ele faz a trilha, fez a trilha também do “Buda”, uma trilha linda. Em “A Alma Imoral” ele entrou também na direção de produção, ele foi fundamental porque eu precisava de alguém para segurar esse lado. 

E tem também o Nilton Bonder. O sucesso se deve muito a essa relação de tamanha consciência. 

MCB: Você disse que o Nilton Bonder acompanha o trabalho. Ele fez isso a partir de qual momento? Foi durante a montagem ou foi depois da peça pronta? E você teve medo dele não gostar?

CN: Ele foi a primeira pessoa para quem eu li o texto depois do meu marido. Isso foi em 2004. A peça estreou em 2006 e hoje estamos no 16ª tratamento. Então eu apresentei para ele esse primeiro tratamento, que é como a gente chama. Só estava eu e ele, e aí, no final, ele disse, “ está autorizado”.

Eu tive medo enquanto atriz, pois eu começo a peça nua. Mas é porque no texto tem uma passagem que diz que não há nudez na natureza, e eu entendi que eu só poderia fazer isso estando nua. Daí eu fiquei com um pouco de medo pelo fato dele ser um rabino. Eu fiz uma sessão exclusivamente para ele, chamei uns 30 amigos, e apresentei para ele, para ver se ele ia aprovar essa estética. Ele foi com a esposa, e me disse “eu li a sua alma”.

Então foram esses dois medos que eu tive. O primeiro dele não gostar da adaptação e o segundo da nudez. E olha, mesmo para a comunidade judaica, a nudez nunca agrediu, eles compreenderam.

MCB: Muitos atores têm medo de monólogos, mas esse, parece-me, não é o seu caso, já que encenou outros. Como se dá esse seu interesse pelo formato, ele te desafia?

CN: Sim, me desafia, me dá uma liberdade muito grande, me dá espaço para experimentações, testa meus limites, me dá idéias, é uma outra maneira de pensar o teatro. 

MCB: E como se deu a sua passagem para o cinema? Os seus dois primeiros trabalhos foram com o Emiliano Ribeiro, em “Viagem de Volta” (1990) e em “As Meninas” (1995), não é isso?

CN: Sim, com o Emiliano. Essa passagem vai acontecendo naturalmente, eu recebo convite e vou. O cinema está entranhado na nossa cultura. Desde criança eu era louca por cinema, dizia que ia ser fotógrafa de cinema. Eu assisti “Cinzas do Paraíso” (1978 – Terrence Malick) e fiquei impressionada. O cinema é muito atraente, mas eu fiz poucos filmes ainda, o teatro acaba ocupando todo o meu espaço. Mas quando sou chamada eu vou.

MCB: Depois você atua com o Domingos Oliveira em um filme importante que é o “Amores” (1998), em que você faz a personagem Luíza. É um trabalho precioso seu, que a gente já vê desde a abertura do filme naquele seu show de piadas. Como foi compor essa personagem que, na procura de um grande amor, se joga às possibilidades, e aí tem essa coisa de falar da paixão, de AIDS.

CN: Eu amo esse trabalho. A Luiza, como você mesmo disse, é essa mulher querendo viver um amor, custe o que custar. E aí custa muito para ela ficar com ele (a paixão que ela encontra), e custa muito para ela se despedir dele. 

A relação artística com o Domingos é muito bonita, ele aposta muito na intuição, na espontaneidade, na primeira intuição. Com ele a gente só fazia três vezes cada cena, uma para ver, outra pra valer, e outra para garantir. Era também para não gastar material, mas era também uma aposta nessa espontaneidade. E aí eu ficava “só mais uma, só mais uma”. E ele “não, não tem tempo, já foi”. 

MCB: Depois você faz com ele o “Feminices” (2004), que é uma adaptação da peça “Confissões de uma mulher de 40”, que você escreveu. Além das diferenças óbvias dos veículos, você viu muita diferença entre a peça e o filme? Porque para a gente que assiste ao filme há um frescor ali que faz parecer que aquelas coisas, inclusive a escrita daquelas mulheres, está acontecendo naquele momento.

CN: Eu escrevi. Na verdade, eu fiz a carpintaria dos diálogos. As meninas, Cacá (Mourthê), Priscila (Rozenbaum), Dedina (Bernardelli) e o Domingos me davam as histórias e eu ia para casa para escrever. Isso é porque eu tenho muita disciplina para escrever, então eu quis fazer isso.

O filme tem o mesmo frescor que a peça, e isso é uma característica do Domingos, a de manter o frescor. Tinha o mesmo clima de alegria, como se estivéssemos falando ali, pela primeira vez.

MCB: E tem o “Maria, Mãe do Filho de Deus” (2003), do Moacyr Góes. O Moacyr é também um homem do teatro, o convite dele para você atuar no filme surgiu a partir daí?

CN: Acredito que sim, quando a gente se viu ele me disse que gostava dos meus trabalhos no teatro, eu acho que o convite foi fruto desse conhecimento. Como agora, por exemplo, a produtora do Fernando Meirelles, Cecília, me viu em “A Alma Imoral” e me convidou para fazer um teste para o próximo filme dele. É um teste, não sei se vou atuar no filme.

MCB: Mas no novo filme do Daniel Filho sobre o Chico Xavier (“As Vidas de Chico Xavier) você já está escalada, não é? Ou foi só teste?

CN: Já estou escalada, só falta agora a gente fechar a agenda. Como as filmagens serão em julho e eu estarei com “A Alma Imoral” nos palcos, só falta a gente fechar a agenda. 

MCB: Interessante você estar no novo filme do Daniel, porque na TV você atuou em duas notáveis produções dele que são “Confissões de Adolescente” (1994) e “A Vida como Ela É” (1996). Além, claro, de já ter atuado novelas. Como é esse veículo para você?

CN: Eu sou aquele tipo de atriz que vai quando é chamada. É assim, como eu posso dizer... é um momento extraordinário, não é da minha rotina. Quando eu estou em uma novela é como se eu estivesse de férias do teatro.

Eu acho que eu ainda não domino a linguagem, é uma aventura. Quando eu faço uma cena boa eu fico feliz igual criança, e se não fica bom eu fico triste. É um tempo rápido. Eu fiz “Ciranda de Pedra” (2008) e ali eu senti que já foi melhor que a anterior, tem cenas ali que eu vejo uma atriz aprendendo para a televisão, e não uma atriz de teatro fazendo televisão.

É tudo muito diferente, o volume de voz, o olhar, o corpo, é uma energia diferente. O teatro é um vôo de asa dela, não tem como parar, não tem como voltar. Já na TV você vai e volta, faz cenas sem ordem cronológica. É um trabalho que eu admiro muito, de quem consegue ter essa energia. E eu estou me movimentando também para ser atriz para fazer esse veículo.

MCB: Qual foi o último filme brasileiro a que você assistiu?

CN: Qual o último filme brasileiro que assisti... o último... Nossa, difícil me lembrar, pois tem muito tempo que não vou ao cinema, deve ter mais de quatro meses. É porque eu estava fazendo teatro de segunda à domingo. Eu fiz “Maria Stuart” (direção de Antonio Gilberto), com a Julia Lemmertz, durante três meses, e daí eu passei “A Alma Imoral” para os horários alternativos. Então eu fiquei com as duas peças em cartaz.

Último filme, último filme... Nossa. Difícil lembrar.

MCB: Eu sempre convido minhas entrevistadas para fazerem uma homenagem a uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área. Quem é a sua homenageada aqui nessa entrevista?

CN: Julia Lemmertz. Eu acabei de fazer “Maria Stuart”, ela como Mary e eu como Elizabeth. E eu aprendi a conhecer essa atriz maravilhosa. Grande atriz, grande pessoa, grande parceira.

MCB: E o filme brasileiro...

CN: Olha, não foi o último, pois não consigo me lembrar, mas dos últimos um que adorei foi o “Fábio Fabuloso” (2004 – Pedro César, Ricardo Bocão e Antonio Ricardo), um documentário sobre surf. Eu adorei esse filme e dei o DVD de presente para várias pessoas. Esse ficou no meu coração.

MCB: Muito obrigado pela entrevista. 

CN: Eu é que agradeço.



Entrevista realizada em junho de 2009.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.