Ano 15

Helena Solberg

Uma das poucas cineastas brasileiras que surgiram nos anos 1960 – dirigiu os curtas A entrevista (1966) e Meio-dia (1969) – Helena Solberg desenvolveu longa trajetória como documentarista nos Estados Unidos. Sempre fascinada com olhar do estrangeiro sobre a nossa cultura, como conta ao Mulheres, em 1995 dirige Carmen Miranda: banana is my business”: “sempre me interessou a questão da América Latina, essa questão também do americano sobre a América Latina, essas relações do estrangeiro, e Carmen era perfeito para isso. 

Helena Solberg esteve na 8a Mostra de Cinema de Tiradentes para lançar o filme Vida de menina, seu primeiro longa de ficção, e que por sua vez é um olhar sobre uma personagem real, auto-retratada em Minha vida de menina, o diário de Helena Morley. O filme foi o vencedor de vários Kikitos no Festival de Gramado, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. 

Helena Solberg conversou com o Mulheres em entrevista exclusiva e conta como estreou como diretora nos inesquecíveis anos 60, tempo do Cinema Novo. A diretora fala também sobre seus primeiros curtas, sobre a escolha de Carmen Miranda como objeto fílmico, sobre a Lei do Audiovisual, sobre como conheceu  o diário de Helena Morley, porque resolveu levá-lo para o cinema e a escolha de Ludmila Dayer como protagonista. Ela fala também sobre um tema que lhe é caro, o olhar estrangeiro sobre a nossa cultura, e homenageia Carmen Santos, Ana Carolina e Sandra Kogut.


Mulheres do Cinema Brasileiro: Depois de uma importante trajetória como documentarista você agora envereda pela ficção. É uma carreira longa, mas conte como se deu seu interesse pelo cinema? 

Helena Solberg: Eu fiz parte de uma geração, eu convivi muito próxima do Cinema Novo. Eu fiz a PUC na mesma época que o Jabor (Arnaldo) e o Cacá (Carlos Diegues), nós nos conhecemos lá, a gente vivia sempre lá. E quando fui trabalhar no jornal da União Metropolitana dos Estudantes, chamado O Metropolitano, dirigido por Nelson Condé, nós todos estávamos nesse jornal. Então, essa convivência foi me despertando a ir às filmagens. Eu fiz continuidade em Capitu (1968), do Paulo César Saraceni, eu fui para São Gonçalo do Rio das Pedras quando o Joaquim (Pedro de Andrade) estava filmando O padre e a moça (1965). Assisti as filmagens, fiquei por lá, fui chegando muito perto e ficando com vontade de fazer também.

Aí eu fiz o meu primeiro filme, chamado A entrevista, e que já tem um pouco essa mistura minha que eu acho interessante, e que não era uma coisa totalmente consciente, que é essa coisa de documentário e ficção misturados. Eu saí entrevistando moças da PUC, de formação burguesa como eu, sobre casamento, sexo, política. Eu andava com um Nagra pendurado no ombro, fazendo um áudio, e com esse áudio eu criei uma imagem meio que mítica sobre a mulher se preparando para o casamento. Mário Carneiro foi quem fotografou, é lindíssima a fotografia. É um filme em preto e branco de uma moça sendo vestida como em um ritual para o casamento, e, ao mesmo tempo, essas entrevistas meio que desmistificam aquela imagem, vão fazendo e costurando um comentário sobre aquilo.

Depois eu fiz Meio-dia, um curta que muita gente não viu e que eu quero trazê-lo de volta. O filme tem um pouco a ver com a ditadura e com a repressão naquele momento, é com uma música de Caetano Veloso, É proibido proibir, e é uma revolta dentro de uma sala de aula em que as crianças acabam superando o professor, matam o professor. É uma ficção curta, eu filmei, inclusive, em 35mm, uma loucura.

MCB: Você é uma das primeiras mulheres a filmar nos anos 60... 

HS: Ana Carolina já filmava.

MCB: Pois é, mas não foram muitas. Como era filmar lá nos anos 60 e como é filmar hoje, era mais difícil ou não? 

HS: Ai meu Deus, eu não sei.

MCB: Eu digo em nível de produção mesmo, em condições para filmar. 

HS: Era muito precário naquela época. Por exemplo, em A entrevista havia a CAIC – Comissão de Ajuda à Indústria Cinematográfica. Eu conversei muito com o Glauber (Rocha) antes de fazer esse filme, sobre o que eu queria fazer, como eu queria fazer. Eu fui procurar também investimentos, amigos que investissem. É evidente que foi uma coisa meio que feita entre amigos, entendeu? Também era um curta, meu primeiro filme, e nessa época eu não estava pensando ainda em um longa-metragem. Minha experiência nesse sentido é mais particular, muito minha só. Mas quando eu trabalhei em Capitu já era um cinema indústria, já era para o grande público o que o Paulo queria fazer, é uma outra coisa.

Eu acho que agora tem um entupimento, a Lei do Audiovisual está nos dando a possibilidade de fazer os filmes, mas não está cuidando da outra parte que é a distribuição e o lançamento. Então há um entupimento aí, porque há muitos filmes esperando para serem lançados, não existem salas de cinema. Eu acho que é um momento muito importante, que nós temos que prestar atenção e participar politicamente, é o que a Abraci está fazendo em defesa também da Ancinav. Temos de lutar para que isso aconteça, para que finalmente a gente tenha um cinema importante, de indústria, para que as pessoas possam viver dele também. Não dá essa imagem do cineasta como um marginal, uma pessoa que faz um filme para comprar um apartamento, é muito estranho tudo isso, as pessoas não entendem, cinema é muito caro, né?

MCB: Olhando a sua trajetória, dos anos 60 até agora, qual foi o seu olhar ao escolher a Carmen Miranda como objeto do seu filme Carmen Miranda: Banana is my business, que é, entre os produtos culturais sobre o tema, um projeto importante e que lançou luzes sobre esse mito internacional? 

HS: Eu trabalhei muito fora do Brasil, fiquei fora quase trinta anos e fiz muitos filmes lá (Estados Unidos). Sempre me interessou a questão da América Latina, essa questão também do americano sobre a América Latina, essas relações do estrangeiro, e Carmen era perfeito para isso. Ela estava no meio dessa coisa, ali existe uma coisa que nos incomodava muito sobre ela, sobre o fato de que ela virou uma imagem do país, não só do país, mas da América Latina. Aquela mulher com aquelas frutas na cabeça virou mesmo um ícone. E eu gosto muito disso, esse olhar que o estrangeiro tem sobre nós.

Esse filme que eu estou lançando agora, Vida de menina, tem isso também, porque ela era uma menina de origem inglesa, e esse olhar do pai, esse humor que o pai tem sobre aqui ela transmite para a vida, e isso dá ela a oportunidade de dar um passo atrás e ser irreverente também. Eu gosto muito disso, é um tema que sempre me interessou.

MCB: É interessante isso que você está dizendo, porque, aparentemente, seria assim: o Carmen Miranda: Bananas is my business um documentário e o Vida de menina uma ficção; e não teria essa ligação. 

HS: Veja, meu pai era norueguês, escandinavo que veio para o Brasil, que casou com uma brasileira, e eu tenho um pouco dessa divisão dentro de mim também. É por aí, na verdade, eu nem tinha pensado nisso.

MCB: E para o Vida de menina? Como você descobriu esse livro e quando você resolveu transformá-lo em filme? 

HS: Tem uns cinco anos. Eu comecei a achar interessante quando eu li a correspondência da Elizabeth Bishop. Ela veio ao Brasil e perguntou ao Rubem Braga qual era o primeiro livro brasileiro que ele a aconselhava ler e ele disse o diário de Helena Morley - Minha vida de menina. Existe um culto em volta do Diário, havia umas pessoas que se reuniam para conversarem sobre o li livro, Darcy Ribeiro, o Dr. José Midlin, o Rubem, o Carlos Drummond de Andrade. E esse livro é muito estranho porque não é literatura, é o diário de uma criança, todo dia ela escreve uma história. É impressionante.

MCB: E você quando conheceu passou a também se encantar? 

HS: É, ele é estranho, você pode abrir em qualquer página, você pode ler de trás para diante, ele não tem história. Foi complicado fazer o roteiro, preservar esse aspecto episódico, de diário na estrutura. Ao mesmo tempo não é uma adaptação porque é o meu olhar em cima do dela, é o crescimento dela, é sair da adolescência e aceitar o mundo em volta dela. Aquela sede que a gente tem de crescer, e de repente, estando na província. É muito bonito.

MCB: A Ludmila Dayer é uma atriz essencialmente cinematográfica. Como foi a escolha dela? 

HS: A Lud, veja bem, ela fez a Carlota Joaquina - Pryncesa do Brasil quando era uma menininha. Ela aliás começa o filme sentada conversando e depois ela faz a Carlota jovem, sendo apresentada ao Imperador. Eu adoro aquela imagem e fiquei com ela na cabeça, mas depois eu disse “não dá, ela já está com 19 anos e vai ficar ridículo fazer o papel de uma menina”. E aí fiquei procurando, fazendo testes e testes, e finalmente pensei em chamar a Lud para dar uma olhadela e ver como ela estava. Aí ela veio, e foi realmente maravilhosa, ela dá um show.

Você viu o filme?

MCB: Sim. 

HS: Ela faz você acreditar que ela realmente tem aquela idade.

MCB: Exatamente. Você está lançando o DVD do Carmen Miranda: Banana is my business, não é isso? 

HS: Agora, nas comemorações de 50 anos da morte de Carmen Miranda, vão acontecer muitos eventos. O Ruy Castro está terminando uma biografia, e nós estamos lançando o DVD com cenas extras que não apareceram no filme, entrevistas que a gente usou só frases aqui e ali, “making off”, muito legal.

MCB: Para encerrar, eu queria que você citasse alguma diretora do cinema brasileiro que você gosta, de qualquer época? 

HS: Carmen Santos. Gosto muito também de Ana Carolina. E tem umas pessoas novas... eu gosto muito da Sandra Kogut. Eu acho “Passaporte Húngaro” uma graça de filme, muito bom, eu gosto muito mesmo. Você agora me pegou desprevenida.

MCB: Mas é a intenção mesmo, é saber as pessoas que vem de imediato. Muito obrigado pela entrevista. 

HS: Obrigada você.


Entrevista realizada em fevereiro de 2005 durante a 8a Mostra de Cinema de Tiradentes.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.