Ano 15

Margareth Galvão

Margareth Galvão é uma atriz com longa carreira no teatro e que tem o talento também registrado no cinema. A carreira nos palcos começou aos 19 anos estudando na Escola Fundação das Artes, em São Paulo. A atriz viveu em várias cidades: São Paulo, Berlim (Alemanha), Belém, Rio e Vitória – está radicada no Espírito Santo há mais de 20 anos. A estreia no cinema foi em longa importante sem nunca ter feito nada antes no formato: “Eu tinha pavor da minha imagem, e aí o Sergio Rezende chegou pra pegar um elenco pra fazer o Lamarca. Aí alguém me falou “você tem que ir, é só um teste de fotografia”. Eu fui e o Sergio Rezende olhou pra mim e falou ‘não, você vai ser a guerrilheira que vai ter a cena com a Carla Camurati’. Daí falei ‘então tá bom, vamos embora, mas nunca fiz cinema, hein’.

Começava com Lamarca uma trajetória de curtas e longas no currículo. Um encontro com Rodrigo Aragão a projetou no imaginário do cinema de gênero atuando em três produções do cineasta capixaba que vem revigorando o gênero horror no Brasil: A noite do chupacabras (2011) e Mar negro (2013) – ambos dirigidos por ele -, e As fábulas negras (2014), em que atua em episódios dirigidos por Petter Baiestorf e Joel Caetano: “É uma relação de amizade, em primeiro lugar. É divertidíssimo fazer cinema com eles, a gente se diverte muito, ri muito, é mais uma relação de amigos. Como esse é o terceiro filme que faço com ele, ele me conhece e eu conheço o que ele quer, o que o diretor de fotografia quer. Enfim, a gente acaba tendo uma afinidade maior e isso acho que facilita, dá mais prazer e enriquece.”. A atriz atua também em outra produção capixaba que está debutando nas telas, o belo Teobaldo morto, Romeu exilado, segundo longa de Rodrigo de Oliveira.

Margareth Galvão esteve presente no lançamento de As fábulas negras e Teobaldo morto, Romeu exilado, na 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes. A atriz conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro e falou sobre sua trajetória.


Mulheres do Cinema Brasileiro: Para a gente começar eu preciso que você fale primeiro o seu nome, cidade em que nasceu, data de nascimento e formação. 

Margareth Galvão: Bom, meu nome é Margareth Galvão, nasci em São Paulo, vivi 30 anos lá, onde comecei a estudar teatro com 19 anos. Depois me casei, tive um filho e fomos morar na Alemanha, em Berlim. De Berlim voltamos para o Brasil, fomos para Belém e depois voltamos para o Rio. Por fim, do Rio fomos para o Espírito Santo, onde estou radicada há mais de 20 anos.

MCB: Uma epopéia.

MG: Um pouco, mas é bom.

MCB: E a carreira de atriz?

MG: Eu comecei com a Escola Fundação das Artes, em São Paulo.

MCB: Quando?

MG: Em 1973.

MCB: Os primeiros trabalhos foram nos palcos. 

MG: É, aí fiz vários trabalhos em teatros. Eu comecei a fazer cinema no Espírito Santo em 1994, aliás, 93, com o Lamarca (1994, Sérgio Rezende).

MCB: Como foi que você chegou ao cinema? Era um desejo seu? Você correu atrás de teste ou foi convidada? 

MG: Eu tinha pavor da minha imagem, e aí o Sergio Rezende chegou pra pegar um elenco pra fazer o Lamarca. Aí alguém me falou “você tem que ir, é só um teste de fotografia”. Eu fui e o Sergio Rezende olhou pra mim e falou “não, você vai ser a guerrilheira que vai ter a cena com a Carla Camurati”. Daí falei “então tá bom, vamos embora, mas nunca fiz cinema, hein”. No ano seguinte teve um outro filme no Espírito Santo, do Amylton de Almeida, O amor está no ar (1997), que acabou indo pra Gramado, eu fazia a mãe do Marcos Palmeira. A Eliane Giardini ganhou o Kikito de Ouro daquele ano, 1997, se não me engano. E aí eu comecei a fazer curtas, vídeos e longas. Eu acho que estou no 23º ou 24º quarto trabalho.

MCB: Ainda no tempo do Lamarca, que foi o primeiro filme e que você tinha um certo pavor da sua imagem. Você consegue se lembrar da sensação do primeiro set? Como foi, esse medo continuou, foi frio na barriga?

MG: Não, foi super tranquilo. Isso que me espantou também porque foi na mata, foi no meio do mato a externa, e eu estava absolutamente tranquila. E aí eu gostei, fui mordida pelo bicho do cinema.

MCB: Você citou o O amor está no ar.  Daí pra frente você foi sendo convidada, ou, como já queria fazer cinema, você se submeteu a testes? 

MG: Olha, as pessoas me convidam, raramente eu vou fazer teste porque eu trabalho muito no Espírito Santo com teatro e as pessoas me procuram.

MCB: Mesmo cineastas que não são de lá? Porque lá você trabalha com o Rodrigo Aragão, trabalhou agora com o Rodrigo de Oliveira.

MG: E com muitos outros.

MCB: Mas mesmo os ouros cineastas foi porque eles te viram no teatro lá?

MG: Sim.

MCB: Você poderia falar um pouco sobre alguns filmes antes da gente chegar no Aragão e no Rodrigo? 

MG: Eu falei no O amor está no Ar, falei em vários curtas e vídeos, longas. Esse é o terceiro filme que eu fiz com o Rodrigo Aragão, o terceiro com ele e o primeiro com o Rodrigo de Oliveira.

Tem A morte da mulata, que é um filme de um capixaba que mora na Itália, tem o Edson Ferreira que fez esse filme (Entreturnos – o filme) que estreou no ano passado lá, mas é simplesmente uma ponta. Porque tem umas coisas, no cinema às vezes você faz cenas e cenas e na hora da montagem às vezes a cena é sacrificada, então nesse outro longa foi sacrificada, então ficou uma participação muito pequena.

MCB: Você poderia falar sobre alguns curtas? 

MG: Tem o Baseado em histórias reais (2002, Gustavo Moraes), que foi um curta que ganhou alguns prêmios, isso foi acho que em 2001, 2002, por aí. O Pela janela (2014, Diego de Jesus), que estreou agora. O Distopia, que estreou agora também, que eu fiz no ano passado praticamente junto com o do Rodrigo de Oliveira.

MCB: Você se revelou para público do cinema de gênero com o Aragão. Como se deu esse encontro?

MG: Bom, eu dou aula de interpretação em Vitória, eu dei aula pra esposa dele, a Mayra Alárcon, e aí a gente já começou a ficar amigos. Ele já tinha me visto atuando e aí me chamou para o primeiro filme, que foi o A noite do chupacabras. O segundo foi O mar negro e o terceiro agora As fábulas negras, que também foi a primeira vez que fui dirigida pelo Joel Caetano, nunca tinha trabalhado com o Joel e nem com Petter Baiestorf.

MCB: Como é ser dirigida pelo Aragão? Como é entrar nesse universo dele, que é uma pessoa que está revigorando, junto com o Joel, com o Petter, e outros, o gênero do cinema de horror?

MG: É uma relação de amizade, em primeiro lugar. É divertidíssimo fazer cinema com eles, a gente se diverte muito, ri muito, é mais uma relação de amigos. Como esse é o terceiro filme que faço com ele, ele me conhece e eu conheço o que ele quer, o que o diretor de fotografia quer. Enfim, a gente acaba tendo uma afinidade maior e isso acho que facilita, dá mais prazer e enriquece.

MCB: E você já gostava de cinema de horror ou foi uma novidade?

MG: Nunca, nunca, nunca.

MCB: E gosta atualmente? rsrsrs

MG: Olha, eu gosto de assistir aos filmes do Rodrigo, porque eu tenho pavor de outros, juro.

MCB: Você poderia falar pelo menos um pouco sobre essas personagens que você fez nesses três filmes com o Aragão? 

MG: Bom, mãe é sempre né, porque com 61 anos de idade. Aliás, você pediu também para eu falar minha idade, eu nasci em 20 de setembro de 1953, tenho 61 anos. Bom, mas com 61 anos, nessa idade, e tem essa coisa da voz, porque a minha voz é grave embora agora eu esteja muito afônica. Ela dá a sensação que eu sou uma fortaleza, o que, obviamente, não sou, mas ela impressiona um pouco. A Paula Gaitán, eu achei até interessante, virou para mim ontem e falou assim “Sua voz é quase um entidade”, Daí eu falei “pelo amor de Deus, o que é isso, ela me pertence rsrsrs”. A minha voz sempre foi grave, desde criança. Eu comecei a trabalhar na Rádio Record com rádio-teatro, em São Paulo, e eu só fazia as bruxas, as malvadas, que tinham essa voz grave.

Desde o primeiro filme com o Rodrigo eu não saí do papel de mãe, né? Mãe de uma família que briga com a outra, que destrói a outra, que foi no primeiro, no A noite do chupacabras. No Mar negro é uma cozinheira de um bordel, uma cozinheira absurda de tão porca, eu brinquei muito e isso foi divertidíssimo, brinquei muito com o meu personagem. E o terceiro nem foi com o Rodrigo foi com o Baiestorf e o Joel, o As fábulas negras, que eu gostei muito também.

MCB: Que é um projeto do Rodrigo. Me fale do As fábulas negras.

MG: O Joel Caetano chegou pra mim e disse que o Rodrigo falou que os atores não podiam aparecer duas vezes – (As fábulas negras é filme em episódios). E eu já tinha feito o filme do lobisomem (episódio Pampa feroz), do Petter Baiestorf. Mas aí o Joel bateu o pé e falou “eu quero é ela”, eu adorei e lá fui eu fazer a personagem (episódio A loira do banheiro). Bom, eu achei estranho porque eu e o Rodrigo, nós temos uma diversão assim. Não é que Joel não tenha, mas é que o foco da direção dele já era uma coisa menos trash, digamos, menos bem humorada, e mais focada na mulher má, na maldade. E aí eu gostei também disso.

MCB: E é uma personagem ótima, não é?

MG: A personagem e a maneira como ele pediu também, ele não pediu pra fazer uma coisa trash, como a cozinheira, por exemplo, do outro filme do Rodrigo. Era pra fazer sério mesmo.

MCB: A exposição da personagem te incomoda ou não?

MG: Não, nenhuma.

MCB: Porque é muito bacana aquela personagem.

MG: Nenhuma, nenhuma, adorei fazer aquela personagem, adorei, agradeci muito ao Joel.

MCB: E ela é forte no filme.

MG: É forte, é uma assassina em potencial, assassina terrível, porque ela mata. Todo mundo me fala “Você é a loira do banheiro?” Não, eu mato a loura do banheiro, eu trucido a loura do banheiro rsrsrs. 

MCB: Tem o do outro episódio que é o do Petter, que é o Pampa feroz.

MG: Que também havia outras cenas, mas na hora de fazer a montagem acabou cortando. Eu só apareço assim como a mãe também, e com um pentagrama enorme nas costas e tal, desenhado. Daí fica subentendido que eu era amiguinha do lobisomem, que eu protegia o lobisomem.

MCB: Vamos falar agora do Teobaldo morto, Romeu exilado, do Rodrigo de Oliveira, outra produção do Espírito Santo. Qual você filmou primeiro, ele ou As fábulas?

MG: O primeiro foi o do Rodrigo de Oliveira.

MCB: Como foi trabalhar com o Rodrigo nesse filme tão bonito?

MG: Eu gostei muito; Por exemplo, ele comentou do processo (durante o debate na Mostra) que o ator não necessariamente precise dar conta de tudo, a última fala dele foi essa e eu achei isso interessante, uma experiência interessante. Porque também isso dá margem pra gente colocar coisas, não ser tão exatamente dirigido, mas você colocar coisas. Os dois diretores, na verdade, me deixam muito à vontade, a gente delineia mais ou menos o personagem, mas eles me deixam a vontade pra fazer. O Rodrigo de Oliveira me deixou tão à vontade que na cena da casa eu dei três versões da cena pra ele e ele misturou essas versões na montagem final.

MCB: Uma outra coisa interessante no Teobaldo é que você, a Sara Antunes, o Alexandre Cioletti, o Rômulo Braga são todos com uma carreira grande no teatro.

MG: Sim.

MCB: E ali em um outro registro, que é o cinema. Como foi esse convívio?
 MG: Nossa, foi adorável, adorável com os três, adorável. Bom, eu consegui três amigos e isso pra mim também é muito importante, sair de um trabalho e restar algo dele pra minha vida pessoal.

MCB: Você está envolvida em outro projeto agora?

MG: Por enquanto não.

MCB: Vai acompanhar o lançamento? Aqui foi a primeira exibição.

MG: Primeira vez, nem sei se vou.

MCB: Se for convidada vai.

MG: Se for convidada eu vou, é óbvio, claro.

MCB: Para a gente encerrar a nossa entrevista, duas perguntas fixas do site: Qual foi o ultimo filme brasileiro que você assistiu – sem ser o Teobaldo, que assistiu ontem; e a segunda é qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, e você deixa registrada na sua entrevista como uma homenagem? 

MG: Olha, tem uma garota que eu gosto muito que é a Letícia Sabatella. Gosto muitíssimo dela, é uma garota, mas eu acho ela de um potencial e de uma humildade que eu admiro. 

MCB: E o filme brasileiro?

MG: Filme brasileiro, deixa eu lembrar... aliás eu revi, o filme até que eu não gosto muito, mas é com o Antônio Fagundes, tem a ver com céu.

MCB: Qual, Deus é brasileiro (Carlos Diegues, 2003)? 

MG: Deus é brasileiro, eu revi esses dias, mas nem gosto muito do filme. 

MCB: Muito obrigado pela entrevista.


Entrevista realizada em janeiro de 2015 durante a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.