Ano 15

Novani Novakoski

Novani Novakoski é uma das belas musas da Boca do Lixo. Nascida no Paraná, começou a carreira em São Paulo: “Quando estava trabalhando como secretária, uma pessoa me achou bonita e me levou pra fazer um teste no Silvio Santos. Daí surgiu a novela O espantalho, em que fiz umas aparições e mais tarde fui contratada pelo Silvio - ele gostou das minhas covinhas - para ser Telemoça, hoje ajudante de palco. Depois disso muitos outros trabalhos foram surgindo no cinema, TV, passarela etc.”

Depois de atuar como modelo, Novani estreia no cinema nas produções da Boca do Lixo, polo importante para o cinema popular no país: “Foi convite do AP Galante, seguido do Tony Vieira, e outros. No cinema, aqui no Brasil, nunca tive que passar por teste, nem mesmo pelo teste do sofá, hehehe”. 

A atriz trabalhou com diretores de diferentes estilos, como Tony Vieira, José Miziara, Ody Fraga, Antonio Bonacin Thomé e Walter Hugo Khouri: "me dava bem com todos os diretores, produtores e elenco. O campo de filmagem era regado de muito profissionalismo, mas também surgiam farras saudáveis. Sempre depois das filmagens a gente se reunia para jantar e conversar, era muito legal. Sinto muitas saudades daquela época e das pessoas, ficaria muito feliz se os encontrasse hoje".

Novani Novakoski conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro por email e falou sobre sua trajetória, os filmes em que atuou, o trabalho com as equipes e colegas de filmagens, e muito mais. 


Mulheres do Cinema Brasileiro: Você nasceu em Ponta Grossa, Paraná. Como e quando foi parar em São Paulo?

Novani Novakoski: Meu sonho sempre foi ser igual às moças das revistas e TV. Então, por volta de 73/74, depois de um casamento arranjado que fracassou, peguei somente uma malinha, e, como se diz, sem lenço nem documento fui para São Paulo, onde de inicio fiquei com uma prima e mais tarde morei em diversas pensões. Era até divertido, pois eu saia pela cidade sem conhecer nada e demorei para conseguir um emprego! 

Quando estava trabalhando como secretária, uma pessoa me achou bonita e me levou pra fazer um teste no Silvio Santos. Daí surgiu a novela O espantalho, em que fiz umas aparições e mais tarde fui contratada pelo Silvio - ele gostou das minhas covinhas - para ser Telemoça, hoje ajudante de palco.  Depois disso muitos outros trabalhos foram surgindo no cinema, TV, passarela etc.

MCB: Você começou sua carreira artística na TVS, como atriz e Telemoça. Gostaria que você falasse sobre essa época e sobre esses trabalhos. Dá para você comentar sobre as outras novelas além de O espantalho (1977 – Ivani Ribeiro)?

NN: Foi uma experiência muito boa para minha carreira artística e um aprendizado valioso para meu crescimento humano. Além de O espantalho,  eu participei somente da novela da Tupi,  Tchan, a grande sacada (1976/77 – Marcos Rey),  junto com o saudoso Raul Cortez. 

MCB: E a carreira de modelo? Participou também de uma banda? Qual o nome e o gênero?

NN: Sim, fiz diversos trabalhos de modelo, fotos e comercias de TV, recepção em feiras e coquetéis de lançamentos, desfiles de passarela etc. Cantei numa banda de rock chamada Calibre 38 como vocalista, mas devidos a muitas viagens tive que desistir dela. Fui também matéria e pôster da Playboy em janeiro de 1980. Fui a primeira modelo do JR Duran numa revista masculina! 

MCB: Como você chegou ao cinema? Foi convite ou foi teste? E convite de quem?

NN: Foi convite do AP Galante, seguido do Tony Vieira, e outros. No cinema, aqui no Brasil, nunca tive que passar por teste, nem mesmo pelo teste do sofá, hehehe.

MCB: Os filmes são lançados, mas muitas vezes uns são produzidos antes dos outros. Qual a ordem dos seus filmes? 

NN: Não me lembro a ordem dos filmes uma vez que eu fazia um filme atrás do outro.

MCB: Você se recorda da primeira vez que pisou em um set de cinema? Qual foi a sensação?

NN: Como eu já trabalhava na TV com o Silvio e tínhamos gravações toda a semana, para mim foi normal.

MCB: Gostaria que você comentasse sobre seus filmes, personagens, e diretores:

- Pensionato de vigaristas (1977), de Oswaldo de Oliveira.
NN: Este filme era uma ideia da série de TV As panteras. Eu fazia a detetive que investigava uma gangue de trombadinhas colegial do Rio de Janeiro. Foi muito bom fazer este filme, pois uni o útil ao agradável.

- Reformatório das depravadas (1978), de Ody Fraga.
NN: Este filme é sobre jovens delinquentes que são mandadas para reformatório linha dura, onde são torturadas. Foi neste filme que um certo produtor e distribuidor me viu e se apaixonou. 

- Os violentadores (1978), de Tony Vieira.
NN: Estilo bang bang, este filme foi filmado no interior de Sampa, onde lembrava o velho oeste. Eu fazia uma garota de saloon. Fato curioso me aconteceu durante este filme. Um dia indo para a filmagem, eu e o ator Toninho vimos um disco voador e nós dois paramos o carro e ficamos observando. Um olhou pro outro e disse: Nem vamos comentar isso com ninguém porque vão nos chamar de loucos!! Esta é a única vez que estou comentando sobre isso. Agora só não me chamem de louca, ok? 

Estripador de mulheres (1978), de Juan Bajon.
NN: Meu personagem era a empregada da pensão onde o estripador, o excelente ator Ewerton de Castro se hospedou. Em uma de nossas cenas, ele tentando me matar, dei um soco no queixo dele que inchou na hora, mas ele, como profissional que é, somente deu risadas. Sinto saudades dele.

O atleta sexual (1978), de Antonio Ciambra.
NN: Alguns filmes que fiz nem cheguei a ver, pois viajava demais para o exterior a trabalho e nem dava tempo.  Me lembro que neste filme trabalhei com o Paulo Figueiredo, eu e as outras meninas andávamos de moto e de biquíni dourado –hehehe.

Na violência do sexo (1978), de Antonio Banacin Thomé
NN: Neste, eu faço o papel principal junto com o Edgar Franco, Ewerton de Castro e outros. A história é que no dia de meu casamento bandidos entram em nossa mansão e me violentam, deixando-me traumatizada, e meu esposo sai à caça deles para se vingar. Ele me faz sentir falta do Cassiano Esteves (produtor, cenógrafo e montador), um grande amigo! 

Com mulher é bem melhor (1978), de Nilton Nascimento.
NN: Foi todo filmado em Guarujá e eu aproveitei pra tomar sol e pegar um bronzeadinho!!

O prisioneiro do sexo (1979), de Walter Hugo Khouri.
NN: Eu tive um papel pequeno neste filme, mas aceitei fazer pelo amor e admiração ao trabalho do Walter, que além do mais, me tratava com muito carinho e respeito. 

Embalos alucinantes (1979), de José Miziara.
NN: Meu papel neste filme era para ser grande e de destaque, mas devido ao comportamento inadequado comigo de um certo ator no set de filmagem, eu preferi não dar continuidade ao papel. Sei que falar sobre é antiprofissional, mas esta é a verdade.

–  Uma cama para sete noivas (1979), de Raffaele Rossi e Jose Vedovato.
NN: Tive a honra de contracenar com o grande ator e ser humano, Tony Tornado. Nos divertimos muuuiito, principalmente nas cenas gravadas na Imigrantes. Ele me ajudou muito passando os diálogos, pois eu ainda estava começando neste meio. .Gostaria muito de poder revê-lo.  

–  Belinda dos orixás na praia dos desejos (1979), de Antonio Bonacin Thomé.
NN: Fiz uma participação especial neste filme, e dele eu me lembro que uma atriz usou meu corpo como se fosse dela nas suas cenas hahahah. Só soube disso mais tarde vendo o filme! 

MCB: Faltou você falar sobre os diretores dos filmes, como foi o trabalho e o relacionamento com eles?

NN: Eu me dava bem com todos os diretores, produtores e elenco. O campo de filmagem era regado de muito profissionalismo, mas também surgiam farras saudáveis. Sempre depois das filmagens a gente se reunia para jantar e conversar, era muito legal. Sinto muitas saudades daquela época e das pessoas, ficaria muito feliz se os encontrasse hoje.

MCB: Você foi dirigida por grandes cineastas da Boca do Lixo, como Oswaldo de Oliveira, Ody Fraga, Juan Bajon e José Miziara. Como foi participar da produção da Boca, esse momento tão importante para o cinema brasileiro? 

NN: Foi um orgulho e ainda é até hoje. Para mim foi um grande aprendizado também. É pena que isso acabou, pois vejo que hoje em dia não basta só ter talento, tem de ter também o QI= Quem Indica. 

MCB: Além de ser uma musa, você atuou ao lado de outras grandes musas, como Aldine Muller, Suely Aoki, Nicole Puzzi, Márcia Fraga, Misaki Tanaka, Neide Ribeiro, Patrícia Scalvi, Claudette Joubert, Sandra Bréa e Marlene França. Como era o convívio com essa galeria de deusas do cinema brasileiro?

NN: Era muito legal e divertido. Aprendi bastante com todas elas, principalmente com as mais experientes. Éramos muito amigas e entre nós não havia concorrência, pois cada uma sabia de seu talento.

MCB: Você atuou em filmes que tinham duas veteranas importantes do cinema brasileiro que são Lola Brah e Ivete Bonfá. Gostaria que você comentasse sobre elas, já que pouco se fala sobre elas.

NN: É um orgulho para mim ter tido a oportunidade de trabalhar com estas duas divas do meu tempo.  

MCB: Muita gente confunde a produção da Boca do Lixo dizendo que tudo era pornochanchada, mas isso é uma avaliação equivocada.  Você atuou em cinema popular, como Embalos alucinantes, do José Miziara; pornochanchada como Uma cama para sete noivas, de Raffaele Rossi e José Vedovato; e ainda foi dirigida pelo mítico Tony Vieira e pelo autoral Walter Hugo Khouri. Ou seja, sua carreira comprova a versatilidade do cinema da Boca. Você concorda? 

NN: É verdade, as pessoas que não acompanharam aquela época confundem tudo. Quando falo dos meus filmes, elas acham que eu era atriz pornô, principalmente pelos nomes apelativos dos mesmos. Mas posso garantir que de pornô não havia nada! As cenas eram make believe, ou seja, fingidas e simuladas, mas nada de sexo explicito ou coisa assim. Eu, pessoalmente, jamais faria algo que fosse denegrir minha imagem e caráter, pois como você sabe sou do interior do Paraná e fui criada por pais rígidos.

MCB: Por que você abandonou a carreira cinematográfica? Foi por questões amorosas mesmo? 

NN: Sim, meu ex-marido, o qual conheci no meio artístico, era produtor e distribuidor, e por isso tínhamos que viajar muito para os Estados Unidos e Europa. E mais tarde fui estudar em Denver ,CO por um tempo, o que me afastou da minha carreira num todo e isso também acabou esfriando nossa relação.   

MCB: É possível falar o nome dele?

NN: Arnaldo Zonari Filho, proprietário da Fama Filmes.

MCB: Você viveu muitos anos fora do Brasil. Dá para você comentar um pouco sobre essa experiência? 

NN: Essa experiência mudou muito minha vida, meu modo de ver as coisas, e com isso amadureci muito. Quando cheguei lá, eu ainda trabalhei como modelo e manequim, e fiz algumas pontas como atriz em Hollywood. Na época, tinha sido convidada para um teste do remake do filme “Psicose”, e como a cena da faca era de perfil na banheira, perdi um papel devido aos quilinhos que já estavam aparecendo depois de três cirurgias de ovário, o que causou problemas hormonais e por isso me desgostei de tudo. Fui trabalhar como gerente de banco e em 1996 voltei para o Brasil. 

MCB: Dá para você citar alguns títulos dos filmes em que fez ponta por lá?

NN: Nos Estados Unidos, Los Angeles, onde morei, eu poderia ter ficado famosa fazendo cinema, mas eu era muito preguiçosa para correr atrás disso. Mesmo assim eu participei de alguns filmes do Sylvester Stallone, Arnald Schwarzenegger e outros. Lá a gente ganha, e muito bem, por dia para ser “extras” em filmes e TV. Não sei os nomes deles, pois nunca me interessei em saber, eu ia, gravava, ganhava meu dia e ia embora. Boba, né?  

MCB: Como está sua carreira agora?

NN: Como artista minha carreira esta parada por completo! Hoje vivo em Ponta Grossa –PR, onde tenho uma escola de idiomas com o nome “Enny’s English Conversation”. Vivo sozinha, pois não tenho marido nem filhos, e ainda sonho com uma possível volta ao meio artístico. Tanto é que até já fiz como a Leila Lopes fez antes de morrer, escrevi, passei emails, implorei para as emissoras de TV e meio artístico em geral me darem uma segunda chance. Mas vejo que as pessoas hoje se preocupam mais com apelos sexuais de carinhas novas e bumbum avantajado à mostra em horário nobre e se esquecem rápido dos talentos antigos.   

MCB: Você ainda tem contato com alguém do meio artístico, algum ator, atriz, cineasta? 

NN: Devido a minha mudança para os Estados Unidos e os12 anos que residi lá, perdi contato com todos. Mas agora, recentemente, iniciei contato por MSN com a Nicole Puzzi. Ela me convidou para fazer uma peça com ela, vamos torcer para que isso aconteça.

MCB: Você gosta do cinema brasileiro atual?

NN: Sim, principalmente das comédias. Mas confesso que não costumo assisti-los com freqüência.

MCB: Qual foi o último filme brasileiro que assistiu?

NN: Tropa de elite (2007 – José Padilha), e Olga (2004 – Jayme Monjardim).  

MCB: Sempre convido minhas entrevistadas para homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área. Quem você homenageia aqui na sua entrevista? 

NN: Eu tenho o prazer de homenagear a minha ex-amiga da época de modelo, a grande atriz Lilia Cabral. Gosto dela não somente como atriz, mas também como ser humano. Na minha opinião entre outras ótimas atrizes brasileiras: She is the Best! 

MCB: Mais alguma coisa que não perguntei e que você queira acrescentar?

NN: Foi um prazer conceder-lhe esta entrevista e gostaria de aproveitar esta oportunidade para dizer que todos nós devemos prestigiar nosso cinema indo ao cinema e não comprando filmes piratas. Quero também lembrar aos diretores, produtores e emissoras de TV que os talentos antigos, assim como eu, também precisam continuar trabalhando. Portanto precisamos de mais chances e oportunidades no meio artístico nos dias de hoje. 
Esqueci de dizer que em Los Angeles, Ca., eu fiz cursos de teatro no “Tepper Gallegos” e na Faculdade Santa Monica ,Ca. E também fiz um ano de curso de dicção para perder o sotaque brasileiro para trabalhar em filmes americanos. Hoje recebo elogios de alunos pela minha pronúncia.

Obrigada, abraços.

MCB: Muito obrigado pela entrevista.

Entrevista realizada por email em dezembro de 2009.

Foto: Acervo pessoal

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.