Ano 15

Francis Vogner dos Reis (Célia Olga Benvenutti)

As Mulheres de Carlos Reichenbach

Eu gosto muito das atrizes brasileiras dos anos  1970, principalmente aquelas que não fazem parte das que foram chamadas daquilo que foi  chamado o primeiro time do cinema brasileiro. Gosto também de Sônia Braga, Lilian Lemmertz, Helena Ignez, mas essas atrizes que, digamos assim, por fazerem filmes que tem como tema e como questão o sexo, elas acabam, às vezes, ou depreciadas ou na memória do cinema brasileiro ficam marginalizadas, algumas, inclusive, estereotipadas. Então eu gosto muito da Aldine Müller, eu gosto muito da Patricia Scalvi, eu gosto muito da Nicole Puzzi, enfim de boa parte das atrizes que fizeram filmes com o Khouri nos anos 70 e 80. Mas o que fica pra mim quando eu penso de mulher no cinema brasileiro são as atrizes que fizeram os filmes, que ficaram marcados também como personagens, do cinema do Carlos Reichenbach. Porque ele pega, muitas das vezes, essas atrizes que eram estigmatizadas por fazerem filmes de sexo, atrizes que mostravam o corpo, e trabalhava elas nessa chave também do corpo, às vezes em uma chave um pouco diferente de alguns outros filmes da época. Às vezes em uma chave mais problematizante, inclusive, da questão sexual ou da relação do olhar dos homens pra elas e tal. 

O Carlão, ao mesmo tempo, é um desses cineastas que trabalhou na Boca do Lixo, que trabalhava com as atrizes em um certo registro que era da sensualidade, em que o nu era sempre presente. A questão sexual se impunha, mas ele, sempre junto com isso, sempre trazia umas serie de coisas, inclusive, da relação própria dele, de homem, de um cineasta homem, do olhar dele pra elas. Independente se as personagens eram liberadas sexualmente ou era, digamos, assim mais  contida sexualmente, mais pudica. Ele sempre trabalhou com elas, olhou pra elas com muita generosidade e, mais do que carinho, com amor mesmo, porque o carinho a gente pode ter por uma série de personagens ,inclusive, personagens que tenham alguma graça e tal. Ele  procurava entender não só essas personagens, mas toda a relação ali daquele universo o qual elas viviam com elas, a maneira como elas se colocavam nesse universo, o modo , às vezes, como esse mundo levava elas, inclusive,  a terem uma imagem, digamos assim, que era socialmente depreciativo. 

Como era o caso de Rosanne Mulholland em Falsa loira,  que, pra mim, é o filme sobre isso. Porque a personagem da Rosanne Mulholland ,a Lucimara, que é uma operária muito bonita e que todo mundo acha que por ser bonita e liberada sexualmente ela fazia programa. E a mulher bonita e pobre nesse filme, enfim. O mundo aí, em alguma medida, vai tentar instrumentalizar e vampirizar essa beleza. Como? O mundo, na verdade as pessoas ali acabam direcionando ela à venda do corpo, a mercantilização dessa beleza e dessa graça, a instrumentalização e, digamos assim, a própria neutralização dessa graça. Porque graça é dom gratuito, inclusive, o Carlão tem um filme chamado Equilíbrio e graça, né. Que não pode ser instrumentalizado, que não pode ser dominado, e que não pode ser mercantilizado. E a personagem, por mais que ela resista, o filme é um melodrama e no melodrama o universo social acaba empurrando a personagem pro abismo,  ela acaba sendo empurrada pro abismo. Só que é interessante que do ponto em que ela é operária e todo mundo desconfia dela, até o ponto em que ela acaba sendo, digamos assim, alugada sem saber pra um homem pra que ela tirasse a virgindade do filho dele, ela sempre teve autonomia. E em alguma medida sempre pagou o preço por essa autonomia e, digamos assim, sem se diminuir. Quando ela descobre que foi, sem saber, que ela foi uma prostituta, é interessante como que, mesmo assim, ela voltando pra fábrica, ela volta de cabeça erguida. Mas aí tem uma coisa que é muito interessante, em alguma medida, no mundo do trabalho, o corpo também de todas as mulheres ali no filme, ele é, em alguma medida, mercadoria, mercadoria não, ele serve à produção, ele é alugado também, ele é usado pra realizar um trabalho enfim na fabrica, ele serve à produção industrial, capitalista e tal. 

Então é interessante que, pensando nisso, vamos voltar pro primeiro plano de  Garotas do ABC, que é um dos filmes anteriores dele, em que a personagem, ela faz um striptease ao contrario, ou seja, ela está nua, livre, livre e forte, e ela se veste de operária. Ou seja, na verdade, na chave do Carlão, em alguma medida isso, digamos assim, seria um striptease né, seria o corpo sendo vestido pra funcionar como peça de engrenagem de uma máquina. Então o nu pra ele, inclusive, das mulheres, ele é sempre um nu, é uma imagem de liberdade, ele não é necessariamente libertador porque ele é a liberdade em si. Então você tem nesses dois filmes das operárias, você tem, justamente, a localização desses corpos femininos nesse universo violento e agressivo do trabalho, servindo, digamos assim, às engrenagens da indústria e do capital. E talvez seja esses dois primeiros filmes dele, dessa ultima fase dele, são filmes em que essas mulheres servem, é o filme em que ele mostra essas mulheres dentro de um universo social, socializador e mecanizador, inclusive, das emoções. A gente sabe que muitas das operárias ali, elas julgam as colegas que são mais livres. Mas elas mesmas não se questionam que elas também oferecem seu corpo a uma atividade que as domesticam. 

Então eu acho que esses dois filmes do universo do trabalho deixa isso bastante claro né, a Rosanne Mulholland em Falsa loira e a Michelle Valle em Garotas do ABC. E é interessante porque tem elas, mas tem uma série de outras garotas que orbitam em torno delas, que, em alguma medida, possuem a mesma condição social, e dentro do próprio universo de trabalho. O que as distinguem é a concepção que elas têm delas mesmo, né, a liberdade que elas usufruem, com a qual elas usufruem do seu corpo. A Michelle Valle chega ao extremo de namorar um cara em Garotas do ABC que é um racista, ela é negra e namora um racista. E sempre negociando ali no universo familiar a sua liberdade, e na fábrica. Então o universo familiar e a fábrica são cerceadores, né, mas as personagens têm essa coisa de resistência e persistência, do Carlão, né? A Michelle Valle, digamos assim, ela tem um final mais feliz, ou seja, esse ciclo do melodrama não, necessariamente, se completa pra ela. Já a Rosanne Mulholland  paga esse preço, ela não termina destruída, ela termina absolutamente esfolada, mas ela não termina destruída. Então ele reafirma a força dela apesar de tudo. São filmes em que ele afirma as forças dessas personagens apesar de todas as coisas, e em boa medida, elas acabam pagando um preço. 

É diferente das personagens do período dos anos 70, que é o período da contracultura, em que a relação com o corpo era um pouco outra. Esse universo social, asfixiante e cerceador, seja do trabalho ou da família, não é tão presente em filmes como Império do desejo ou A ilha dos prazeres proibidos. Nesses filmes, como são filmes da Boca do Lixo, filmes, em alguma medida, de encomenda, elas possuem, as mulheres ali, de maneira geral, elas possuem um registro cinematográfico do corpo, da sua sensualidade muito próxima de outros filmes ali. O que muda, às vezes, é a chave de compreensão, elas estão dentro de um contexto de contracultura, em que aquilo em si já é um gesto libertador diferente das personagens, por exemplo, do Khouri, que estão sempre oprimidas, asfixiadas e um pouco escravizadas por uma engrenagem perversa, que é uma engrenagem, digamos, no Khouri, de uma classe mais abastada, que se utiliza, se abastece dessas mulheres. Se pegamos, por exemplo, o Convite ao prazer, tem toda uma galeria de atrizes incríveis, Helena Ramos, Alvamar Taddei, que é uma atriz esquecida, mas que além de ser muito bonita  é uma daquelas atrizes da Boca que trazia consigo uma certa dose de inocência nas personagens dela. É uma atriz que desapareceu, não sei se alguém tem o contato dela hoje, mas acho que seria incrível fazer uma entrevista com ela. Você tem ali a Sandra Bréa, todas mulheres assim diferentes das personagens do Carlão, que ainda conseguem ter até gestos agressivos pra se afirmar, elas estão presas nos filmes do Khouri. Ou seja,  é um registro, às vezes, diferente de outros nus ali da Boca do Lixo, às vezes mais misóginos, mais sexistas, ali elas estão presas, o Khouri  tem um olhar um pouco mais critico pra condição delas. Os do Carlão é em uma chave inversa a do Khouri,  mesmo que elas deem muro em ponto de faca. E no contexto ali, da contracultura, O império do desejo e  A ilha dos prazeres proibidos, é um registro mesmo de liberdade. Ainda que elas sejam filmadas de uma maneira muito próxima que outras mulheres em outros filmes do Ody Fraga, do Jean Garrett, ou tenham sido filmadas em filmes, digamos  assim, de cepas menos nobres também, né. 

Mas o que me interessa aí nos anos 80 dos filmes do Carlão e das atrizes, e das personagens, é especificamente dois filmes, Amor, palavra prostituta e Anjos do Arrabalde.  Em  Amor, palavra prostituta nós temos ali Patricia Scalvi, que pra mim está entre as três grandes atrizes do cinema brasileiro. Talvez ela não tenha feito tanto sucesso por ela estar restrita um pouco ao universo da Boca do Lixo, que era estigmatizado pra caramba. Mas fez filme com o Khouri, inclusive, que era um diretor respeitado, fez filmes com Ody Fraga. Mas o que me vem sempre à memória, sempre a imagem dela nesses filmes. Ela tem a voz forte, ela tem o olhar denso e penetrante. A Patricia Scalvi não tem, necessariamente, o perfil de gatinha, né, que as atrizes daquele momento tinham, né. Ela até tinha um perfil, mesmo tendo a mesma idade daquelas garotas, de uma mulher mais madura. Então, inclusive,  ela tem uma voz incrível, que  hoje usa pra dublagem e tal. Mas ela tinha essa força, que eu acho que, talvez, ela seja pra mim, de todas as atrizes que já trabalharam com o Carlos Reichenbach, ela seja a atriz que mais concentrou um tipo de força feminina que está espalhado em toda a obra do Carlão. 

Em Amor, palavra prostituta,  ela faz também uma operária, diferente dos filmes mais recentes, ele não se prende muito ao universo do trabalho em si, mas a um drama pessoal da personagem. Ela  é uma operária que sustenta um ex-professor desempregado e um pouco fora da curva, um cara meio maluco, ela ama ele e ela o sustenta com o seu salário de operária. Nesse filme, que também tem a Alvamar Taddei em um trabalho impressionante, nesse filme ela é presa, sobretudo, a esse homem que ela ama, e a gente não sabe se ele a ama ou não, que é o Orlando Parolini. Ele está em uma crise gigantesca existencial, ele é um personagem impenetrável, e ela faz de absolutamente tudo pra ele, e o que ele não da pra ela é amor ,que o que ela reclama, né. É muito diferente, digamos assim, daquela personagem típica da cultura brasileira que é a arrivista,  que vai gostar do homem porque ele tem algo a oferecer a ela, inclusive virilidade. Ele nem isso tem a oferecer pra ela, ele transa com outras mulheres. E uma coisa que, talvez, em outros filmes, fosse visto um pouco em uma chave  depreciativa, que é  ela ter casos com outros homens que não o que ela ama, o Carlão busca entender isso por um outro caminho. Essa mulher não tendo o amor em casa, ela busca o amor com outros homens que ela conhece e ela não encontra. Ela vai encontrar, em um dos curtos circuitos que o Carlão faz,  um homem que a ama no seu patrão. E é interessante porque existe uma certa legitimidade, o que, digamos assim, aos olhos  mais gerais da nossa cultura, uma estratégia de arrivismo social, a mulher ficar com o seu patrão porque ele tem dinheiro, porque ela vai se alçar socialmente e economicamente. Ela se envolve com esse homem porque ele a deseja, porque ele, efetivamente a deseja, é um homem, inclusive, impotente, e ele a deseja, e ele quer ela. Ele é um homem casado, ela é uma amante e tal, e ela se envolve com ele. Isso fica muito claro. É interessante que o Carlão, se a gente visse simplesmente de fora uma mulher entrando no carro do patrão e indo pro motel o juízo é muito fácil,  mas ele vai à alcova. E nos diálogos entre os dois, a gente vê que ela amou muito, mas ela quer ser amada e esse homem ama ela, mesmo impotente, mesmo velho, mesmo sendo patrão, ou seja, ela está sujeita a toda sorte de preconceitos e ela se envolve com esse homem. 

Eu acho que a interpretação dela em Amor, palavra prostituta é uma das grandes interpretações do cinema brasileiro, é a grande interpretação feminina do cinema de Carlos Reichenbach, porque ela concentra, tinha uma coisa que ele falava dos olhos dela, ela concentra nos olhos, ela concentra no corpo, ela concentra na tonalidade da fala, no tempo da fala. no modo como ela se entrega às cenas dramáticas,  toda essa tragicidade mesmo das personagens do Carlos Reichenbach, ainda que essa não tem um destino trágico nesse filme. Então, fácil  eu coloco essa como uma das grandes interpretação femininas do cinema brasileiro, porque pra mim, inclusive, ela é, digamos, ela é paradigmática de um cineasta considerado um dos maiores do cinema brasileiro, que é o Carlos Reichenbach, que trabalhava com personagens femininas, né. 

E tem uma outra mulher nesse filme que eu acho interessante falar que é a Alvamar Taddei, que ela está naquele registro inicialmente de gatinha, de uma menina tola de classe média baixa que se envolve com um boçal, que é o genial Roberto Miranda. O único gesto de amor do filme é do professor para com ela. que ela vai ter o aborto e  está sangrando com hemorragia, e o boçal leva ela pra casa do professor, que cuida dela gratuitamente, sem ter uma relação, digamos assim, de teor sexual. Ainda que tenha alguma coisa erótica, porque é um homem e uma mulher, e tem um momento que ele tira a roupa dela e ela está sangrando, e coloca ela debaixo do chuveiro, ele tira a roupa dele também e entra debaixo do chuveiro com ela. É absolutamente... ver aquilo tão de perto e com tanta força... Acho que o critico, acho que foi o Rui, que disse que ver a carne  tão de perto que é tão ofuscante. E realmente, essa cena  com a Alvamar Taddei, porque como ele usa esse registro da gatinha, ela é uma gatinha, ela é quase uma menina, ela absolutamente fragilizada. E como ela é quase uma menina, no aborto ela necessita de cuidado, e o boçal abandona ela, fica com a filha do patrão. O homem aí, que é o Roberto Miranda, ele é o único personagem mesmo que a gente acaba tendo um juízo negativo, porque ele opta pela filha, livremente, livremente não, pela influencia da mãe. E a Alvamar Taddei fica abandonada, e quem vai cuidar dela é esse outro maluco fora de eixo, que é o Orlando Parolini, gratuitamente. Então essa questão da graça do Carlão, de que o amor  só existe quando ele não quer nada em troca, acho que esse é o filme do Carlão sobre isso. Até o nome é Amor, palavra prostituta, né, ou seja, o amor serve pra qualquer coisa, mas na real a gente vê que no final o amor, ele não é, é uma palavra prostituta, mas o amor em si, ele não admite ser usado pra qualquer coisa. Então ele existe em uma relação de entrega e de cuidado, que é o que não existia na relação da Patricia Scalvi com o Parolini, e nem com o Roberto Miranda com suas mulheres. Mas existe do Orlando Parolini para a mulher com a qual ele não tem interesse sexual, ao menos nós não vemos, ele não mostra isso. As personagens femininas saem fortalecidas, e quando o personagem do Orlando Parolini assume uma dimensão feminina, que é essa do cuidado, ele também sai fortalecido, é a primeira vez que ele diz, que é a última frase do filme, “eu também estou meio perdido”,  que é o momento que ele assume isso, né.

O Anjos do Arrabalde, que é outro filme dos anos 80, produzido pelo Galante, que a gente tem ali já atrizes fora desse circuito da Boca do Lixo, que é Betty Faria, Clarisse Abujamra, que são as duas que me vem em mente assim. As duas também têm essa, elas têm uma força já um pouco diferente das personagens mais recentes do Carlão. A Clarisse Abujamra me lembra muito a personagem da Djin Sganzerla em Falsa loira. Tem também a coisa do suicídio, que se entrega a um homem, fica fragilizada, e recorre ao suicídio. E a Betty Faria é lésbica, ela é uma personagem que resiste aquele universo violento precário de um trabalho precarizado de periferia, fazendo as escolhas dela apesar de tudo. Então eu acho que é uma das personagens, digamos assim. do inicio ao fim, mais fortes do Carlão. E é um trabalho incrível com elas. Existe um mito que Carlão dirige mal os atores, mas é só ver esses filmes que a gente vê que esse mito cai. Talvez ele tenha trabalhado nos últimos tempos com atores que não sejam tão bons, ou talvez os aparatos cinematográficos contemporâneos que são muito grandes, que tira a distancia dele do ator, ele fica lá atrás no vídeo-assiste a vinte metros do ator. Talvez isso tenha, digamos assim,  atrapalhado algo na direção de atores dele, mas ele sempre foi um grande diretor de atores,  é só a gente ver o Anjos do Arrabalde, que, pra mim, isso é muito claro. Eu acho que ali a Betty Faria tem seu grande papel no cinema. 

E repetiria essa parceria com ele em Bens confiscados, em que ela é um personagem de melodrama, que é também  usada pelos homens, e os homens, eles sempre representam, digamos assim  o status quo. Ela é utilizada por eles, o uso dela é afetivo, mas também é político, né. E ela vai se encontrar com esse homem, com a qual ela é amante em Bens confiscados, que é um político em um escândalo. Ele tem uma amante e ela é retirada do lugar dela e é mandada pra outro lugar com o filho dele, ela vai encontrar o amor justamente nesse homem, que nem é homem feito ainda, que é esse garoto. Mas mesmo assim ela vai terminar sozinha, o garoto não tem autonomia né, ela vai terminar sozinha, como a Falsa loira, ela é uma personagem que toma porrada de tudo quanto é lado, mas ele sempre termina com essas personagens em pé, em um plano frontal, elas olhando pra frente. Eu acho que essas imagens são muito fortes, elas são muito fortes pra mim. Em Bens confiscados você tem duas mulheres, aquela primeira que se suicida, e que a gente tem um plano dela, o ultimo plano que  a gente tem dela é um plano também frontal, depois a câmera volta e ela já não está mais lá. É um plano frontal, ou seja, ela caiu. E o plano frontal da Betty Faria em pé de frente pra câmera, quando ela se vê sozinha, que também é um plano muito forte. 

Tem uns filmes masculinos do Carlão em que as mulheres estão em uma outra chave, né, como o Filme demência e o Alma corsária. Mesmo assim existe pra elas um olhar, existe uma certa aproximação do Carlão dessas mulheres, porque ele entende elas minimamente, de um certo distanciamento, no qual eles não julgam as atitudes dessas mulheres, mesmo as mulheres chaves dentro desses filmes. Talvez a mais maldosa seja a Imara Reis em Filme demência, né. Ela larga o marido e fica com outro, o cara está destroçado, mas mesmo assim ele repete a atriz Imara Reis em uma personagem da  cigana em um outro registro completamente diferente, ele tira ela desse registro, É interessante como o Carlão, isso é muito interessante notar, ele trabalha uma personagem, mas ele leva em consideração também a própria figura da atriz. E ele usar a Imara Reis em dois papéis completamente diferentes é interessante, porque a imagem dela não fica estigmatizada com uma personagem, ele usa ela em um registro e usa ela em outro. 

Em Alma corsária as mulheres são mais coadjuvantes, são filmes de homens, mas você tem a personagem da guerrilheira, que é um personagem muito forte ali e divisora de águas ali na vida do Bertrand Duarte. E a gente tem uma personagem, é interessante, Dois córregos  é um filme subestimado do Carlão. Tem a filha do Paulo Goulart. São duas, é a Vanessa Goulart, que faz a garota jovem, a personagem jovem, e a Beth Goulart, que faz ela já com seus 40 anos. É interessante porque a Beth Goulart, quando começa o filme, ela é um personagem masculino do Carlão, ela não é a personagem típica feminina do Carlão, ele começa ela como sendo um personagem masculino, chega na casa, tira os poceiros de lá com policia, advogado e tal, dura, né. Quando ela recorda a imagem dela do passado, ela é bastante diferente. Depois, digamos assim, dessa memória, desse longo flashback que é o Dois córregos, ela se reencontra com essa personagem que ela foi, com essa mulher que ela foi, e recupera uma dimensão, digamos assim, mais sutil, mais feminina. E quando eu falo de dimensão feminina eu não estou querendo, eu tomo muito cuidado pra não esgotar essa ideia do feminino em uma ideia um tanto quanto idealizada, né. Eu estou falando do feminino em uma chave, em um modo como a cultura entende o masculino, que é um mundo pragmático, o mundo da razão. E o feminino, que é o mundo do cuidado, é um mundo mais sutil. E ela está ali, absolutamente, em um mundo masculino, quando ela chega, a Beth Goulart. Ela está com policia e advogado em um carro chegando pra tirar os posseiros de lá. 

Depois dessa memória e da recordação desse tio que tem um elemento feminino, ela lembra de como ela foi. Ela foi uma garota, enfim,  muito diferente da mulher, digamos mercenária, que ela seria no presente. E essa recordação faz com que ela termine o filme, alguns poucos planos e a ultima lida na carta, mais fragilizada, mais sutil, digamos assim, menos refém desse universo masculino no qual ela se embrenhou. Inclusive, é interessante porque o Carlão, ele nunca mostra a mudança de uma personagem sem tentar entender um pouco as razões dessa mudança, ainda que essas razões não expliquem tudo, é necessário entender que o personagem, talvez, principalmente as mulheres, ela não é como ela se apresenta simplesmente porque ela é assim, às vezes ela se constrói daquela maneira como defesa, como recurso de defesa mesma, ou de sobrevivência. Então acho que as duas, a Vanessa Goulart e a Beth Goulart, fazem essas duas faces da moeda de uma personagem só. É interessante como ele trabalha, às vezes, com esses duplos assim. E é interessante porque vários outros projetos que o Carlão tinha de filme era justamente com personagens femininos também. 

E tem a Lilian M (Lilian M - Relatório confidencial), a Célia Olga, que faz a Lilian M, não poderia me esquecer, que ela é todas as personagens do Carlão em uma personagem só, ela é operária, ela é prostituta, ela é agricultora, ela é hippie, ela é tudo, né. E ela passa por todas essas personagens e nada define ela, porque ela começa como agricultora subjugada pelo marido, subjugada por uma realidade patriarcal, vai pra cidade, passa por uma série de experiências, não se prende a nenhum homem, eles tentam domesticá-la, mas ela não se prende a nenhum deles. O único que me parece, que durante o filme, ela meio se apaixona, ela ama, é um bandido que morre tuberculoso. Personagens românticos, né, do Carlão. E ela termina chegando, se afirmando perante o marido e indo embora de novo. Ou seja, nada define ela, ela é várias mulheres em uma só. E durante a obra dele, a partir de Lilian M, ele vai se aproximar de cada uma das personagens que foi a Lilian M. Então é interessante como esse filme, em alguma medida, ele nos apresenta esse universo feminino do Carlão. 


Francis Vogner é crítico de cinema, curador, roteirista e professor.

*Depoimento realizado em janeiro de 2015, durante a 18ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

*Foto: Olga Célia Benvenutti em cena de Lilian M - Relatório confidencial (1975), Carlos Reichenbach.

 


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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.