Ano 15

Inês Castilho

Inês Castilho é um nome de referência na luta feminista no Brasil. Tem trajetória longa e importante nesse ativismo, inclusive com trabalhos pioneiros em publicações como "Nós mulheres", e "Mulherio". Atualmente escreve no site "Outras Palavras".

Na primeira metade dos anos 1980, Inês Castilho desenvolveu também carreira cinematográfica, com filmes impactantes, como Mulheres da Boca (1982) - dirigido com Cida Aidar, e Histerias (1983): "no período que fiz, e se voltar a fazer, o que me motiva é fundamentalmente as relações de gênero, raciais e de classe como base de uma sociedade extremamente desigual".

Inês esteve ainda há pouco, em junho de 2017, na 12a Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto, na qual foi apresentar Mulheres da Boca, um dos grandes momentos da programação da Mostra. O Mulheres do Cinema Brasileiro assistiu a sessão e ficou impactado - (era um filme muito esperado desde desde que vi sua sinopse e uma foto pulicados naqueles antigos catálogos de cinema, acho que da Embrafilme). A expectativa de tantos anos foi compensada pelo impacto do filme, que continua notável mesmo passados 35 anos de sua realização.

O Mulheres do Cinema Brasileiro enviou a entrevista abaixo para Inês Castilho, que respondeu por email.

Mulheres do Cinema Brasileiro: Você tem um trajetória longa na luta feminista, trabalhou em veículos importantes e pioneiros na causa, como o "Nós, Mulheres" e o "Mulherio". Pela sua filmografia, essa questão feminista é o que te permeia e interessa na carreira cinematográfica?

Inês Castilho: Não tenho uma carreira cinematográfica, exatamente. Fiz cinema durante alguns anos, na primeira metade dos anos 80, e nunca mais. Mãe e pai de família, precisava de sustento. A vida falou mais alto – um fato comum na vida das mulheres de cinema. Mas sim, no período que fiz, e se voltar a fazer, o que me motiva é fundamentalmente as relações de gênero, raciais e de classe como base de uma sociedade extremamente desigual.
 
MCB: O curta Mulheres da Boca (1982), apresentado na Cineop, é um filme notável e impactante, mesmo passados 35 anos. Há uma pujança na exaltação da força daquelas mulheres sobreviventes de toda uma condição adversa. Como foi realizar esse filme junto com a Cida Aidar? O que as levaram a realizar o filme?

IC: Cida e eu nos conhecemos no coletivo feminista que editou o jornal Nós Mulheres entre 1976 e 1979. Foi quando o grupo de estudos sobre a mulher da Fundação Carlos Chagas lançou os Concursos de Pesquisa sobre a Mulher, e nós decidimos propor um projeto de filme, ao invés de pesquisa acadêmica. O tema prostituição foi escolhido a partir da cisão na identidade feminina, entre a puta e a santa – cisão hoje relativizada pelas décadas de atuação do feminismo, particularmente as Marchas das Vadias.

O projeto é meu e da Cida, mas na esteira do espírito coletivo do feminismo foram incorporadas várias outras mulheres, como se pode ver nos créditos.  
 
MCB: O Mulheres da Boca é muito bem filmado e fotografado. Como é para você rever o filme hoje?

IC: A fotografia é de Chico Botelho, um dos grandes de sua época. Devemos muito a ele, uma alma linda, o olhar amoroso para as profissionais do sexo retratadas no filme. Devemos agradecimentos também aos outros seis jovens que integravam a Tatu Filmes (hoje de apenas um deles) e que abraçaram o projeto, nos dando a maior força –  éramos novatas na área. Eles são responsáveis pelo apuro técnico do filme.
 
MCB: Você também trabalhou em outro filme notável, o Janete (1983), do Chico Botelho, como roteirista. Gostaria que você comentasse sobre esse filme que merecia ser mais conhecido e discutido.

IC: Precisaria rever o filme para falar sobre ele... Foi uma tentativa do Chico de abordar uma questão hoje ainda mais relevante, da mulher encarcerada.
 
MCB: Você dirigiu um outro curta, o Histerias (1983), que é muito comentado, e que abriga uma constelação na ficha técnica: Cida Aidar, Isa Castro, Juliana Carneiro da Cunha, José Roberto Eliezer, Chico Botelho, Walter Rogério. Como foi realizar esse filme?

IC: Histerias foi um voo mais alto, mais autoral. Foi de grande importância na concepção do projeto a colaboração da Cida Aidar na assistência de direção e de um grupo de psicanalistas composto por Lucinha Lima, Heidi Tabacof, Maria Rita Kehl e Maria Marta Assolini.

Também Isa Castro, hoje diretora do Museu da Imagem e do Som de SP, teve forte presença como montadora, atriz e participação no roteiro. Juliana Carneiro da Cunha é uma estrela de primeira grandeza, foi muito feliz a ideia de chamá-la para fazer esse filme, de muitas mulheres, e de que gosto muito. José Roberto Eliezer é um grande fotógrafo, assim como Chico, que já não está entre nós. Walter Rogério um profissional especialíssimo. Sem contar a contribuição inestimável do genial Goffredo Telles Neto. Um time de estrelas, sorte a minha!
 
MCB: Você trabalhou também no DOC TV 1932/1982 - A Herança das Ideias, do João Batista de Andrade, e no Abrasasas (1984), do Reinaldo Volpato, não é?. O que destaca nessas experiências?

IC: Nesses filmes tive uma participação secundária, e já faz tanto tempo!...
 
MCB: Você tem acompanhado a produção atual do cinema brasileiro? A mulher tem sido bem representada, depois de tantas décadas de feminismo?

IC: Não acompanho o suficiente para discorrer sobre isso. O que salta aos olhos é a qualidade e a quantidade de filmes realizados por mulheres, muitas jovens, brancas, negras, indígenas, em todo os cantos do país. Também a difusão desses filmes ganha novos espaços, como os cineclubes feministas que se espalham em vários estados. Em Minas vocês têm o Cineclube Aranha, em SP temos o Cineclube das Outras e mais alguns. Os feminismos fervem no planeta.
 
MCB:  As duas únicas perguntas fixas do site:

- Qual o último filme brasileiro que assistiu?

IC: Vestido de Laerte, de Cláudia Priscilla e Pedro Marques.
 
MCB: Qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, que você deixa registrado na sua entrevista como uma homenagem?

IC: Grande atriz e realizadora Helena Ignez.


Entrevista realizada por email em 12 de julho de 2017.

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