Ano 15

Ana Carolina

Depois das cineastas pioneiras dos anos 1930 a 60, a partir da década de 1970 o cinema brasileiro  começou uma nova trajetória de mulheres na direção de longas. A paulista Ana Carolina é uma dessas realizadoras, cuja carreira a colocou em destaque não só entre as mulheres como também em todo o panorama do cinema brasileiro. No entanto, o cinema não foi sua primeira opção: "Não era claro, eu fazia medicina, eu abandonei a medicina. Minha história é super simples, uma história como todas. Eu me apaixonei por um homem que queria fazer cinema e eu fui com ele fazer cinema, por amor. Só que depois eu percebi que não era amor por ele, era amor pelo cinema". Depois de vários curtas e médias, ela estreou em longas com o impactante documentário Getúlio Vargas (1973/4): "Minha raiz é o Getúlio".

Ana Carolina faz um mergulho impactante no cinema de ficção com uma trilogia sobre os mecanismos de opressão sobre a mulher.  A família em Mar de rosas (1977); O Estado, a escola e a religião em Das tripas coração (1982);  e a busca do amor romântco em Sonho de valsa (1986/87). "O meu filme não tem nada a ver com a minha condição feminina. Eu sempre, em todos os meus filmes, desde os curtas, minha preocupação não é se sou mulher ou não, porque eu sei a dificuldade que é ser. A minha preocupação é saber quem detém o poder e porque, essa é a única coisa que me interessa, porque é a única coisa que me fere, como fere a todos que têm uma condição de minoria". 

Depois vieram outros filmes notáveis, Gregório de Mattos e Amélia, e por fim A primeira missa ou Tristes tropeços, enganos e urucum (2014). "Eu escrevi o Missa em 1999, para você ter uma ideia, eu fiz a inscrição em 1999. Ele era um filme um pouco diferente, muito grande, tinha muitas situações, ele era mais engraçado. Eu fiz em 1999 e mudei o roteiro em 2002, 2003. Eu não conseguia de jeito nenhum, fiquei 11 anos para conseguir o dinheiro do Primeira missa, que é uma merreca, era uma merreca". Indagada porque fica tanto tempo sem filmar entre uma trabalho e outro, ela desabafa: "Eu acho um escândalo, mas ninguém nem liga, ninguém não esta nem aí. Eu acho um escárnio, um escândalo você ficar 12 anos esperando uma hora de pegar um onda e sair no seu barquinho para chegar na praia. 12 anos são 12 anos, é muito triste isso, mas o Brasil joga fora seus filhos, o Brasil joga fora, não é possível que ninguém perceba isso".

Ana Carolina esteve na 12a Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto, em que exibiu  A primeira missa ou Tristes tropeços, enganos e urucum dentro do programa Mostra Histórica. A cineasta conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro e repassou toda a sua carreira cinematográfica.

Mulheres do Cinema Brasileiro: Ana, é muito impressionante que o seu último filme, A primeira missa ou Tristes tropeços, enganos e urucum, fale sobre a "fundação do Brasil" (pelos colonizadores), e lá no primeiro, o documentário Getúlio Vargas, você também estava tratando de um outro tipo de fundação de nação, que é a de Getúlio Vargas, e aí na questão de direito dos trabalhadores.

Ana Carolina: Minha raiz é o Getúlio.

MCB: É muito impressionante,  porque no A primeira missa, de certa forma, você retoma lá aquela primeira missa dos colonizadores com os índios, e, agora, com aquela equipe de cinema discutindo as questões atuais.

AC: Sobre a impossibilidade de realizar. Até aproveitando o que você falou (antes da entrevista, chamei a atenção dela para o meu site ser sobre mulheres e o pavor que ela tem de associar seu cinema apenas à questão de gênero), o meu filme não tem nada a ver com a minha condição feminina. Eu sempre, em todos os meus filmes, desde os curtas, minha preocupação não é se sou mulher ou não, porque eu sei a dificuldade que é ser. A minha preocupação é saber quem detém o poder e porque, essa é a única coisa que me interessa, porque é a única coisa que me fere, como fere a todos que têm uma condição de minoria. Então eu trabalho dramaticamente nesse viés, entendeu?

MCB: Sim. Tanto que na sua trilogia, quando você pega os mecanismos de opressão sobre a mulher,  no Mar de rosas, a família; no Das tripas coração, o Estado, a escola e a religião; e no Sonho de valsa, a procura pelo amor romântico; todos estão como universos de opressão.

AC: Quem manda? Quem manda? Por que que me mandam? Mas isso não é uma questão feminina, isso é uma questão de minoria. Eu não demorei tanto para entender isso, mas, por exemplo, eu fui convidada, há muitos anos, para ir para a Inglaterra em um festival de filmes de mulheres. Eu nunca vou, mas eu fui, aí quando cheguei lá, estava escrito acima de uma mensa onde estaria: "Festival Black Woman". Eu sentei em uma mesa comprida, em que tinha uma africana, uma árabe e eu. Então falei comigo mesmo, "Meu Deus do céu, alguma coisa eu não entendi". Ai eu perguntei, olha eu sou brasileira... E logo me disseram, para nós black woman é tudo minoria, então basta, é o suficiente. Entendeu?

MCB: O Getúlio Vargas foi fundamental  para esse seu começo no cinema de longas, não é isso? 

AC: Eu gostei muito de fazer o Getulio porque a família, a Auzirinha estava viva ainda, a Auzirinha e a Celina me deram umas dicas de material excepcional, lindo, valioso. Fora o material do DIP, que era lindo. Então foi uma coisa assim, sabe, maravilhoso para mim. E eu também percebi que eu estava navegando em um mar que eu queria. O meu primeiro curta, o Indústria, é também uma representação, um pouco canhestra, e muito inovadora dos empresários com os operários. Quem manda? A raiz é profunda, agora que se passaram 40 anos eu posso perceber. 

MCB: E é também impressionante como um filme que foi feito a partir de material de arquivo se tornou tão pulsante, que não desaparece.

AC: Esse filme foi para os Estados Unidos, eu fiz em 1974  e ele foi para lá em 1976. Não existia vídeo digital, essas coisas todas, ele foi para as universidades americanas, eu doei, ele foi o filme mais projetado nas universidades americanas.

MCB: E ele continua falando da gente agora.

AC: Ele é desordenado, excessivo e tal. Ele não é um filme de documentário didático sobre a Era Vargas não, ele é uma paixão, uma paixão dolorida brasileira.

MCB: Você foi fazer cinema por causa dessas inquietações? Já era claro ou você foi descobrindo?

AC: Não era claro, eu fazia medicina, eu abandonei a medicina. Minha história é super simples, uma história como todas. Eu me apaixonei por um homem que queria fazer cinema e eu fui com ele fazer cinema, por amor. Só que depois eu percebi que não era amor por ele, era amor pelo cinema.

MCB: Eu gosto muito da sua obra, e eu gosto muito daquela trilogia, que foi, inclusive, meu trabalho de conclusão na faculdade de jornalismo. E é muito impressionante ali no Mar de rosas, no  Das tripas coração e no Sonho de valsa, e me corrija se eu estiver enganado, eu percebo uma unidade tão perfeita, porque em cada filme, inclusive, já se fala o nome do seguinte.

AC: Eles estão grudados um no outro.

MCB: Você pensou no conjunto? 

AC: Não.

MCB: Como foi?

AC: Eu comecei a perceber isso depois, quando eu acabei Mar de Rosas.  Na verdade eu não consegui "acabar", quando eu acabei, eu falei para mim mesma "Eu acho que tá preso uma coisa aí". Eu tinha falado “das tripas coração” no meio do diálogo da Norma Bengell com o Otávio Augusto no Mar de rosas. Daí eu falei, tem mais coisas, eu vou puxar, e veio,  veio  o Sonho de valsa. Só que quando a personagem se liberta da fantasia do amor, daquilo de que tem um homem mais forte do que eu que me ama, ai não da mais pra falar disso, aí acabou.

MCB: Eu queria que você comentasse sobre três atrizes fundamentais que eu vejo na sua carreira, que estão sempre lá. Eu queria que você falasse da Cristina Pereira, Xuxa Lopes,e Myrian Muniz. E queria acrescentar a Norma Bengell e a Dina Sfat.

AC: É a Cordilheira dos Andes de mulheres poderosas, de uma qualidade humana, de uma qualidade artística, de uma qualidade de apreender o que eu estava fazendo. E são minhas amigas, ficaram minhas grandes amigas, porque é maravilhoso trabalhar com amigo. Por exemplo, a Cristina,  quando eu escolhi a Cristina (para o Mar de rosas) todo mundo falou "Mas você é louca? Você é doente? Você vai pegar uma menina jovem, anônima e feia?". E eu falei "mas é assim que eu sou neste momento". A Cristina é de um talento, compreendeu perfeitamente, ficou minha grande amiga e me ajudou muito. Ela perguntava sempre pra mim "É assim?" Eu aprendi muito com a Cristina, eu aprendi muito. 

Depois da Cristina,aquela dupla imbatível, que é a Dina e a Xuxa, duas mulheres lindas e quase incapazes de amar, perdendo um patrimônio, que é colégio (no Das tripas coração), perdendo uma riqueza delas sem conseguir, ligadas uma na outra. Uma era frágil e a outra forte, mas ela só era frágil para ela, e ela só era forte para a outra, é um jogo de limite ali. Eu não conhecia a Xuxa e não conhecia a Dina, e aí ficamos amicíssimas. Agora a projeção maior de generosidade, de atuação, e de tudo veio com a Myriam Muniz, que é aquela profundidade de atuação, que já é coagulado. Aquelas duas mulheres estão paradas ali, já não têm para onde ir, já não têm para onde se transformar em porra nenhuma, envelheceram naquilo, nisso, nesse horror que é a vida feminina sobre alguns aspectos. Nesse finge que faz, mas não faz, finge que vai, mas não vai, e finge que vai sair dali, mas não sai, elas morrerão ali. E foram essas atrizes maravilhosas que me ajudaram a me libertar dessa condição feminina, porque depois disso não tinha como voltar nesse assunto, né?.

MCB: A Dina Sfat, em sua biografia, fala fala lindamente de você.

AC: A gente ficou amicíssima. O que eu vivi e estava vivendo, estava explicando, estava tentando atuar, realizar, materializar, me explicar, era o que elas deviam estar também. Um anteparo de mãe, de dona de casa, feliz, não fui,e nunca foi e nunca será.

MCB: E ainda que tenha atuado apenas em um filme seu, teve a Norma Bengell, que eternizou a personagem Felicidade, em Mar de rosas

AC: A Norma Bengell, aquele animal cinematográfico. Quando ela começou a fazer eu falei "Meu Deus do Céu, eu não estou entendendo nada, ela não está entendendo nada". Eu achava que ela não estava entendendo nada, porque ela não segurava o texto, ela não estava fazendo o que eu queria. Mas de repente, quando você liga a câmera, e a Norma tinha isso, quando você ligava a câmera ela se transformava em uma coisa para a tela, para a câmera. Ela vinha na sua frente e falava, estava tudo certo. Ela não entendia nada, eu acho, mas ela fez lindamente também.

MCB: No Amélia você volta com a questão da cultura.

AC: A projeção e o imperialismo, a barbárie.

MCB: A européia e aquelas mulheres do interior ali no meio daquilo 

AC: Adoro aquelas mulheres mineiras, de Cumbuquira. Você é daqui? 

MCB: Eu sou de Sabará, mas moro Belo Horizonte há décadas.

AC: Você é de Sabará, você é mineiro. Então aquelas mulheres lá, que se projetam. Eu me lembro que eu estava na Espanha tentando vender o roteiro e o cara falou "Mas que mania, você sempre fazer uma mulher, duas mulheres, varias mulheres". E eu falei "Mas é essa coisa que desdobra em muitas, muitas parecidas, com pequenas alterações, que são o caminho da libertação". Como se você fosse fracionar aquelas imagens em movimento assim, falar "Olha, eu era esse brucutu e eu consegui depois fazer uma revolução interior por ter relatado o que eu sentia". Esse era o meu dever. Isso fiz com afinco. Eu gosto do Amélia, legitimo, bonito, elegante, filmado de um jeito elegante. Mas no Amélia tem mulher pra caramba, tem as três mineiras, tem a ausente, que é a Marilia (Pêra), e tem a Sarah Bernhnardt, e aí vem o mito. Mas tinha que ser aquele bando de mulheres que depois servirão ao mito.

MCB: E aí, ao mesmo tempo, tem o Gregório de Mattos.

AC: Foi o primeiro filme de homem. Eu fui pegar o mais louco dos loucos, o mais talentoso, o mais lúcido, o mais rasgado. Eu não acho o filme rasgado, mas aquele filme foi meio assim, porque o Wally (Salomão, protagonista) era muito... O Wally é o cavalo do Gregório. Ele se lançava no Gregório com uma propriedade... , difícil aqueles textos, dífícil aquelas poesias. Eu me lembro que fui passar o filme em São Luis, no Maranhão, e aí, no final, teve uma professora de Literatura Brasileira da Universidade de São Luis que me disse "Essas poesias que a senhora pos aí não existem". E eu falei "A senhora não vai querer me dizer que eu inventei esse texto? Pelo amor de Deus, eu tirei do livro, primeiro, segundo e terceiro tomo do Jorge Amado, que fez a obra".

Ela falou "Não existem esses textos", aí eu falei "Então senhora, eu vou mandar, é pagina tal, numero tal". Porque as pessoas lêem por cima e têm medo do Gregório, porque ele é um homem desabrido, ele é o que  a gente queria ser naquele momento e em todos os momentos. Eu queria aquilo, eu queria ser um homem desabrido, em cima de tudo isso. Ele foi, né, morreu por isso. Eu adoro ele, mas só faz sentido para mim fazer um trabalho em que eu possa me libertar e libertar os outros também.

MCB: E essa escolha do Wally é muito interessante, porque isso é de você também, do seu cinema, você tem algumas coisas inesperadas. Vou citar um exemplo, que eu adoro: a Nair Bello em Das tripas coração.

AC: Linda! Adoro.

MCB: Em uma personagem bastante diferente. E aí mesmo no Gregório de Mattos, tem a  Ruth Escobar, tem a Marilia Gabriela.

AC: E em um momento difícil da Ruth, ela teve um alzheimer, então foi um auê para decorar. Mas ela tem dois ou três momentos gloriosos.

MCB: E fazia muito tempo que ela não fazia cinema, eu acho.

AC: A Ruth nunca fez.

MCB: E aí tem a Marilia Gabriela, enfim...

AC: Eu gosto de abrir.

MCB: Agora, o Missa era um projeto antigo, não é?

AC: Eu escrevi o Missa em 1999, para você ter uma ideia, eu fiz a inscrição em 1999. Ele era um filme um pouco diferente, muito grande, tinha muitas situações, ele era mais engraçado. Eu fiz em 1999 e mudei o roteiro em 2002, 2003. Eu não conseguia de jeito nenhum, fiquei 11 anos para conseguir o dinheiro do Primeira missa, que é uma merreca, era uma merreca. Eu não consegui fazer com nenhum ator conhecido, eu fiz com três atores portugueses adoráveis, e o resto era tudo atores desconhecidos. E fiz em três semanas. É uma merda você fazer um filme em três semanas, mas era o que deu para fazer. 

Agora, é um filme em que eu falo do meu trabalho, de verdade, eu falo de como no Brasil a entropia se instala com uma rapidez. A entropia é um desperdício, porque a água sai para fora da bacia o tempo inteiro, nunca você tem um núcleo que favorece a energia, o trabalho, o foco, a solução. O Brasil trabalha com a exuberância e a dissolução, e a não solução e o não foco,. E todas, desde que eu faço cinema, todas as leis, as agencias nacionais de cinema, as ações normativas, é tudo para atrapalhar, tudo para atrapalhar. E agora nós estamos vivendo uma hora em que os filhos híbridos do cinema, porque televisão não é cinema, é o audiovisual, os jogos, os jogos de imagem e som que estão por aí e que são frutos, filhotes da internet, também não são cinema. Então nós estamos vivendo esses filhos híbridos que chamam de cinema, e não é.

MCB: É um escândalo que realizadores como você fiquem tanto tempo sem fazer cinema, não é?

AC: Eu acho um escândalo, mas ninguém nem liga, ninguém não esta nem aí. Eu acho um escárnio, um escândalo você ficar 12 anos esperando uma hora de pegar um onda e sair no seu barquinho para chegar na praia. 12 anos são 12 anos, é muito triste isso, mas o Brasil joga fora seus filhos, o Brasil joga fora, não é possível que ninguém perceba isso. Agora mesmo, a comunidade de cinema não abriu o bico, desde 2002, 2003 que não abrem o bico para falar o que está acontecendo, não tem um filme de 2002 para cá, um filme que comente. Teve Tropa de elite, que venham os filhotes de Tropa de elite, que é violência. Mas para você pensar sobre o Brasil  não tem, pensar sobre o cinema não tem, ninguém abre o bico, ninguém fala nada, fico eu, ninguém fala nada. A Ancine virou um monstro, um monstro cooptador de cabeças, impossibilitando de todas as maneiras o fazer cinema, e ninguém falou nada, desbarataram tudo, jogaram tudo fora, esta lá a Ancine inteira, estufada de funcionários de crachá.

MCB: Você tem a real dimensão do seu tamanho para o cinema brasileiro, não tem?

AC: Não tenho.

MCB: Não? 

AC: Não, não tenho porque em volta de mim tem muito silencio, como eu te falei, eu estou muito só.

MCB: Eu acho você um dos cinco maiores diretores vivos do cinema no Brasil.

AC: Estou muito só e não consigo produzir. É muito estranho, não ouço barulho, eu não ouço a chamada, o canto da sereia. Aliás, outro dia, me perguntaram qual era o meu mito e eu disse, é Ulisses. Por que? Porque ele vai por aí amarrado no mastro para não se deixar seduzir pelas soluções fáceis e vai em uma solidão, é uma solidão, um silencio de todo mundo. É tão mais fácil falar que sou louca, "Você é louca, heim!". E como que uma pessoa diz uma coisa dessas para mim? E a turma do mais do mesmo como que fica? Porque tem uma turma que trabalha quase todo ano fazendo mais do mesmo, é pão de queijo, né? 

MCB: Você não pensa, por exemplo, em buscar parcerias para dirigir fora do Brasil?

AC: Não dá, a gente não tem mercado, nem em Portugal você consegue. A primeira missa é uma coprodução portuguesa e espanhola, eu estou tentando de novo, mas está mais difícil agora do que antes. Porque a Europa tem uma coisa muito vivificada de produção, muito mais que aqui, então eles estão ocupados com o mercado deles. Portugal ainda tem a cruz deles que a SIC, que é a Globo deles. E aí interrompe muito o fluxo, o cinema de Portugal é muito incipiente do ponto de vista do mercado, o que deu certo lá é a SIC, mercado não tem,. Mas, por exemplo, a Espanha, a França, Alemanha, eles têm o próprio nicho protegido, eles produzem, Eu procurei agora Noruega, Dinamarca, Suécia, Alemanha e nenhum desses países tem coprodução com Brasil. Agora abriram o Uruguai. Meu amor, você acha que o Uruguai tem dinheiro para por em coprodução com brasileiro?  E aí tem a Argentina, ela é um clube fechado e bom, ela tem umas normas muito interessante de produção, ela consegue fazer, ela não deita e rola na produção como aqui. Aqui é o que fizeram com as empresas estatais da vida, mesmo mecanismo, você sobe orçamento, você me dá tanto, faz o filme por tanto, sobra tanto, e você fica com tanto. A bilheteria que se foda. Na Argentina não "Quanto você faturou no seu ultimo filme? Dez mil? A gente te dá vinte mil". É um mecanismo saudável, entendeu? E eles fazem bons roteiros e bons filmes, o que adianta fazer aqui mais do mesmo? 

MCB: Apesar da dificuldade, você está envolvida em algum novo projeto?

AC: Eu tenho um filme novo, que discute a ideologia, eu detesto ideologia, detesto porque ideologia vai desembocar no poder, a gente sabe. Estudei em colégio alemão, sinto cheiro de autoridade, eu sinto cheiro de poder, eu sinto cheiro, quando o cara tem desejo de poder., eu já vejo quando passa pela cabeça dele, eu pressinto, esse cara vai aprontar. Eu tenho horror da ideologia,  meu filme tem uma discussão do integralismo, nazismo, fascismo, qualquer coisa em ismo não vai dar certo.

MCB: Você já filmou ou vai filmar?

AC: Não, não filmei nada, não tenho dinheiro. 

MCB: Entendi. Para a gente terminar, as únicas duas perguntas fixas do site. Qual o último filme brasileiro a que você assistiu? E qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e qualquer área, que você deixa registrada na sua entrevista como homenagem?

AC: Carmem Santos. Ela se fudeu, mas ela foi até onde deu, foi até o fim, ela queria fazer Inconfidência Mineira., não foi?

MCB: E fez.

AC: Ela deve ter tido esse chamamento pelo cinema, deve ter sofrido muito. Não tem nada a ver a Gilda de Abreu, por exemplo, com a Carmem Santos, não tem. A Carmem Santos tem um impulso verdadeiro, a Gilda de Abreu foi na onda do sucesso do maridão que foi moleza, filmar O ébrio até eu, né? Ela conhecia o cinema profundamente, morreu por ele, inadvertidamente porque ela sabia que não tinha físico pra peitar aquela encrenca.

MCB: E qual foi o ultimo filme brasileiro que você assistiu?

AC: No cinema?

MCB: Ou em qualquer lugar.

AC: Não posso te dizer porque não devo, eu prefiro dizer qual foi o ultimo filme brasileiro que eu assisti e gostei. Aliás, eu gosto, eu gosto de todos eles, meus amigos queridos e grandes cineastas, eu acho O padre e a moça, Macunaíma, Rio 40 graus, uma joia. Sou amiga do Nelson (Pereira dos Santos), amo o Nelson, tudo que ele fizer eu adoro, verei sempre com prazer, sabe, adoro. Esses são os filmes que me emocionam até hoje, eles são novos, eles têm uma raiz, metem a mão lá e trazem aquela jóia de lá, eu só gosto assim, quando vem a gema inteira lá de baixo.

MCB: Alguma pergunta que eu não fiz que você gostaria de comentar? 

AC: Não querido, adorei a sua entrevista, adorei você.

MCB: Muito obrigado.


Entrevista realizada em junho de 2017 durante a 12a Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.